25 de maio de 2017

Moradores relatam desaparecimento de familiares após ação de Doria na Cracolândia

Após ação do último domingo, moradores da região protestaram contra violência e relatam o desaparecimento de parentes levados pela polícia

Por Iuri Salles e Gil Reis
Fotos: André Zuccolo

“Na Cracolândia também tem família!”. Esse foi o grito das ruas do centro nesta terça-feira (24), em manifestação organizada por moradores e comerciantes que construíram suas vidas em torno das alamedas Helvétia e Dino Bueno, local conhecido popularmente como Cracolândia.

No último domingo, enquanto ainda acontecia a Virada Cultural em São Paulo, uma operação das polícias Civil, Militar e Metropolitana realizou 53 detenções, além de fechar comércios e pensões no chamado “Quadrilátero da Luz”. A ação, segundo a Prefeitura e Governo do Estado, foi contra o tráfico de drogas na região.

Se a intenção era combater o tráfico, a investida foi totalmente ineficiente e ainda espalhou a Cracolândia pra outros lugares. O chamado “fluxo”, local onde muitos usuários se reúnem para comprar e consumir crack apenas mudou de lugar. Agora os dependendes estão mantendo a mesma rotina, só que na Praça Princesa Isabel, a poucos quarteirões da antiga Cracolândia.

Mães, pais, crianças e jovens saíram em marcha exigindo da Prefeitura conversa direta com os moradores, além de explicações oficiais da polícia sobre o desaparecimento de pessoas que foram levadas para delegacias de forma negligente. Minutos antes da manifestação, em frente à estação da Luz, o prefeito João Doria e o governador Geraldo Alckmin assinaram documento que firma uma Parceria-Público-Privada (PPP) para a região. Sob vaias e protestos, que foram ignorados com sorrisos, os dois deixaram o local sem ouvir nenhum dos moradores.

“Teve muita injustiça. Onde tem realidade também tem mentira. A maioria que foi levada é inocente!”, gritou Renata, que mora na alameda Helvétia há 36 anos, em um megafone. “É a população que está pagando pela operação. Eles ofereceram mais perigo do que já tinha aqui dentro!”, completou a moradora.

A irmã de Renata foi uma das pessoas que foram levadas pela polícia no domingo e, mesmo com muita procura da família, continuava desaparecida até às 14h desta terça.

Filho de Renata mostra a marca do tiro de bala de borracha desferido por policiais à queima-roupa em seu pescoço

Renata também tinha um bar. Ficava na frente da casa de sua mãe, que está no centro há 80 anos. Foi lacrado. “Não teve notificação pra ninguem”, contou ela, que ainda conseguiu salvar a geladeira e poucos pertences. “Minha mãe é comerciante, meu irmão é comerciante. Deram 20 minutos pra tirar as coisas do comércio. Você tira o que em 20 minutos?” completou Renata, que também é mãe solteira e vive com seus sete filhos. Um deles, abordado por policiais quando saía de casa para o trabalho no domingo, foi atingido à queima roupa por um disparo de bala de borracha.

Espera-se que, com a decisão da Justiça tomada por meio de liminar nesta quarta-feira, que proibiu a Prefeitura de demolir prédios e retirar famílias do local, Renata e seus familiares consigam ao menos ter acesso à seus pertences, que estão dentro do estabelecimento.

Carmen Silva, de 57 anos, é uma das lideranças da Frente de Luta por Moradia (FLM), que atua em ocupações na região central. “É um momento de retrocesso no Brasil inteiro, principalmente em São Paulo, onde o prefeito expulsa trabalhadores de dentro da sua própria casa”, disse Carmen, que atua há 20 anos como uma das protagonistas da FLM.

A falta de planejamento e aviso na ação dominical, realizada em plena Virada Cultural, foi criticada por juristas do Ministério Público e ocasionou, na noite da quarta feira, no pedido de demissão da secretária municipal de direitos humanos Patrícia Bezerra, que chamou a operação de “desastrosa”.

Vinícius não quis se identificar à reportagem por medo de represálias

“Fera, sabe onde tá a Cracolândia? Tá no governo. Se não tiver Cracolândia eu não tenho CAPS, eu não tenho programa De Braços Abertos, eu não tenho nada que eu possa lavar o meu dinheiro, simples assim meu bom” afirmou Vinícius, usuário de crack.

A ação trouxe à luz novamente a face desumana que a maquiagem e o marketing do prefeito não conseguem esconder: “Ningúem pega ser humano, tira de casa e joga na rua. Qual a proposta que ele tem ao derrubar uma casa? As famílias ficam na rua? Que PPP (Plano-Público-Privado) é essa que não avisa e não tem planejamento?”, questionou Carmen.

A falta de alternativas oferecidas aos moradores e usuários fica evidente ainda no pedido relaizado pela Prefeitura à Justiça, para permitir a internação compulsória de usuários. O Ministério Público de São Paulo classificou o pedido como uma “caçada humana” promovida pelo prefeito.

Segundo Carmen, que nessas duas décadas atuou muito no centro de São Paulo, a especulação imobiliária é quem faz girar a engrenagem deste e de outros governos. “Isso tudo é a serviço da especulação, tem um foco aqui há muito tempo. Esse rótulo Cracolândia foi o Andrea Matarazzo que deu lá traz, para desvalorizar a região, para que a especulação imobiliária e comercial, das grandes como a SHARP e a Sony, viessem para acabar com o pequeno comércio.”, explicou Carmen, que é uma das coordenadoras do antigo Hotel Cambridge, ocupação que virou filme. “O desmonte que essa Prefeitura está fazendo é um desmonte de vida, desmonte do ser humano”, finalizou.

Ao final do ato, os manifestantes também hostilizaram as produções da Rede Globo. Uma das equipes não conseguiu terminar o trabalho e foi expulsa aos gritos de “Fora Globo”.

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