11 de maio de 2017

Assentados e ruralistas abraçam discurso ecológico


Pela conquista do público urbano, feiras agrícolas de entidades antagônicas apostam nas bandeiras da agroecologia e da alimentação saudável como mote para a agricultura do século 21


Por: Bruno Cirillo
Fotos: Bruno Cirillo / Agência Dois (Divulgação Feira Viva)

Lula passou pelo pavilhão principal da 2ª Feira Nacional da Reforma Agrária, no Parque Estadual da Água Branca, arrancando saudações nada fanáticas, mas admiradas e surpresas com a sua aparição. “Ô, meu bruxo!”, saudou, com a voz emocionada, um dos feirantes do Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra, o MST. O título mágico vinha a calhar com o figurino do ex-presidente, vestido elegantemente de preto, como se estivesse de luto, com ares de quem caminha entre asseclas. O ex-presidente do Uruguai, Pepe Mujica, tinha acabado de fazer um discurso à altura das expectativas no palco do evento.

Praticamente ao mesmo tempo, isto é, no início da tarde ensolarada do último sábado (8), dois homens de confiança de Alckmin compunham a mesa de abertura da 1ª Feira Viva, organizada pela Sociedade Rural Brasileira, a SRB, no Museu Brasileiro da Escultura (Mube). Convidados de honra, o governador paulista e o prefeito de São Paulo, João Dória Jr., que devem disputar a candidatura rival à do PT na próxima corrida presidencial, não deram o ar da graça. Sem misticismo, coube às figuras pouco conhecidas de Arnaldo Jardim e Ricardo Salles, secretários de Agricultura e Meio Ambiente, garantir o apoio da situação política à iniciativa do agronegócio.

A feira do MST, com 500 expositores, recebeu cinco mil visitantes naquele sábado, de acordo com a organização. Por coincidência, o mesmo número foi estimado por uma das coordenadoras da feira da SRB, com 25 expositores. Ambos os eventos eram abertos ao público. Enquanto Alex Atala, Helena Rizzo e outros chefs de cozinha ofereciam pratos com ingredientes da Feira Viva às 300 pessoas que esgotaram os ingressos da área VIP, vendidos com antecedência a R$ 150, o espaço culinário da Feira da Reforma Agrária era composto por vinte e poucas tendas identificadas por região, do Rio Grande do Sul ao Pará, com refeições típicas de até R$ 20. Na comparação entre as duas feiras, visitadas em sequência pela reportagem, quase tudo divergia: perfil do público, curadoria e, sobretudo, as motivações ideológicas por trás de cada feira, enraizadas na luta de classes rural.

Apesar dos pesares e das aparências, com a clara intenção de se aproximar do público urbano e tentar provar, por tabela, que as pechas do passado estão sendo superadas, os sem-terra e os ruralistas embalaram suas feiras num discurso muito parecido, de valores que surgiram no campo há não mais de três décadas, fazendo soar uma espécie de consenso.

Em raro exemplo de consciência fraterna, embora involuntário e inadmissível para ambos, a esquerda campesina e o agronegócio desfraldaram simultaneamente as bandeiras da agroecologia e da alimentação saudável. É de se pensar que, de repente, na medida dos eventos, o consumidor da metrópole é que tem o poder de juiz. Um estrangeiro não poderia imaginar, ao visitar as feiras, que ali estavam “invasores de terra violentos” e “fazendeiros assassinos de índios”, estereótipos que se tornaram generalizações intolerantes, de ambos os lados, um sempre contra o outro (e com vastas torcidas), no Brasil.

“Sem reforma agrária, a gente não consegue uma alimentação saudável”, afirmou Bela Gil, que tem um programa televisivo de nutrição, no palco da feira do MST. Antes dela, Letícia Sabatella recitou um poema, de autoria própria e escrito na véspera, sobre o papel sagrado dos índios na proteção de santuários ecológicos. As tradições alimentícias indígenas, algumas delas com centenas de anos, como a farinha de piracuí – um peixe – estavam no centro do debate, sendo que boa parte do know-how nativo foi absorvido pelos camponeses no Brasil.

Pepe Mujica, ovacionado antes, durante e depois de seu discurso, ressaltou a importância do agricultor para a espécie humana. “É mais fácil fazer um engenheiro do que um campesino de alma”, declarou, ele próprio um produtor rural, defensor da reforma agrária e fiel ao princípio de que “a terra não nos pertence, somos nós que pertencemos à terra”. Com duras críticas às fabricantes globais de sementes, agentes químicos e máquinas do agronegócio (“o luxo da ciência, que não serve à vida, mas ao mercado”), o político discursou de acordo com a sua linha de pensamento, reforçando que a luta social não faz apologia à pobreza, mas à sobriedade: “Se queremos melhorar a cozinha, temos que entender que a boa agricultura tem uma produtividade menor.”

“Se queremos melhorar a cozinha, temos que entender que a boa agricultura tem uma produtividade menor”

– Pepe Mujica, ex-presidente do Uruguai

A “boa agricultura”, com produtos livres de agrotóxicos e origem controlada, era o mote que predominava, igualmente, na Feira Viva. No contexto do agronegócio, no entanto, contrário à redistribuição de terras e defendido tradicionalmente pela SRB, essa visão partia de outro princípio: o de que a agricultura brasileira é diversa e não se restringe ao latifúndio, havendo espaço de sobra para bons negócios com a diversificação de culturas e produtos de alto valor agregado.

Os idealizadores do evento, de uma ala moderada do setor rural, importaram da França o conceito de terroir, que designa a origem de produtos feitos cuidadosamente, em pequena escala, caracterizando-se por aspectos exclusivos de determinada região. Bons exemplos dessa tendência, na exposição, eram representados por um queijo digno do paladar francês, oriundo de uma fazenda da Serra da Canastra (MG), e a já conhecida linguiça de Bragança (SP), que dispensa a soja e o milho do agrobusinnes na criação dos animais, optando por dietas suínas especiais à base de frutas. A Feira Viva tinha ostras, cogumelos e pimentas especiais para provar que o negócio rural não se limita às commodities.

Para Zé Ferreira, expoente da agroecologia brasileira com duas propriedades – uma em Paraty (RJ) e outra no Vale do Paraíba (SP) – a questão alimentar vai além do que discutem ruralistas e sem-terra. “Não tem que ser gourmet nem tem que ter reforma agrária”, ele disse. Locado em um dos quiosques frontais da Feira Viva, para quem chegava ao vão livre do Mube no sábado, o produtor de origem pernambucana, negro e retirante, expunha geleias, açafrão em pó e produtos à base de cacau. Sua produção é baseada na qualidade, diversidade de produtos e o conhecimento da terra, com extraordinários 60% de reserva legal. “O que eu acredito e defendo, na minha frente de trabalho, é a conscientização da produção, ou seja, produzir com qualidade sem olhar pra quem”, declarou Ferreira. “O que nós precisamos é que a sociedade como um todo abra seu olhar para uma mudança de paradigmas. Não é produzir para A ou B, é preciso produzir para a humanidade.”

Zé Ferreira, o anarquista do campo, na Feira Viva. (Foto: Agência Dois/Divulgação)

Enquanto a luta social pela terra se apoia no discurso de que 75% da alimentação brasileira são oriundas de pequenas propriedades classificadas pelos sindicatos rurais, no passado, como agricultura familiar, o agronegócio tem como discurso central a previsão malthusiana de que poderá faltar alimento no mundo em 2050, uma ideia endossada pela FAO-ONU.

Para Ferreira, ambas as visões estão equivocadas. “Cada um fala um equívoco”, diz Ferreira, esse perfeito anarquista do campo. “A reforma agrária não vai resolver o problema, primeiro por causa da burocracia governamental que ela enfrenta – a reforma agrária, no nosso país, nunca acontece. O gourmet também não resolve porque não é só o burguês que precisa comer, tem uma massa muito maior à nossa volta, de baixa renda, que também precisa se alimentar com qualidade”, ponderou o agricultor.

Zé Ferreira está coligado, de certa maneira, a produtores do Vale do Paraíba responsáveis pela maior parte da exposição da Feira Viva. Eles formam uma espécie de vanguarda paulista interessada em produzir variedades raras, com técnicas da agroecologia, e se aliaram à SRB para projetar o sonho em área nobre paulistana, com patrocínio do banco Santander.

Felipe Villela, da associação de rizicultores Alto do Marins, vendia tipos especiais de arroz. Um deles, o arbório (para risoto), levou quinze anos de pesquisas para chegar à forma ideal. Havia também um arroz vermelho de genética indiana e um arroz preto com aroma marcante na tenda do produtor.

“O arroz especial entra numa fatia de mercado bem diferente do arroz branco. É gourmet, mas também pode entrar na categoria nutricional”, disse Villela, filho de um dos pioneiros das pesquisas com arroz no Brasil, junto à Associação Paulista de Tecnologias dos Agronegócios (Apta). Os produtores de arroz especial do Vale do Paraíba, juntos, cultivam 200 hectares sem agrotóxicos e obtém níveis de produtividade entre 2,5 e 4 toneladas por hectare. Com embalagem atraente, o quilo dos produtos é vendido com preços entre R$ 20 e R$ 25. “A lógica que se reproduz é a mesma do vinho”, observa Villela. “O valor agregado não diz respeito a uma jogada de marketing, mas à qualidade do produto.”

Nelson Krupinski com seu arroz orgânico na Feira da Reforma Agrária. (Foto: Bruno Cirillo)

Na Feira da reforma Agrária, o gaúcho Nelson Krupinski, do MST, vendia os mesmos produtos oferecidos pela Alto do Marins, mas a granel, em sacolas plásticas sem rótulos. A cooperativa da qual ele faz parte, Cootap Arroz Orgânico, com 5 mil hectares de área certificada, chegou à produtividade média de 5 toneladas por hectare.

“Temos um nível de produtividade quase igual à média nacional do arroz branco comum [de 8 toneladas por hectare, de acordo com os dados do setor]”, disse Krupinski. O quilo dos diferentes tipos de arroz (arbório, preto, vermelho) dos produtores, que vivem e trabalham em assentamentos rurais, estava sendo vendido a R$ 12 paras os visitantes do Parque Estadual da Água Branca naquele sábado. Eles não utilizam nenhum tipo de agrotóxico, e passaram a diversificar os produtos da rizicultura em 2012, reforçando a frente agroecológica dos sem-terra com apoio do Instituto Rio-grandense do Arroz (Irga).

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