08 de maio de 2017

Feira Nacional da Reforma Agrária discute ocupação no campo e alimentação saudável em SP


Durante quatro dias, a luta no campo ocupou a capital paulista com shows, peças teatrais, intervenções artísticas, debates políticos e a feira de produtos artesanais e orgânicos


Por: Thiago Gabriel
Fotos: Carolina Piai

A segunda edição da Feira Nacional de Reforma Agrária levou mais de 170 mil pessoas durante os quatro dias de ocupação do Parque da Água Branca, em Perdizes, zona oeste de São Paulo. Em um dos bairros mais ricos da cidade, em que o som de panelas tem sido constante nos últimos anos, o Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST) chamou atenção para a importância da reforma agrária para o país e da alimentação saudável para a população.

A feira de alimentos promoveu o comércio de mais de 280 toneladas de produtos vindos de assentamentos de todas as regiões do país. Mais de 800 pequenos produtores rurais participaram da Feira e trouxeram para São Paulo mais de 600 itens diferentes, entre alimentos in natura e agroindustrializados, demonstrando a diversidade e importância da agricultura realizada nos acampamentos do movimento. Além dos alimentos, sempre livres de agrotóxicos, havia também a exposição de artesanatos, roupas e comidas típicas produzidos pelos assentados e assentadas do MST.

A cultura também marcou presença durante os quatro dias de evento. Mais de 250 artistas populares se apresentaram na Feira, entre grupos de teatro, intervenções artísticas, cantores regionais e músicos de expressão nacional. Entre os ritmos que tomavam o Parque estavam a moda de viola, o côco, a capoeira angola, o reggae, o rap e a poesia. A Feira tinha também atividades infantis e as crianças eram presença constante a qualquer hora do evento.

O palco principal contou com shows de Emicida, Tico Santa Cruz, Tulipa Ruiz, Katya Teixeira, Targino Gondim, Pereira da Viola e Liniker e os Caramelows. O fechamento das atividades no domingo ficou por conta de Chico César, voz expoente na luta dos sem-terra e pela reforma agrária.

No último dia, a Feira recebeu também a peça “Blitz – O império que nunca dorme”, da Trupe Olho da Rua. Em outras circunstâncias o espetáculo foi interrompido pela Polícia Militar e já teve até um de seus atores detidos. Felizmente, no Parque da Água Branca, “Blitz” aconteceu sem maiores transtornos e levou o público à gargalhadas e principalmente à reflexão.

A apresentação aborda genialmente a brutalidade da instituição da PM, a espetacularização da violência pela grande mídia e o genocídio da população preta, pobre e periférica no Brasil – segundo CPI do Senado sobre o Assassinato de Jovens, o país assassina 63 jovens negros por dia. A Trupe honra esses entes: ao final, saúda inclusive as suas conterrâneas Mães de Maio e levanta a bandeira com os rostos de seus filhos. Ali, como diz outra bandeira levantada, ao lado também da do MST, “nossos mortos têm voz”


Depois do encerramento da peça, foram lembrados também os mortos no campo. No último mês de abril, foram amarrados, torturados e assassinados a golpes de facão e tiros nove camponeses no Mato Grosso. No dia 24, também foi assassinado Silvino Nunes Gouveia, militante do MST, na porta de sua casa. De acordo com a Comissão Pastoral da Terra (CPT), em 2016 foram assassinados 61 pessoas em conflitos do campo, o maior numero desde 2003.

O debate político ficou por conta de rodas de conversa e seminários que aconteciam durante os quatro dias. A expectativa principal ficou em torno da conferência “Alimento Saudável: um direito de todos” que debateu reforma agrária e alimentação livre de agrotóxicos em uma mesa composta pelo ex-presidente do Uruguai Pepe Mujica, a liderança do MST João Pedro Stédile, a nutricionista e apresentadora Bela Gil, a atriz Leticia Sabatella e Alexandre Padilha, ex-ministro da Saúde do governo Dilma.

Outro destaque foi o lançamento oficial da plataforma #ChegaDeAgrotóxicos, que já está em funcionamento desde março deste ano. A proposta busca ampliar a luta por uma alimentação saudável e o enfrentamento ao “Pacote do Veneno”, como são identificadas uma série de medidas de lei em tramitação no Congresso que visam facilitar o uso de agrotóxicos no país. Através do site, o público tem acesso a informações, estudos e debates sobre o uso dessas substâncias e à campanha de mobilização pelo PL 6670/2016, que institui a Política Nacional de Redução de Agrotóxicos através de mais de 100 medidas propostas pela sociedade civil.


Os quatro dias foram de muita troca de experiência com os paulistanos, tão acostumados a ouvir, através da grande mídia, uma demonização do MST, o silenciamento e a desinformação sobre o tema da reforma agrária e uma descaracterização do trabalho desenvolvido pelos produtores rurais. A Feira também é essencial para chamar a atenção da esquerda para o debate sobre alimentação saudável, comumente apropriado pelas grandes empresas e por um discurso capitalista “eco-friendly” que busca monopolizar o debate sem atacar os grandes produtores e responsáveis pelo uso de substâncias tóxicas nos alimentos.

Foi uma oportunidade para que o movimento apresentasse suas ideias e práticas a um público diversificado na capital paulista. Como foi dito no encerramento do evento: “A reforma agrária é para o campo, mas sua conquista se faz também na cidade”.

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