03 de maio de 2017

Garoá lança seu primeiro EP e fala da cultura de bueiro no Vaidapé Na Rua


No primeiro #VaidapéNaRua de abril recebemos o compositor e músico Bruno Oliveira, mais conhecido como Garoá.


Por Victor Santos
Fotos: Divulgação

O programa semanal #VaidapéNaRua recebeu com exclusividade o pré-lançamento do primeiro EP de Garoá, músico paulistano que transita entre o samba, MPB, blues e o rap. As três músicas do trabalho de estreia foram tocadas pela primeira vez pelo DJ Pae Vito nos estúdios da Rádio Cidadã 87,5FM, a comunitária do Butantã.

Ouça o programa completo no player:

Garoá

Bruno Oliveira tem 22 anos e conta que o nome Garoá surgiu em uma fase nebulosa da vida, de muita reflexão. Na época, tinha um projeto com seu atual produtor, Ubirajara Iglecio, da Coisaboa Produções, e buscavam um nome.

“O nome me gerou uma reflexão sobre o ciclo da água. Representava como eu estava me sentindo na época em relação às nuances que passamos enquanto ser humano. Podemos ser aquela chuva de verão, intensa pra caralho, uma garoinha fina que não acaba nunca e também uma seca bizarra”, explica.

Pode ser que suas primeiras interações com a música tenham acontecido antes mesmo de nascer. Afinal, no primeiro momento em que a resposta do corpo foi visível, ela foi positiva e bastante inusitada.

“Eu comecei tocando com quatro anos de idade. Mas comecei na música antes, minha família conta que eu dançava com o barulho da máquina de lavar roupa em casa”, ri.

Foi no violino que Garoá iniciou sua caminhada musical, aos quatro anos. Cresceu e entrou em contato com outros instrumentos, como o violão e principalmente a bateria. A partir daí, transitou entre diferentes instrumentos e estilos musicais.

Garoá conta que sofria forte influência de seu avô Onofre, dono de conservatório e amante da música brasileira, e também de seu primo André, “um dos caras mais punk que eu já conheci na minha vida”, que fazia chamada oral sobre o rock’n’roll.

“Durante anos e anos toquei rock’n’roll. Já toquei pop rock e durante seis anos toquei em uma banda de hardcore chamada Livre”, grupo que continua sua caminhada. Saiba mais clicando aqui.

Ainda criança, ao se deparar com uma bateria na casa de André, decidiu abandonar o violino e se dedicar à arte das baquetas. “Meu avô ficou bravão, ele era dono de conservatório por anos, queria que eu estudasse música clássica”.

Foi baterista a vida inteira mas com seu novo projeto se distanciou das baquetas, se aproximou das cordas e também dos microfones.

Trampos

Quando surgiu a iniciativa de desenvolver o projeto “Garoá EP”, o intuito era trabalhar um material 100% autoral, de composições próprias do músico. A mudança para um trampo colaborativo se deu a partir de um encontro com o apresentador do programa Vaidapé Na Rua, o grande mano Xei, enquanto ouviam Noel Rosa.

Garoá entrou em contato com a rapaziada que viria a formar o grupo de samba QuartoTento e optou por um trampo com uma série de colaborações com os músicos, além de outros amigos.

“Vou até precisar de uma cola. Quando a gente tem amigo bem sucedido não pode esquecer de ninguém”, explica rindo.

A ideia de um trabalho colaborativo fluiu bem. O EP é composto por três canções, a única composição de Garoá é “Chão”. A música “Herança de Zumbi” é de Giovanni Felizati, Maurício Prince e Dentinho Poesia, já “Samba Prece” é de autoria de Maurício Prince.

Todo o processo foi feito de forma colaborativa. Captação, mixagem e masterização ficaram por conta de Renan Toledo Duín, a coprodução sonora por Giovanni Felizate e a produção musical foi fruto pela parceria entre Duín e Felizate.

A produção executiva é uma realização de Coisaboa Produções; arranjos foram proporcionados pela parceria entre Duín, Felizate e Garoá; a arte por Pedro Mirili, um cidadão que já esteve presente nos estúdios do Vaidapé Na Rua e está sumido.

Na bateria, Iago Amadei, na percussão Felipe El e Felizate, baixo por Duín, guitarra por Rodrigo Nizu, violão por Garoá e Felizate e o coro na voz dos irmãos Luan, Alana e Pablo Pali.

Ainda com exclusividade, Garoá falou sobre seu próximo trabalho, uma música em parceria com o rapper Dime Cronista, do grupo Cronistas da Rua, e participação do mineiro Djonga. Já já sai esse trampo, fiquem ligados!

Música

Questionado sobre o que tem escutado, Garoá respondeu na lata: “Hoje eu passei o dia ouvindo funk”. Garoá fala com muita empolgação sobre o hip hop e vê os dois gêneros originais do gueto como o futuro da música popular brasileira. “Azar de quem não gosta”, ri.

Suas referências foram diversas pela vida. “Tinha o primo punk, meu avô me apresentou o choro e o samba. Já minha mãe trouxe a MPB e meu pai me apresentou o groove americano. Mesmo tocando hardcore eu sempre fui um grande consumidor de música”, explica.

Também assume ser um grande fã de ícones recentes da música brasileira, como Anelis Assumpção, Curumin, os três integrantes do grupo Metá Metá – Juçara Marçal, Kiko Dinucci e Thiago França – que também desenvolvem trabalhos solo à parte, entre muitos outros.

Sua identificação com Dinucci se dá também pelas influências do punk carregadas pelo guitarrista, mesmo trabalhando com música brasileira. Além disso, pelo fato de escrever um samba com fortes raízes paulistanas.

“Não adianta eu ficar escrevendo sobre a beleza de não sei o quê se minha realidade é outra. Eu preciso escrever sobre a minha realidade. As músicas dele tratam da temática paulistana”, explica.

Cultura de bueiro

Pessimista convicto, Garoá explica seu entendimento de que é da merda, do caos, das tretas do dia-a-dia que surgem as luzes mais fortes.

“O que mais me atrai é esse lado obscuro da cidade. São Paulo não perdoa ninguém. Todo mundo tá correndo atrás do seu e é dentro de alguns refúgios que encontramos nossas amizades. Mesmo na nebulosidade que é São Paulo a gente consegue dar risada, consegue amar, encontrar pessoas legais”, conta com convicção.

A ideia pode ser conferida na capa do EP. “É uma ratazana dando de mamar para vários ratinhos. Justamente essa parada suja, fedida, também dar luz a algo que possa ser interessante”, explica o músico.

|  O Vaidapé na Rua é transmitido ao vivo toda segunda-feira, às 20h, pela Rádio Cidadã FM. Na região do Butantã, o público pode acompanhar o programa sintonizando 87,5 FM e, no mundo inteiro, através do site da rádio. Acompanhe também a transmissão #aovivo pela página da Vaidapé no Facebook

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