16 de maio de 2017

Passa da hora do almoço

Por: Mariana Zoboli do Carmo
Ilustra: Pedro Mirili

Estamos entrando em uma teia. A cada nota um pouco mais. Essa teia está sendo tecida há muito tempo, com a astúcia de uma aranha experiente, tradicionalista e mãe de muitos filhos. Ela zela pela rígida educação dos rebentos para que eles reproduzam exatamente aquilo que foi ensinado. Tudo com o mesmo rigor para uma existência de acordo com a teia que sustenta todos eles em pé, em um aprimoramento constante dos berços e burocracias onde foram embalados. São condescendentes com a casa, com os seus, com a tradição secular de sua mãe. Contudo, na natureza existem também as moscas, libélulas, louva deuses, os pequenos insetos e por vezes eles acabam presos na grande teia durante o voo. Lá, eles esperam ser devorados no interior da casa da grande aranha. A espera, à espera, assalariados, apartamento de 30 metros quadrados, carro, trabalho, apartamento, medo da polícia, televisão, um celular novo, o medo, a espera, a morte que um dia chega. A matriarca, generosa que só ela, olha orgulhosa para o trabalho dos filhos, para submissão das presas e facilita fio-a-fio a financeirização das sobrevidas que malham a carne para o crescimento sadio de sua família, que se regozija nos seios dos bancos-parlamentos-corporações.

Se entendo onde estou agora? Cercada por policiais, gás lacrimogêneo, prisões, ruas que encarceram e relações que não libertam na elegia da mocidade, que já não tem mais nenhuma perspectiva de futuro, a não ser finalmente dinamitar a ilha de Manhattan. Não vivo do presente, mas de inquietações que percorrem de cima a baixo o corpo frágil que só faz sentar, levantar e esperar o semáforo abrir. Enquanto os carros passam, a comida desce, muitos despertam, a vida se vai vestida de multiplicidade e assim deve ser a juventude. Nada além das velhas estruturas em ruína eminente chega aos olhos dos bebês que já gritam estranhando a desumanização próxima, a subjugação de suas capacidades mais extraordinárias e o fim dos melhores dias de suas vidas consumidos por motores a diesel, nas teias da velha aranha, entre uma superestrutura vazia e outra.

Até ontem continuávamos nos movimentando sem grandes choques. As relações eram perfeitamente naturais como a direção que têm as ruas da cidade planejada. A grande novidade de hoje, é que as teias de seda foram substituídas por cabos de fibra óptica e as moscas já conseguem olhar para trás. Complexos são os sistemas de dominação e encarceramento. O poder não passa de uma estrutura engendrada nos afetos, percepções, rotinas, trajetos e conformidade com as crises. Viver é jamais uma experiência. Tudo se resume ao condicionamento dos corações e ao apaziguamento das pulsões. O labirinto das teias é vasto, o entorpecimento de muitos é como um veneno nas veias de gafanhotos que aspiram um dia, por mérito do árduo labor, entrarem para a o clã dos aracnídeos.

O poder, ora vestido de democracia, de participação ou de bem comum não faz mais do que orquestrar a miséria a que fomos submetidos para que a roda das cédulas nunca pare de girar. A lógica em que vivemos não é natural. É construída enquanto nossas imaginações vagam no vazio dos programas de televisão, nas vitrines das lojas, nas telas de celular que tomaram de assalto os encontros do olhar, o toque das mãos, as conversas de boca a ouvido, os beijos que nunca foram. Ao nos apartarmos da proximidade vivemos sós, separados dos pontos de fuga no horizonte, já que, para além não há olhar, só prédio e semáforo e a vida condicionada segue com resignação.

De onde estou só vejo cortes e destroços de um poder vazio, mas ainda convicto de sua influência sobre tantas potências mitigadas, invisíveis de si. Assim, seguimos o pronunciamento oficial. Milhares de esfaimados caminham sobre a terra, cuja produção de alimentos supera em muito as bocas famintas. O alimento da carne é logicamente negado. A nutrição da alma é sandice. Os planos cartesianos, positivistas, modernistas falharam, nos acostumando ao vício inerente, mas algumas praças e prédios estão ocupados enquanto Aleppo se consome em fogo e suicídio e alguns veem que há muito tempo vivemos sobre ruínas e amanhã somos nós com a corda no pescoço. Diante da desolação, não é a reconstrução que interessa. É o aniquilamento dos espaços vazios, a descoberta de novas formas de vida, de cosmo visões, da visão da imensidão, do fogo renovador da imaginação. É isso que temos sobre a mesa do café da manhã daqueles que acabaram de nascer.

Para nós, de 20 e poucos, já é hora do almoço e estamos com fome. Algumas praças estão ocupadas e nós estamos queimando por dentro. Não há de ser só isso.

A RUA GRITA

‘É quando som de preto toca que incendeia o baile’

Cantada pelo músico capixaba Fabriccio, a frase acima integra o single “Teu Pretim”, do disco … Continuar lendo ‘É quando som de preto toca que incendeia o baile’