29 de junho de 2017

Confira como foi o palco da Porta Maldita no Dia da Música em São Paulo


No último sábado (24) o Dia da Música levou às ruas de todo o país as apresentações de bandas independentes em articulação com coletivos culturais.


Por: Ana Malta, do coletivo A PORTA MALDITA
Fotos: André Zuccolo

Amanheceu um reluzente sábado de sol no dia 24 de junho na capital paulistana. Todas as expectativas cresceram ainda mais com os raios que penetravam a manhã e se estendiam com o passar da hora. Reflexo da ansiedade que percorria parte da cidade, pela realização do tão esperado Dia da Música

Consagrado há três anos como um festival em rede que promove a música por todo território brasileiro, o Dia da Música acontece em prol da união e fortalecimento do mercado fonográfico brasileiro. Através de uma plataforma que possibilita a comunicação de bandas, artistas e espaços culturais, o evento promove, por meio de uma seleção do conselho curador, apoio financeiro à palcos e artistas, muitas vezes independentes.

A PORTA MALDITA foi, neste ano, um dos coletivos contemplados pelo projeto. Há três anos o PORTA movimenta a cena autoral independente de música e arte em São Paulo, através da ocupação de praças públicas e a criação de espaços e estruturas voltadas à realização e promoção de eventos. Visando a disseminação de cultura acessível para todos, nos preparamos para realizar um evento que prometia ficar na história do coletivo.

Depois de uma incessante montagem de palco e muito suor na camisa… Abram alas! A música e a arte estavam prontas para transbordar a Praça General Oliveira Alvares, em Pinheiros, com um line up de 8 shows seguidos e exposições artísticas. Com inicio previsto para as 14 horas e honrando tal compromisso, A PORTA MALDITA “abriu suas portas” e delas saíram uma porrada marcante de música, arte e cultura.

As exposições, presentes desde o inicio do rolê, ficaram por conta do empenho, disposição e talento de diferentes vertentes artísticas. Leo Arruda fez uma intervenção no ambiente da praça e propôs reflexões a cerca da modernidade. Vinícius Vespoli apresentou seu projeto gráfico que retrata figuras femininas em corpo de sereia, espalhados em lambes por toda cidade. Eduardo Gonçalves e Jéssica Factor trouxeram suas pinturas em tabletes gigantes de madeira, trabalho que exubera diversas cores e retratos da natureza, normalmente criados por meio de live painting. Julia Rennhard impressionou com suas ilustrações em nanquim, abordando temáticas mais profundas e subconscientes da sociedade, natureza e vida no geral.

Iniciando as atividades musicais no palco às 15h, contamos com a cara e audácia da banda Caraudácia. Sua formação com guitarra, violão e vozes compõe um setlist de músicas autorais, passeando pela MPB. Sonzinho tranquilo e delícia para começar a aquecer o coração do público.

Em seguida tivemos a banda , trazendo um ritmo brasileiro bem diferente. Com uma marcante percussão e o vocal impecável representou, através da voz linda e forte de Bjanka Vijunas, letras que são traduzidas em forma de luta e crítica à sociedade atual.

Dando continuidade ao ritmo brazuca e trazendo a representatividade feminina, tivemos a big band Pitaias, apenas com mulheres poderosas na sua formação composta por bateria, guitarra, baixo, saxofone, percussão e vozes. Elas levantaram temáticas sobre amor, opressão e o atual posicionamento da mulher na sociedade, em um show para deixar qualquer um emocionado e com o coração batendo forte.

Fechando a primeira leva de bandões-da-porra do dia, tivemos no palco a dominação, literalmente, da banda Amoradia do Som que deixou bem claro que ninguém ali estava para brincadeira. Com um setlist curto, em 30 minutos de palco arrebatou o público com muita pancada na cabeça. A presença de palco dos quatro membros levou geral ao êxtase e frenesi. Um dos momentos ápices do evento. A banda marcou a transição para o rock e deixou um gostinho de quero-mais no público, tarefa que ficou na responsa das próximas bandas a entrarem no palco.

Após a apresentação dessas quatro primeiras bandas, que traziam como elemento principal do seu som a influência de variadas vertentes da música brasileira, seguimos com apresentações do rock e suas vertentes.

Pela primeira vez em palco Maldito, a banda Mamamute entrou para subir mais um nível e tornar o evento ainda mais pegado. O show contou com um repertório que nasce do blues, passa pela psicodelia, pula para o hardrock e termina no clássico rock n’roll, ritmos que se misturam em todas as composições da banda.

Em seguida, realizando sua segunda aparição em palcos malditos na praça, a banda mais loki dessa selva de pedra, os inconfundíveis Goldenloki. O grupo apresentou seu rock brisa – autointitulado pela própria banda – com sons presentes no EP MUDA (lançado em dezembro de 2016). Tocaram um setlist com as músicas mais conhecidas, fazendo geral cantar, dançar, pular e pirar junto. Energia que transcorreu do primeiro minuto até o fim do show. Durante o ápice da apresentação, o vocalista Otto Dardenne, se jogou na galera e participou do último e mais insano bate-cabeça, dando fim a um dos shows mais pulsantes-psicodélicos da noite.

Seguindo a leva “porradinha na cabeça”, tivemos em palco uma banda que já é tão de casa que faz até ritual para começar o show. O grupo Um Quarto entra em palco. A galera, com a mão estendida e repetindo os dizeres do vocalista Arthur Amaral, vai à loucura. O repertório pequeno não deixou a desejar. Uma cacetada atrás da outra. Várias cabeças cantaram junto. Não só cantaram, mas balançaram ininterruptamente do começo ao fim do show. Loucura para poucos que, no entanto, foi abraçado por todos.

A noite já esfriava em São Paulo quando o jazz-louco-psicodélico-freak da banda instrumental Largato entrou em cena para fechar o dia. Em palco, cinco músicos comendo a mente da galera e mostrando a potencialidade de um som que passa por influências nas bandas Badbadnotgood, Pat Metheny, Hiatus Kaiyote, misturado com um tanto de carimbó. O resultado é um absurdo sonoro que ressoou lindamente nos ouvidos de todos ali presentes. Um fechamento digno de comemoração e alegria generalizada, algo que A PORTA MALDITA preza em todos os seus eventos e tenta alcançar sempre. Uma das maiores crenças que ressoam nos pilares do coletivo é: Só a arte liberta.

O Dia da Música ajudou a provar – não só nesse evento em particular, mas em todos os outros que rolaram Brasil afora – que a liberdade não é conquistada sozinha, mas unindo forças e buscando a luta por um mesmo ideal. Atuando desde grandes centros culturais até periferias e estados onde não há acesso constante à cultura, esse Dia só é possível pela iniciativa de pessoas empenhadas em fazer do cenário atual independente um espaço melhor e mais acessível.

Que a música seja livre, que a arte seja livre, que a cultura seja livre e que todas sejam contempladas por meio da valorização do mercado que ocupam e da real proposta que visam transmitir. A expressão social, coletiva ou individual, de todas e quaisquer classes, gêneros ou causas.
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