20 de junho de 2017

Cuiabá tem rap sim: sobre o Hip-Hop no coração no Brasil


Em novo episódio da série “O que é o Rap?”, entrevistamos o grupo Cuiabang, enraizado na cultura periférica de Cuiabá (MT). Assista o vídeo!


Por Paulo Motoryn
Fotos e Vídeo: João Miranda

Eu e o João tínhamos poucas horas livres em Cuiabá (MT). A jornada que nos aguardava depois da passagem pela cidade era longa: pegaríamos uma van que nos guiaria por mais de 15 horas até o nortão do Mato Grosso, já na Amazônia Legal, onde participaríamos da cobertura de um evento. Mas isso não era desculpa.

Dj Spinha, representante da cena Hip-Hop do Mato Grosso

E a gente não tinha como fugir da missão: uma pessoa muito especial havia nos contado sobre a experiência da Rádio Comunitária CPA FM e era óbvio que a gente não teria nenhuma outra oportunidade de conhecer os desafios do movimento hip-hop no estado do Mato Grosso tão cedo.

Entrei em contato com o DJ Spinha e combinamos um encontro na sede da rádio comunitária que ele tinha um programa, no bairro do CPA.

O bairro atende pela sigla de Centro Político e Administrativo, mas vai muito além disso. Trata-se também do centro da violência, do descaso estatal e da falta de acesso a direitos básicos.

O CPA é a periferia de Cuiabá encarnada num bairro que nasceu para abrigar os prédios do governo, mas que, na prática, abriga dezenas de milhares de famílias de baixa renda que foram aos poucos sendo expulsas do centro da capital pela lógica da especulação imobiliária.

“Já vi ladrão chorar. O rap é muito disso. De você ouvir e falar: ‘puta que pariu!’ O rap é minha válvula de escape, minha paz, minha tranquilidade”                                                        – Gabriel Padilha

Nós chegamos à Rádio Comunitária CPA FM bem na hora que combinamos com o DJ Spinha, às dez da manhã. Pra sair do centro, onde estávamos hospedados, e chegar lá, demorou mais de uma hora e meia pelo transporte público. Foram dois ônibus até a rodoviária do CPA e, de lá, caminhamos até a Rádio.

Chegando, o Spinha ainda não tava lá, mas já começamos a ouvir histórias sobre ele de um outro rapaz que estava presente ali no terreno da rádio e colhia umas mangas que caíam no chão: “Spinha é o nome mais respeitado do Hip-Hop na região”, dizia.

“Começa a olhar pra dentro do Brasil, o Centro-Oeste é um celeiro. Goiânia e DF tem muito, Campo Grande e Cuiabá tem rap sim. E vai chegar na tua casa”

-Breno DZseis

A gente começou a acreditar nisso quando o Spinha chegou. Papo fácil, anfitrião preocupado e grande conhecedor da cena do hip-hop no Brasil, ele logo nos conquistou e emendou o convite: “Vamos entrar ao vivo na rádio para trocar ideia sobre rap e vocês contarem sobre a rádio comunitária que vocês fazem com a Vaidapé lá em São Paulo?”. Topamos.

O programa rolou e nós nem tínhamos nos tocado que, junto do Spinha, chegou uma dupla que ficou quietinha durante todo o programa que participamos lá na CPA FM. Era o filho do Spinha, Gabriel Padilha, e seu amigo, Breno DZseis.

Só na hora que acabou o programa é que descobrimos que os dois formam o grupo de rap Cuiabang. Quando fomos apresentados, já com o programa encerrado, rolou uma conexão imediata.

João e Paulo, da Vaidapé, ao lado do Dj Spinha e outro apresentador da rádio CPA Fm

O Breno e o Gabriel eram fãs da série “O que é o Rap?” da Vaidapé. Já tinham assistido aos vídeos da Lívia Cruz, do Nocivo Shomon e vários outros que a gente publicou. Mesmo que o coletivo já tenha cinco anos de história e a gente ouvir sempre que as pessoas acompanham nosso trampo, isso emociona pra caralho.

Foi recíproco: a gente logo ficou fã deles também. Gabriel é um moleque novinho, mas pela relação de pai e filho que tem com Spinha, uma das maiores referências do Hip-Hop no Centro-Oeste, já tem uma trajetória de respeito. Ele era B-Boy, mas começou a escrever rap e não parou mais. Se juntou com o Breno e assim nasceu o Cuiabang.

Breno já é mais experiente, já passou por outros grupos, já até saiu da cena por um tempo, só que ele tem o mesmo brilho no olhar do caçula da dupla. Não é porque é mais velho que deixou de se encantar e se empolgar com as possibilidades de transformação que o rap tem em sua vida.

“Se não fosse o rap eu não estaria aqui dando uma entrevista pra você”, disse. Sim, em pouco tempo de conversa, já descolamos o equipamento e transformamos o papo em entrevista: sim, eles são os entrevistados do novo episódio da série da Vaidapé sobre rap, gravado diretamente do coração do Brasil.

O que é rap, para eles? “Já vi ladrão chorar. O rap é muito disso. De você ouvir e falar: ‘puta que pariu!’ O rap é minha válvula de escape, minha paz, minha tranquilidade”, reflete Gabriel. E o Breno avisa: “Começa a olhar pra dentro do Brasil, o Centro-Oeste é um celeiro. Goiânia e DF tem muito, Campo Grande e Cuiabá tem rap sim. E vai chegar na tua casa”.

Gabriel, Paulo, Breno e João
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