25 de junho de 2017

Devir


Por: Mariana Zoboli do Carmo

Ilustração: Pedro Mirilli


Concretaram parte do rio São Francisco, que já não mais tem contato com a terra, assim como os nossos pés, postos em sapatos a andarem por caminhos asfaltados no córrego intenso do tráfego urbano.

Os carros correm.
Os prédios se multiplicam.

Nada abraça e tudo nos aparta na pressa de atravessar logo antes que o sinal abra novamente ou o ônibus vá embora. As drogas crescem em volume, mas não em qualidade, assim como as noites feitas para o esquecimento dos acontecimentos e das experiências exaustivas de tédio nos escritórios.

Eu tenho em mim todos os sonhos do mundo. Eu tenho em mim todos os sonhos do mundo. Eu tenho em mim todos os sonhos do mundo. E no Congo vários homens trabalham exaustivamente na extração de minérios que seguirão para a Europa. A vista do firmamento não é mais hipnótica, pois substituída pelos programas de televisão e luzes artificiais das grandes cidades. Chove da janela para fora e uma nave que habitava a órbita de Saturno vai finalmente pousar nos anéis do planeta. Muita informação e minha cabeça gira junto com a Terra, já que, minha experiência não é limitada ao aqui e agora, mas estendida a muitos lugares, fora deste planeta inclusive, e em mim cabem todos os sonhos do mundo.

Todas as roupas do armário estão pequenas e ontem sonhei com a urgência. Sem forma, só ela mesma, a palavra e o significado dela nos meus nervos enquanto tentava rasgar as máscaras que me encobrem a pele. Não me refiro ao chifre de touro, ao rabo de peixe ou ao cabelo de leão vistos nos teus sonhos mais profundos em que a figura da mulher é revelada desnuda como a terra. A provedora da diversidade, meu amigo, está fatigada com as monoculturas e os latifúndios incansáveis. Demasiadamente fatigada, fatigada, fatigada como as mulheres, mães, índios, como todos que por ela caminham.

Mas agora preciso correr. Tem boleto no banco, criança chorando, homem chamando. A sobra fica para depois do jantar. É um banho mais demorado para ficar completamente só envolta em névoa quente. É a pontinha que sobra entre a primeira buzina na fumaça do asfalto e a cabeça no travesseiro por umas quatro horas até levantar e repetir tudo de novo, de novo em círculos, nas voltas que o mundo não dá. Insistimos no descompasso. Os braços abertos se fecharam às possibilidades e novamente a carne foi malhada no meio da rua, no meio da rua onde todo mundo passa, onde todo mundo passa e vai embora com a mão firme na alça da bolsa e os olhos atentos aos devires da cidade linda. Mais linda para quem passa e cada vez pior para quem fica. Para aqueles que sempre estiveram à margem e mesmo no frio tem o cobertor reivindicado.

Mundo, mundo, vasto mundo me perdi no teu gingado nesta insensata vida que levo adiante enquanto passam as pernas brancas, pretas e amarelas nos bondes. Torço para que todas as expectativas sobre o futuro cessem e o por vir seja descolonizado. Para que as serras parem e os índios cultivem, para que as mulheres nos libertemos e as drogas sejam acolhidas como fonte de diversidade e subjetividade. Eu tenho em mim todos os sonhos do mundo mesmo caminhando sobre destroços. Eu tenho em mim todos os sonhos do mundo enquanto sigo imaginando outros mundos possíveis, alternativos à barbárie dos dias.

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