07 de junho de 2017

Dexter defende a revolução através da palavra: “O rap veio pra educar”


Entre a luz e o microfone, Dexter fala sobre a carreira, o cárcere, o álbum “Flor de Lótus”, o racismo e outras questões


Por: Victor Santos
Fotos: João Miranda

O #VaidapéNaRua do dia 24 de abril, recebeu o grande mestre do rap nacional Dexter Oitavo Anjo para trocar uma ideia nos estúdios da Rádio Cidadã 87,5FM, a comunitária do Butantã, onde o programa vai ao ar ao vivo todas as segundas, sempre a partir das 20h.

Ouça o programa completo no player:

O programa registrou audiência recorde, com mais de 400 comentários no Facebook ao vivo. O rapper mobilizou não apenas uma audiência na rádio e nas redes, como também presencial. Teve gente que colou na comunitária do Butantã para dar um salve e tirar uma selfie marota com o compositor da clássica “Eu Sou Função”. 

Marcos Fernandes de Omena nasceu na periferia da grande São Paulo, no Jardim Calux, em São Bernardo. Dexter é o nome de um filho de um dos principais ícones da luta pelos direitos civis nos EUA, Martin Luther King (1929 – 1968). A lista de referências do músico é extensa. Questionado sobre a leitura mais marcante da sua vida, responde sem hesitação: Malcolm X .

O rapper se mostrou muito à vontade nos estúdios da rádio comunitária e ressaltou: “Mó saudade de um ambiente assim. Parece que não temos mais, né”.

Veja alguns trechos da entrevista:

Flor de Lótus

O papo começou sobre seu mais recente trabalho, o álbum “Flor de Lótus” , que foi lançado em setembro de 2016. O trabalho traz uma série de participações especiais, algumas do rap nacional como Edi Rock, e outras bastante inusitadas como Gilson, Grupo Katinguelê e Péricles.

Dexter conta ter recebido críticas, o que classifica como natural, porém diz que isso não ofusca a boa recepção do público: “Nosso trabalho, metaforicamente falando, é um lixo tóxico. Ele educa as pessoas e quando você trabalha com educação no nosso país tudo é mais difícil. Tanto para o professor quanto para o rap. A arte no Brasil também é difícil pra caralho”.

Explica que o álbum é conduzido por uma história. “Quando abrimos o disco eu me encontro em Bernardes [presídio de Presidente Bernardes, interior de SP] e lá a gente fazia samba, [então] eu trago uma realidade”. E sobre as influências: “É influenciado pela música que a gente consome. Tem o samba, tem a MPB e o rap está lá”, lembra citando a participação de Edi Rock.

“Nosso trabalho, metaforicamente falando, é um lixo tóxico. Ele educa as pessoas e quando você trabalha com educação no nosso país tudo é mais difícil.”

“É um disco que retrata um período muito importante da minha vida, morô? As pessoas não contestam isso. Elas contestam algumas participações”, comenta. Ele descreve o envolvimento dos artistas como algo natural. No caso de “Me Perdoa”, mostrou o som para Péricles enquanto trabalhava nele, o sambista curtiu e já entrou na faixa.

A música já tem mais de um milhão de visualizações no Youtube. “Pros caras que fazem rap da minha geração isso é uma vitória. Com raras exceções da geração do rap dos anos 1990 é uma vitória”, explica.

Ouça “Me Perdoa”:

Sobre o grupo Katinguelê, o rapper explica: “É praticamente da minha quebrada. Eu ouço. Quase que começaram junto com a gente”. Ele exalta a faixa que recebe o grupo como um trabalho de muita qualidade, que fala sobre um sujeito vivendo no cárcere, a canção “Liberdade Sonhada”.

Dexter defende todas as participações sem hesitação, “Nós rappers temos que mostrar, ou o próprio hip hop tem que mostrar, que o rap também é música”, e lamenta que nem sempre se compreenda a participação de grandes músicos no gênero. “Quando eu faço música com o Gilson, pra mim, é um prémio e tem que ser pro rap também. O Gilson é um puta cara, escrevia pra Emilio Santiago, Fabio Junior…. O que ele resolveu fazer com o rap é o que ele já faz: é música. Isso é uma vitória pra a gente”.

Sobre uma possível influência do novo trabalho de Mano Brown, o álbum “Boogie Naipe” que carrega outros estilos musicais, explica que não foi algo conversado entre os dois. “Seguimos na mesma direção mas em caminhos diferentes”. Dexter sempre andou muito próximo de Brown, desde o início da carreira, e o classifica como padrinho. Por conta disso, entende que sempre haverá algum tipo de influência, porém não é nada programado.

RAP

Durante o #VaidapéNaRua, Dexter fez duras críticas à nova escola do rap e também à juventude dentro do gênero. Explica ver como normal e necessário que qualquer artista sofra com as críticas do público mas vê, na internet, uma série de comentários negativos sem motivo ou sem base argumentativa. “Só tô dizendo que tem que conhecer música”, explica.

Para ele, o rap já não carrega a mesma mensagem de conscientização dos anos 1990. “Me parece que o rap hoje tá sendo feito por playboy, meu. Esse rapzinho de vitrine”. Porém, ressalta que ainda existem nomes que trabalham com um rap combativo, citando Síntese e Coruja BC1.

A queixa se estende à rapaziada da sua época, aos quais vê alguns deixando de lado a “revolução através da palavra”. Explica: “Eu respeito, mas é difícil no sentido de que eu sei que caminho seguir, mas dá um nó na sua cabeça. ‘Como? Então é o dinheiro mesmo?’”.

“Me parece que o rap hoje tá sendo feito por playboy. Esse rapzinho de vitrine”.

Dexter ouve de tudo um pouco, inclusive música ruim. “Até um bêbado caído no chão me ensina. Me ensina que eu não devo beber desse jeito. O rap ruim também me ensina”, justifica. Tem a impressão de que tudo parece igual, com forte influência do rap norte americano, em que “tudo é buceta e maconha.”

A crítica se fortalece por acreditar na importância de fazer um som que possa ser ouvido em família. Na visão do rapper, isso é mais importante do que questões técnicas. “Eu não tenho grandes métricas, não me prendo nisso. Eu faço o que meu coração me diz. Se é uma rima quadrada ou não? Isso não importa. O que importa é o que o meu coração me fala pra fazer”, afirma.

Explica que essa postura parte de uma questão de valores, como o costume de não usar palavrões em suas músicas, por entender a importância de que ela possa ser escutada em família. “O rap veio pra educar”, defende.

Durante a entrevista, recebemos diversas perguntas dos nossos ouvintes. Uma delas indagava se o rap não soube o usar o investimento feito no gênero durante os anos 1990, diferente do que fez o funk e o sertanejo. O Oitavo Anjo discordou dessa visão: “Precisava ver que investimento é esse. A gente se perdeu sim em alguns momentos. Deixamos de lançar discos e músicas novas por muito tempo. Nessa brecha, outros rappers e outros estilos vieram e angariaram recursos”, explica.

Exílio

Depois de muita conversa, entramos no assunto que permeou a carreira de Oitavo Anjo por anos e ainda é o tema de muitas canções.

A carreira de Dexter começou ainda em 1990, no grupo Snake Boys, que mudou de nome para Tribunal Popular ainda nos anos 1990. Em 1998, a caminhada foi interrompida. “Pra realizar o sonho da música, em um determinado momento até por desespero, eu peguei nas armas e fui parar lá dentro. Dei a volta por cima e há quem me ajudou, mas sou um ex-presidiário e sempre vou ser. Esse preconceito vai me acompanhar”, analisa.

Dexter comenta preconceito racial e sistema carcerário:

“Pra realizar o sonho da música, em um determinado momento até por desespero, eu peguei nas armas e fui parar lá dentro.”

O rapper faz um paralelo com o racismo, diz que tem orgulho de sua cor e de sua caminhada. “Tenho o maior orgulho de ser quem eu sou, pertencer ao povo negro, ser um afrodescendente. Também tenho orgulho de passar por onde passei, ter dado a volta por cima e entender como o sistema funciona”, comenta.

O exílio é a palavra usada para descrever a situação em que se encontrou por 13 anos, entre 1998 e 2011, acusado de assalto a mão armada. Passou a maior parte da pena no Carandiru, onde formou o grupo 509-E, ao lado de Afro-X. O rapper analisa que o trabalho desenvolvido com o grupo foi de extrema importância para seus colegas de exílio e para a sociedade naquela época.

“Dei a volta por cima e há quem me ajudou, mas sou um ex-presidiário e sempre vou ser. Esse preconceito vai me acompanhar”

Até hoje recebe salves de presidiários e de familiares pelas suas músicas, tanto do início da carreira quanto do álbum “Flor de Lótus”. A esperança sempre foi uma mensagem de seu trabalho, função que entende como importante para o hip hop.

“Cantei muitas coisas que a sociedade precisava ouvir. Na época do 509-E, poucos parentes ligavam para as rádios para mandar salve para quem estava preso. Depois do 509-E isso passou a acontecer e isso tem a ver com a influência do grupo. As músicas influenciaram as pessoas a fazer isso e era importante pra quem tava lá dentro. Significava que a família não abandonou”, explica.

Com o sucesso do grupo, Dexter e Afro-X ganharam fama, realizaram cerca de 70 shows fora do presídio e chegaram a participar de um debate, em novembro do ano 2000, em um programa de grande alcance, em um canal televisivo da grande imprensa. De um lado os rappers Afro-X e Dexter e do outro o, ex-capitão da ROTA e, naquela época, deputado estadual pelo PPB, Conte Lopes.

O debate ganhou o país e repercute até os dias de hoje. Dexter conta ter sofrido represálias após o evento. “No dia seguinte já chegou uma notificação no presídio de que o 509-E não poderia mais sair, que era muito perigoso. A notificação dizia que o Dexter era muito perigoso, que eu debatia muito”. Acredita que o ato foi importante, mas afirma que hoje já teria muito mais inteligência em uma situação dessas.

Analisa, com pessimismo, o atual momento político do Brasil e pede mais luta por parte do povo. Dexter cita a lista da delação de Marcelo Odebrecht, e aponta a prisão arbitrária de Rafael Braga como um péssimo exemplo do que vem acontecendo no Brasil. Sobre os presídios: “Tá cada dia pior”.

Questiona a própria ideia de ressocialização, já que muitas pessoas nem são socializadas a princípio. “O sistema carcerário não recupera ninguém, serve para que pessoas engordem suas contas”. Critica fortemente os programas policiais e sensacionalistas da grande imprensa e pede compreensão para quem está lá dentro.

“A população paga imposto. O que é destinado para a reeducação, reinserção ou ressocialização dessas pessoas presas não chega como deveria, Vai para a conta de alguém. Viu Datena e Marcelo Rezende, larguem a mão de ser burros! Para de colocar culpa em quem já tem culpa!”, reclama.

“O sistema carcerário não recupera ninguém, serve para que pessoas engordem suas contas”

Aponta a luta por audiência, tanto para a mídia quanto para os políticos, unida à propagação da cultura do medo, como algo extremamente prejudicial ao trabalhador. “A gente fica nessa corda bamba. A própria polícia mata. Quem deveria nos dar segurança nos dá incerteza”, questiona.

Chegando ao final do programa, Dexter falou sobre sua luta e pediu mais responsabilidade: “Sempre batalhei para a melhora das pessoas, para que o jovem negro da periferia tivesse orgulho de ser negro, conhecesse sua história, tivesse auto estima. Hoje você vê muita gente ganhando dinheiro falando sobre nada com nada”.

“Eu às vezes penso em parar, por conta de como está. É difícil. Você não ganha dinheiro no rap no Brasil. Tem que ser por amor sempre e eu sempre fiz por amor, eu também penso em parar por amor”. Tal fala provocou imediata resposta da bancada de entrevistadores, “você vai parar?”, questionamos. E o Rapper rindo respondeu: “Não disse que vou parar, disse que penso em parar”.


|  O Vaidapé na Rua é transmitido ao vivo toda segunda-feira, às 20h, pela Rádio Cidadã FM. Na região do Butantã, o público pode acompanhar o programa sintonizando 87,5 FM e, no mundo inteiro, através do site da rádio. Acompanhe também a transmissão #aovivo pela página da Vaidapé no Facebook

Música, debate e Vaidapé!

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