28 de junho de 2017

‘Deixaram o martelo lá cheio de sangue e falaram que não tinham sido eles’, relata morador do Moinho

Durante operação da PM na Favela do Moinho, jovem foi assassinado com cinco tiros. Moradores relatam indícios de tortura praticada pelos policiais


Por Lucas Scatolini
Fotos: Lucas Scatolini e Luiza Viegas

A operação no Moinho

O centro de São Paulo amanheceu ontem (27) com mais um conflito envolvendo a Polícia Militar e os moradores da Favela do Moinho. A repetição de situações como essa tem se intensificado a cada dia desde a operação policial realizada na Cracolândia, no dia 21 de maio desse ano.

Uma das lideranças da Associação de Moradores do Moinho conta que por volta das 9h30 da manhã os policiais entraram na comunidade, sem mandado de busca, com alicates hidráulicos usados para violar os cadeados e correntes dos moradores. A justificativa para a ação era a perseguição e a busca de um suposto laboratório de crack – que nunca foi encontrado.

O salto final da operação foi o assassinato do jovem Leandro dos Santos, de 18 anos, que morreu depois de ser alvejado por policiais. Segundo a PM, o ocorrido aconteceu depois de uma troca de tiros com os agentes, mas os moradores negam a versão oficial.


A população da comunidade descreveu como “truculenta” a ação da PM naquela manhã, onde mulheres – inclusive grávidas – afirmaram ter sido agredidas. “Ele me empurrou. Só lembro que bati com a cabeça e desmaiei”, relatou uma moradora que não quis se identificar. Outros reclamaram de como os agente foram invasivos, principalmente pela forma que adentravam suas casas sem nenhuma notificação oficial, interrogando crianças se havia drogas ou armas na casa.

Revoltados, os moradores do Moinho saíram em uma tentativa de bloquear a Av. Rio Branco para denunciar o assassinato de Leandro e a criminalização que sofreram dentro da favela. A manifestação foi fortemente reprimida pela Tropa de Choque com o uso de bombas e gás de pimenta e mais um morador foi levado pela polícia depois de tomar cacetadas dos agentes.

Perseguição e execução

“Levaram ele e deixaram o sangue todo lá. Deixaram o martelo lá, o martelo cheio de sangue. E falaram que não tinha sido eles”

Leandro morreu dentro de um barraco na comunidade. Segundo depoimentos de sua mãe de Leandro, Maria Odete, o jovem, que era usuário de drogas, correu ao ver os policiais se aproximando da comunidade. A perseguição teve início e os oficiais entraram em um dos barracos da região, onde Leandro havia se escondido.

A família e os moradores disseram que os policiais teriam usado um martelo para atingir a cabeça do jovem e o mantiveram preso no local durante mais de uma hora. A PM também foi acusada de ter disparado tiros para simular uma situação de confronto que, segundo eles, não teria existido. Os tiros não foram ouvidos, pois a população relatou que a Polícia deixou o som ligado no último volume enquanto mantinham o jovem preso no barraco.

Depois de mais de uma hora trancado no barraco com os PMs, moradores relatam que Leandro foi levado pelos fundos da comunidade, enrolado em uma manta térmica. Os agentes alegaram que estavam prestando de socorro ao jovem. Na mesma hora em que levaram o corpo, a moradora e proprietária da residência em que Leandro foi morto também foi levada pelos policiais por ter presenciado o ocorrido. Ela prestou depoimento ao DEIC e já foi liberada, porém, seu paradeiro ficou desconhecido até o início da tarde de ontem.

Refutando a versão policial

Gabriel, filho da mulher que foi levada e que também reside no local em que Leandro foi morto, relatou o que presenciou: “Eram onze horas da manhã. Eles [policiais] entraram invadindo a favela, aí começaram a atirar. O menino entrou na minha casa correndo com medo. Eles foram lá dentro, atiraram e mataram ele com a minha mãe lá. Deixaram ele ali umas duas horas. Depois levaram ele e deixaram o sangue tudo lá. Deixaram o martelo lá, o martelo cheio de sangue. E falaram que não tinha sido eles”.

O coronel da PM responsável pela operação justificou a abordagem do jovem. Segundo ele, Leandro foi abordado “pelo seu modo de agir”. “[Ele] Demonstrou estar carregando droga ou arma. A PM é paga para abordar esse cidadão”. Segundo a polícia, Leandro teria fugido dos agentes desde a Rua Cleveland, a alguns metros da comunidade. No moinho, de acordo com a versão da polícia, o jovem entrou na habitação e passou a atirar contra os policiais, “que reagiram”.

Os familiares contestam a versão, refutando a possibilidade de Leandro estar armado. Após a operação, a mãe de Leandro foi impedida de visitar o jovem no hospital da Santa Casa, para onde havia sido levado. Apenas depois da intervenção do vereador Eduardo Suplicy (PT), que a família conseguiu acesso ao hospital.

“Ele morreu vítima de cinco tiros. Um no coração, dois no abdômen e dois nas costas. Eu mesmo o vi na maca”

-Vereador Eduardo Suplicy

Ao chegarem no local, constataram que Leandro já estava morto desde as 11h da manhã. “Isso significa que o Leandro morreu ainda na Favela do Moinho. Ele morreu vítima de cinco tiros. Um no coração, dois no abdômen e dois nas costas. Eu mesmo o vi na maca. Achei muito estranho que, no início da tarde, não permitiram que a mãe visse o filho. Eu disse que ela tinha sim esse direito e que ele estava entre a vida e a morte. Então, fomos ao hospital e o encontramos morto”, afirmou o vereador.

Na mira da especulação

É importante ressaltar que casos de ações como a que ocorreu nessa manhã do dia 27 de junho são bastante comuns em favelas e regiões periféricas. Assistir ao caso como puro sadismo policial e acusar apenas a corporação pela causa da violência é simplificar o contexto.

Basta lembrar a operação que começou há cerca de um mês na região central de São Paulo, na Cracolândia, em que uma grande parcela da população que necessita de tratamentos de saúde foi criminalizada e arrastada pelas ruas. Usar a exceção para acusar todo um grupo de pessoas como criminosas é uma prática sistemática, com a finalidade de atrair a aprovação necessária para se traçar qualquer plano – como um prefeito demolindo prédios sem autorização e com pessoas dentro, por exemplo.

No Moinho, o histórico do conflito com o Estado policial age muitas vezes em prol dos interesses da especulação imobiliária. Em matéria publicada na 6ª edição impressa da Revista Vaidapé, uma linha do tempo é traçada desde a chegada dos moradores na ocupação, por volta da década de 90, passando pelo grande aumento populacional após um processo de desapropriações de moradias populares no centro de São Paulo, até chegar de dois grandes incêndios que ocorreram no Moinho nos anos de 2011 e 2012.

A RUA GRITA

Últimos 3 dias para ajudar: Cora Primavera vai às ruas!

Criado pela Cia. Nada Pensativo, peça Cora Primavera aborda questões como transfobia e violência contra … Continuar lendo Últimos 3 dias para ajudar: Cora Primavera vai às ruas!

A RUA GRITA

Volta Negra: um caminho da História de São Paulo

A caminhada acontecerá por pontos da cidade como a Praça da Liberdade, a estação Anhangabaú de Metrô e a Praça Antônio Prado. Até o século XIX, esses locais sediavam, respectivamente, a Forca, o Mercado de Escravos e a Igreja da Nossa Senhora do Rosário dos Homens Pretos.

A RUA GRITA

Entrevistamos a rapaziada que pixou o tradicional Beco do Batman

Os coletivos PIXOAÇÃO e ARDEPIXO pixaram o internacionalmente conhecido Beco Batman que abriga obras dos … Continuar lendo Entrevistamos a rapaziada que pixou o tradicional Beco do Batman

A RUA GRITA

MINI-DOC | “Sem Saldo”

Sem Saldo é mais do que um documentário feito por estudantes secundaristas de escolas públicas … Continuar lendo MINI-DOC | “Sem Saldo”

A RUA GRITA

Menos amor, por favor

Por: Tomás Spirandelli Duarte, do blog La Sinistra* Ilustração: Pedro Mirilli Fotos: André Zuccolo e … Continuar lendo Menos amor, por favor