19 de junho de 2017

Um papo com o pixador que escreveu ‘Dória Ladrão’ num dos pontos mais movimentados de SP

Meses depois a pixação que virou notícia em SP, falamos com GEL do TELAS, especialista em pixar prédios altos com corda, que contou tudo sobre o rolê no Terminal Bandeira e sua caminhada no pixo


Por Iuri Salles

Foto: Fábio Vieira/ FotoRua

Em mais um capítulo da série “Pixo com X”, produzida pela Vaidapé, entrevistamos o consagrado pixador GEL do TELAS. Ele é especialista em pixar prédios descendo pelo lado de fora com a ajuda de cordas. GEL é dono de um dos pixos que mais repercutiram nos últimos meses, a pixação no prédio em frente ao Terminal Bandeira que continha um “Fora Temer” e “Doria Ladrão”.

O rolê no Terminal foi feito em conjunto com o pixador PA*, que não quis se identificar, mas também trocou uma ideia com a Vaidapé sobre o rolê nos episódios anteriores da série.

Agora, GEL completa a outra metade da história. Ele justificou um pouco das suas críticas ao atual prefeito e explicou como é descer do topo de um edifício utilizando apenas cordas e uma banqueta. Trocou uma ideia sobre como ele vê a modalidade hoje e falou sobre os motivos da sua aposentadoria no pixo, que “afeta muito o pisicológico, sua família” e faz com que “você perca muitos amigos”.

Na sua trajetória, GEL fez uma façanha que poucos pixadores tiveram o prazer. Ele pixou para duas grifes que travaram anos de guerra, Os Mais Imundos e os Registrados do Código Penal. Além de pertencer aos dois grupos, ele ainda fez as grifes no mesmo pixo, numa tentativa de mostrar que a treta histórica tinha acabado. “A nossa passagem na pixação é pra pregar a paz, ter união com todos, se possível”, explicou GEL.

Leia a Entrevista Completa


Em que ano você começou a pixar? E pixava para alguma grife?

Eu comecei a pixar no fim de 1998. Comecei escrevendo o meu nome e passei por vários até chegar no TELAS.

“Sempre fica alguém na contenção, a gente nunca vai sozinho. Pra pixar com corda tem que ir pelo menos dois caras”

Quem foram suas referências dentro do pixo?

LOCOS DA 7, DI, A FIRMA, ALD finado que marcou muito nosso cotidiano dentro da pixação. São vários caras que fica até difícil citar cada um.

Já começou pixando com cordas?

Não. Comecei a pixar com corda de 2008 pra 2009. Eu já admirava. Via os pixos, mas não sabia como os caras faziam. Quando eu vi os caras pintando prédio eu comecei a tirar minhas dúvidas de como o pixo era feito e coloquei em prática.

E você já trampou em pintura de prédio?

Já trampei sim, eu primeiro fui pintar prédio pra depois pixar.

Já aconteceu de alguém te pegar pixando enquanto você ainda estava pendurado na corda?

Isso não. Sempre fica alguém na contenção, a gente nunca vai sozinho e sempre tem alguém pra ajudar, dar um apoio. Pra pixar com corda tem que ir pelo menos dois caras.

E como você faz pra entrar no prédio com cadeirinha, corda e tinta sem ser notado?

Isso depende de cada local. Tem lugar que pra entrar tem que ser no vandal mesmo. Tem lugar que a gente ludibria a mente da pessoa, fala uma conversinha aqui, outra ali, e vai lá e pixa tudo.

Você lembra alguma história em que você enganou alguém pra entrar no prédio?

Quase todas as vezes foi assim. A gente fala que vai fazer um negócio colorido e pixa. Depois a gente sai, fala que não deu pra fazer porque a tinta é da mesma cor e nunca mais volta.

Como foi pixar o prédio do Terminal Bandeira?

Foi bem estratégico. Bem trabalhoso e calculado pra tudo dar certo e nada errado. Ficamos estudando uns 15 dias como a gente ia chegar lá. Eu já tinha em mente como seria pra entrar no prédio, mas não sabia como seria lá dentro. A gente teve que montar a estratégia pra fazer a invasão no tempo certo. Como é um prédio muito visado, se fizesse na emoção ia rodar. A gente entrou no prédio do 24 para o dia 25 de dezembro e, graças a Deus, deu tudo certo.

E porque nesse prédio rolou uma manifestação política?

Eu coloquei lá “Doria Pixo é Arte”, porque é uma coisa que tá no nossa essência. Porque a caligrafia da rua também é uma arte e não adianta… Muitos querem embargar nossa arte, mas quem é de verdade sabe que é uma arte, bem vista por uns e mal vista por outros.

E como foi pra você quando você viu toda aquela repercussão?

Pra mim foi foda. Saiu em um monte de lugar. Num primeiro momento eu fique bem cabreiro, uma par de mano me ligando, falando que tinha moiado. Minha esposa me falando: “tá vendo o que você foi arrumar”… Eu fiquei com medo por causa da frase “Dória Ladrão”, mas depois eu fiquei mais tranquilo.

Eu coloquei lá “Doria Pixo é Arte”, porque a caligrafia da rua também é uma arte. Muitos querem embargar, mas quem é de verdade sabe que é uma arte, bem vista por uns e mal vista por outros”

O que você acha do programa “Cidade Linda” do prefeito João Doria?

Pra mim uma grande merda. Não tá ajudando em nada. Primeiro ele tinha que varrer a parte política dentro da prefeitura, começar por dentro da casa dele pra querer movimentar a limpeza aqui fora.

Qual prédio é mais difícil de pixar, um mais afastado ou um no centro?

Onde tem menos fluxo é mais difícil, onde tem mais gente se torna mais fácil.

Sabe dizer qual foi o prédio mais embaçado pra você entrar?

O do [Terminal] Bandeira, ele teve um grau alto de dificuldade.

É o pixo que encerra o seu rolê?

Sim mano, acabou ali. Não posso cuspir pra cima e falar que nunca mais vou pixar, porque é muito difícil abandonar completamente, mas vamos lutando.

Porque você decidiu parar?

Tem a família que não aceita e chega uma hora que o corpo não aguenta mais também. E pixação é o seguinte: tem os momentos bons dela, mas tem um tempo determinado pra você começar e terminar seu rolê. Tem horas que a mente não aguenta mais.

O pixo já te fez mal?

Sim… na parte familiar. O psicológico também afeta muito. Os amigos que a gente vai perdendo dentro da pixação. É até difícil responder isso, porque quem tem realmente a essência da pixação no sangue sente o movimento como um corpo. Por mais que você não tenha um companheirismo com aquela pessoa, você sente também.

Conta melhor essa história que você pixava em duas grifes rivais, Os Mais Imundos e RGS?

Eu nem vivi a época da treta na verdade. Na época eu pixava Os Mais Imundos, ai um amigo meu, o ALD que na época pixava JETS, e o LIN fizeram o convite. Eu tinha um sonho de fazer as duas grifes, depois de tanta guerra, mostrar que o barato tava em paz.

“Eu tinha um sonho de fazer as duas grifes, depois de tanta guerra, mostrar que o barato tava em paz”

Como foi depois que você fez essa pixação?
Depois disso me tiraram dos Mais Imundos.

E como foi essas ideias pra te tirar da grife?

Então… Na hora eu não entendi nada, vários cara falando na minha mente: “É, você fez as duas uniões lá… os cara tá bravo”. Eu respondi que eu não tinha feito nada de errado. As uniões não estão na paz? Porque a nossa passagem na pixação é pra pregar a paz, ter união com todos, se possível. Mas também se não puder, cada um pro seu lado.

Qual é o custo de uma corda pra descer um prédio?

Precisa no mínimo de 80 metros de corda pra descer sem segurança nenhuma, o custo fica em torno de R$150 á R$200, a gente geralmente usa a corda de bombeiro que sai mais em conta pra nóis.


Foto: Fábio Vieira/ FotoRua

Qual a segurança do pixador quando ele desce pixando o prédio pendurado numa corda?

A gente amarra a corda em alguma estrutura que aguente o peso da corda e o nosso peso. Geralmente é uma corda só, segurança bem dizendo é nível zero. A gente desce numa banqueta de madeira presa na corda e nada nas costas.

Alguma vez aconteceu de quase cair?
Sempre tem alguma pequeno imprevisto, alguma coisa. Comigo já aconteceu do próprio amigo que tava descendo antes de mim de repente dar um golpe na corda sem eu esperar e me deslocar da parede. Sorte que eu tava segurando bem firme a corda, se não eu tinha descido.

O vento pode afetar uma descida?
Dependendo da altitude do prédio, se bater um vento pode ser bem perigoso. Prejudica bastante. Se a pessoa não tiver uma experiência na corda é muito perigoso.

Tem alguma coisa que você queira falar?
Eu só queria esclarecer uma entrevista que eu realizei para a Folha de São Paulo, referente a uma resposta que eu dei sobre se alguém pixasse minha casa. Eu só quero dizer que eu nunca embacei na de ninguém pixar minha casa, tanto é que minha casa é pixada.

A RUA GRITA

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