20 de julho de 2017

Conduzindo a arte popular: a história do coletivo Candearte em Taboão da Serra


As particularidades por trás da casa de cultura que emerge nas manifestações marginais do Taboão da Serra


Por: Natalia Vieira
Fotos: Natalia Vieira

“A virada cultural é aqui no Candearte”, assim a sambada de coco da noite seria declarada aberta pelo mestre Geraldo Magela. Ao mesmo tempo em que as atrações previstas na programação da Prefeitura de São Paulo chegavam ao fim, iniciavam-se as atividades na Casa de Cultura, localizada na região do Taboão da Serra, grande São Paulo.

Se na Virada a chuva chegou a repelir o público nas ruas do centro da capital, no terreiro do Parque Marabá o tempo instável não foi empecilho para mais de trinta pessoas comparecerem disputando espaço na área coberta, onde ocorria uma roda de conversa com o grupo Bongar – convidado especial da vez. Depois de se apresentarem na Praça do Campo Limpo, os seis integrantes do grupo pernambucano, que toca o ritmo do Coco tradicional do nordeste, deixaram de lado o cansaço para subir o morro, sentido Taboão da Serra, e partilhar suas vivências e canções.

As goteiras passavam quase despercebidas por entre as chitas estampadas no teto. Costuradas à mão pelo próprio mestre Magela, são reverências aos ancestrais escravos e rastros deixados pela festa do boi de Santos Reis. A celebração ocorre por ali anualmente, no mês de dezembro, quando o artista sai pelas ruas do bairro, junto do grupo Candearte, para disseminar a cultura popular arraigada dentro de si em sua terra natal – uma cidadezinha mineira chamada Barra Longa. “Quando eu consegui fazer esse boi, todo ano eu saía na rua, mas ninguém entendia, só saía atrás as crianças, os bêbados e os cachorros”, relembra Magela.

CANDEARTE CHEGOU

A casa de cultura, idealizada pelo mestre Magela, surgiu para suprir uma carência na região do Taboão da Serra, e começou a sair do papel ainda na garagem de casa do arte-educador. O espaço apertado, preenchido por tambores nas prateleiras, pandeiros pendurados nas paredes e cartazes com trechos das composições, é considerado por Magela um verdadeiro oratório. Ele é usado para compor e refletir – sempre que o bar ao lado permite – e, desde 2008, ambienta as aulas particulares de violão, teclado e bateria.

Confira o vídeo produzido pela Escola de Notícias sobre o Candearte:

Já há quatro anos, o centro cultural se instalou no local onde antes funcionava a Associação de Moradores do bairro, que muitas vezes encontrava-se abandonada e suscetível para o consumo de drogas. Diversas outras oficinas passaram a ser promovidas na acomodação atual, contudo, as aulas mais reservadas seguem ocorrendo na garagem de Magela, tanto por conta da timidez de alguns alunos, quanto pelo risco das chuvas virem a estragar os instrumentos.

As oficinas em grupo de percussão, pandeiro, capoeira, teatro e danças populares (afro brasileira, samba rock, urbana) foram viabilizadas desde o começo deste ano. Acontecem uma vez por semana, postulando para os alunos uma ajuda de custo para arcar com os gastos de cada oficineiro, e são as principais responsáveis pela tênue quebra da resistência por parte da comunidade.

Se no início o Candearte enfrentou a rejeição da molecada que era habituada a ocupar o espaço da Associação, hoje, tem sido a parcela mais conservadora do bairro que estabelece bloqueios no fortalecimento da relação com a casa. Os instrumentos de percussão e as danças folclóricas desde o princípio têm fixado nas redondezas a ideia do cunho religioso. Comumente, ao que se entende pelo termo “macumba”, atribuído aos cultos afrobrasileiros.

Bairro de residência de muitos trabalhadores da capital paulista, o município do Taboão da Serra por vezes é tido apenas como uma cidade-dormitório. A cultura ali, logo, acaba sendo colocada mais em segundo plano. Grande parte dos alunos vêm de fora ou é membro do próprio grupo Candearte.

São raras as vezes em que moradores da região participam, salvo algumas crianças – capazes de trazer os pais para dentro da casa; neste aspecto, os organizadores enxergam uma chance de formar os jovens desde cedo dentro da cultura popular brasileira. O professor Tijolo, do grupo de capoeira Angola Irmãos Guerreiros, conta que elas ficam num entra e sai, brincando. E como toda segunda-feira a aula acontece logo após à de pandeiro – esta, realizada pelo artista Alexandre Matos – as duas turma acabam se juntando em uma só.

O professor Alexandre é um dos precursores do Candearte, assim como a companheira e atriz Ingrid Sena. Há mais de dez anos os dois integram o grupo, nascido como fruto das interações vividas por Geraldo Magela num centro de convivência do Campo Limpo, onde dava aulas de música. O Candearte já chegou a contar com 16 membros, hoje, dispõe de um número mais reduzido. Ingrid relata que as pessoas foram saindo por divergência de ideias. Diante das tantas apresentações, veio a vontade de crescer e se sustentar financeiramente, e aí também as cobranças. “Os ensaios aconteciam aos domingos – que é o dia de ficar com a família – sem nenhum retorno, as pessoas começaram a ir embora”, Ingrid recorda.

Atualmente, o grupo não tem ensaiado. O retorno será agora no segundo semestre com os preparativos para o 12º Cortejo do Boi. Feito com papel machê, fitas coloridas, lantejoulas e arame remendado, o boi do Candearte, durante oito anos, foi idêntico à tradição maranhense, até o dia em que Magela percebeu que não poderia mais enganar a si mesmo. Passou, então, a seguir o boi de Santo Reis, característico de suas raízes em Minas Gerais. Filho de foliões, que organizavam a festa católica que marca o aniversário da visita dos três reis magos ao recém-nascido Jesus Cristo, o artista ressalta: “O sonho da criança ali em Minas é esperar a folia de reis passar na sua porta e ver a festa do palhaço. Não tá pensando só em comida, como no Natal daqui”.

Por um longo período, os ensaios se desenrolaram em frente à casa do mestre; quase sempre numa disputa entre o som dos tambores e as conversas do bar ao lado. À pedido dos vizinhos, a polícia vez ou outra aparecia para inspecionar o porquê das reclamações. “Alegavam que, se incomodar, qualquer hora do dia ou da noite, eles chamam”, explica Magela. É por isso que todo segundo sábado do mês, ele faz questão de encerrar a Cocada do Candearte pontualmente às onze horas da noite. Logo após a formação da ciranda, considerada por muitos o clímax do evento.

CADA UM BRINCA DE UM JEITO

A Cocada está já em sua 32ª edição e, além de ser o momento em que o grupo Candearte pode espairecer, tem por missão celebrar o samba de coco. Trata-se de uma manifestação cultural de matrizes africana e indígena que brotou no sertão nordestino, mas que Magela conheceu na infância em Minas Gerais. Entre o intervalo de uma canção e outra, o mestre faz questão de rememorar: “Começou lá no Norte, Nordeste, e foi descendo rio abaixo, rio abaixo, e eu trouxe de volta para São Paulo”.

A tradicional Festa do Bumba-Meu-Boi, em Maranhão. (Foto: Miguel Salvatore/ 3especie)

A dança típica teria surgido nos quilombos, a partir do ritmo do quebrar dos cocos na retirada de amêndoas, no entanto, ainda é controversa sua origem. Há quem defenda que tenha vindo da África, junto dos escravos. Outros consideram a dança puramente nacional. Consiste em uma roda na qual pares dançam no meio enquanto, ao redor, o restante bate palmas seguindo a melodia dos pandeiros, chocalhos, maracás e ganzás.

De acordo com o organizador, o coco é pautado na desinibição. De modo a simbolizar como se dava a conquista da sertaneja, os dançadores têm de superar a vergonha. Aqui, a característica que permanece forte é o “não saber como entrar”, os casais começam retraídos até engrenar no ritmo do coco. Pode reunir no máximo três pares centralizados no círculo e apoiados em passos de vai-e-vem dos pés. Os adeptos explicam a contagem certa: quatro passos para frente, em seguida para trás. Tem variações nos giros e balanços que mais se assemelham à uma brincadeira. Já no final da cocada, ao encarar seu entorno o mestre reflete: “Será que eu sou o louco e eles tudo que resolveram acreditar em mim?”.

VAI DAR CERTO, VAI

Diante da falta de disponibilidade dos membros do grupo Candearte, veio a necessidade de montar um time específico para colaborar diretamente com a casa de cultura. Uma das filhas do músico, Ana Joyce Boaventura, passou a cuidar da produção da casa ao lado da escritora Thata Alves. Esta última, articuladora do Sarau Da Ponte pra Cá, atualmente cuida da comunicação, mas já nutriu pelo centro um pensamento igual ao de outros vizinhos. “Eu passava aqui no caminho para levar as crianças pra escola e achava que tinha religião”, relembra.

Dentre as maiores preocupações do grupo, está a documentação necessária para ganhar editais. Assim, o dinheiro arrecadado unicamente com doações e eventos acaba indo em grande parte para esse plano. Mas prioridade ainda maior é o orçamento: o teto sem acabamento, a água e luz cedidas pelo bar do campinho ao lado. Vale notar que este campo de futebol, tido como Marabá Novo, conta com frequentadores assíduos, destoando do que ocorre na casa de cultura logo ao lado.

Quem cuida da parte financeira é a filha mais nova do idealizador, que é contadora, Iris Oliveira Boaventura. Quando indagada sobre o sustento da casa, Iris não hesita: “Ela praticamente não se sustenta, conseguimos algumas arrecadações na Cocada, vendendo legumes e vegetais na feira orgânica”.

O coletivo Horta di Gueto é o encarregado desta feira de alimentos agroecológicos, que ocorre em conjunto com o evento mensal e conta com o abastecimento de produtos cultivados por mulheres no Vale do Ribeira. Apresentado pelo então colaborador Alex Zudão, o coletivo faz parte da Rede Permaperifa que, em variadas iniciativas, visa aplicar os conceitos da Permacultura nas periferias de São Paulo – uma cultura de planejamento para a criação de ambientes humanos sustentáveis e em harmonia com a natureza.

Além de conceber a horta localizada nos fundos do Candearte, o Horta Di Gueto criou uma cisterna com sistema de filtro natural (feito de folha e telha) apropriada para regar as plantas. O coletivo tenta envolver a comunidade na manutenção da horta a fim de que não fique apenas nas mãos das frentes. Um exemplo dessa integração são os momentos em que o integrante Alex Zudão se atenta aos ensinamentos de Cecílio Barbosa, sobre as formas de podar o plantio, quando o mesmo dá as caras.

O senhor de 73 anos é de Pernambuco e mora bem de frente para o terreno. Por mais que não vá às cocadas, interessa-se pelo trabalho com as batatas, couves, salsinhas, gengibres e peixinhos. “O rolê é a diversidade”, aponta o educador e grafiteiro Alex Zudão ao comparar o encontro de dois mundos distintos: a busca por capim com o dono do bar, a ajuda do seu Célio e as donas de casa que recorrem às salsinhas.

“Deu esse rebuliço, todo mundo chegando e querendo mudar. E eu falei ‘calma, não é assim’. O pessoal da Horta di Gueto tem de estar meio intercalado com a casa de cultura e o grupo Candearte”, diz Magela sobre as tantas cheganças. No último evento, a partir do conceito de mutirão, o Horta di Gueto concluiu a bio-construção de um fogão à lenha, erguido em conjunto com o forno, utilizando-se de pneus, tijolos, areia e capim. Além disso, disponibilizaram um muro onde jovens grafiteiros puderam exercer suas habilidades.

Felipe Santos, morador da região e participante da casa, já chegou a operar junto do coletivo nas pesquisas para coletar a opinião do bairro sobre as atividades do Candearte. “Muito gelo, mesmo sendo conhecido na vila, a galera tratou com ignorância”, conta Felipe. A filha do mestre, Ana Joyce, ressalta o aproveitamento de um momento que não é exclusivo do Candearte: “Tem algo acontecendo em relação à cultura popular, as pessoas estão querendo participar, conhecer”.

A palavra Candearte em si equivale ao carro de boi sendo puxado enquanto semeia a cultura e que, mesmo sem pretensão, quando germinasse culminaria na casa de cultura. É aquele mesmo carro guiado pela criança mineira que fantasiava sair mundo afora com um só seu, cheio de tudo que lhe fosse percebido como arte. Magela, que admite já ter pensado em desistir, agora se empenha em fazer com que a casa ande com as próprias pernas sem perder a essência: a cultura popular. “O Candearte nunca vai ser uma casa de show”, frisa.

A RUA GRITA

‘É quando som de preto toca que incendeia o baile’

Cantada pelo músico capixaba Fabriccio, a frase acima integra o single “Teu Pretim”, do disco … Continuar lendo ‘É quando som de preto toca que incendeia o baile’