17 de julho de 2017

Me excomunguem da Igreja do Ativismo!


Existe uma vertente agressiva do ativismo pela justiça social que silencia e desvia vários de nossos aliados potenciais


Por Frances Lee*, com tradução e adaptação de Paulo Motoryn
Fotos: André Zuccolo, Paula Serra e Arquivo da Vaidapé

Eu acredito na justiça. Eu acredito na liberdade. Creio sim que é nosso dever destruir a supremacia branca, o capitalismo e o imperialismo. Mas também acredito que deve haver abertura e debate em torno das táticas que usamos.

Como estudante, estou interessada nas formas como a cultura ativista está regendo tantas pessoas. Para ser clara, sou apenas uma pessoa que está tentando refletir sobre as coisas e estou aberto às críticas. Quero aprender com elas. Mas, como alguém que gastou a última década em recuperar-se de uma conversão forçada ao cristianismo evangélico, vejo um paralelo perturbador entre religião e ativismo, a partir da presença do dogma.

A busca da pureza

Há uma corrente de medo muito presente em minhas comunidades ativistas. Um medo que é diferente do medo diário de brutalidade policial, do despejo, da discriminação e do assédio de rua. É o medo de parecer impuro. A morte social de ser rotulada como um ativista “ruim” ou simplesmente “problemático”.

Eu tive inúmeras conversas com amigos sobre essa ansiedade e como isso levou a nos abstermos de participar de eventos, conversas e espaços ativistas porque nos sentimos inadequados. Na verdade, até prefiro não me chamar de ativista, porque não me encaixo no molde tradicional da figura pública marchando nas ruas como de costume.

‘A quantidade de energia que gasto demonstrando essa pureza para permanecer nas graças da comunidade ativista é enorme. Às vezes, me encontro mais exibindo ativismo do que fazendo ativismo’

Quando era cristã, tudo o que eu podia pensar era ser bom, mostrar bondade e provar aos meus pais e meus líderes espirituais que estava no caminho certo para Deus. Enquanto isso, acreditava que nunca seria boa o suficiente, então tinha que me esforçar para atingir um destino impossível de perfeição. Como ativista, uma década depois, me sinto obrigada a fazer as mesmas coisas que fazia quando cristão.

Eu me policio em espaços de ativistas. Parei de comentar nas mídias sociais ou discutir as opiniões esquerdistas por medo de ser julgado. Além disso, sempre estou pronta para pedir desculpas por qualquer coisa que um membro da comunidade ativista considere errado, opressivo ou inapropriado – sem hesitar.

A quantidade de energia que gasto demonstrando essa pureza para permanecer nas graças dessa comunidade é enorme. Às vezes, me encontro mais exibindo ativismo do que fazendo ativismo. A sensação é de estar exausta sem nem estar fazendo o trabalho que deveria ser feito. É terrível ter medo dos membros da minha própria comunidade e saber que provavelmente eles têm medo de mim. Em última análise, a busca pela pureza política é uma distração traiçoeira para ativistas bem intencionados.

As mesmas lógicas colonialistas

Um filósofo pós-colonialista, o caribenho negro Frantz Fanon, em seu livro de 1961, “Os condenados da Terra”, escreve sobre o relacionamento entre colonizador e colonizado e as condições de descolonização. Nele, adverte fortemente o colonizado contra a reprodução e manutenção dos sistemas opressivos de colonização, substituindo os que estão no alto por aqueles que estavam embaixo depois de uma revolução bem sucedida.

Já experimentei discriminação e rejeição devido a quem sou. Procurei espaços para encontrar outras pessoas como eu. Esses espaços e relacionamentos me salvaram do desespero vez ou outra. No entanto, rejeito a supremacia dos oprimidos, a idéia de que um grupo marginalizado merece dominar a sociedade. A justiça nunca virá pela supremacia. Desejo uma nova ordem social que não gire em torno de relações de poder e dominação.

As pregações e punições

Dizer às pessoas o que fazer e como viver é próprio da religião dogmática e do ativismo. Não é que meus camaradas são meus patrões, mas esse ativismo dogmático cria um ambiente que incentiva as pessoas a dizer às outras o que fazer.

Isto é especialmente marcante na dinâmica do Facebook. Eu sei que muita das coisas postadas lá são para me disciplinar para ser um ativista melhor. Mas quando os ditames não são seguidos, ocorre um procedimento comum de punição.

As punições incluem constrangimento, repreensão e isolamento. Disciplina e punição são usados em toda a história para controlar e destruir pessoas. Por que isso está sendo usado em movimentos destinados justamente a nos libertar?

Todos cometemos sérios erros e machucamos outras pessoas, intencionalmente ou não. Temos a chance de aprender com eles quando nos respondem com bondade e paciência. Onde está nossa humildade ao examinar os erros dos outros? Por que nos posicionamos como moralmente superiores? Quem de nós veio ao mundo completamente formado?

Os textos sagrados

Há também algumas publicações on-line de ativismo dogmático que podem ser consideradas como textos sagrados. Recebem milhões de visualizações por mês e publicam ensaios sobre uma ampla gama de tópicos anti-opressão.

Quando esses artigos são compartilhados entre meus amigos, gosto de que a pauta esteja em debate, mas também sei que algumas ideias serão diminuídas e menosprezadas. Quase todos os artigos seguem uma estrutura padrão: um título instrutivo, lista de comportamentos problemáticos e uma declaração final de opinião.

Os títulos e o tom educativo contribuem para criar a idéia de que existe apenas uma maneira de pensar e fazer o ativismo. Ao tentar libertar os leitores das estruturas legitimamente opressivas, eu me preocupo que alguns sites legitimem uma ortodoxia igualmente restritiva no outro extremo do espectro político.

Me retirei da Igreja para me confinar em outra?

Se estamos interessados em construir os movimentos de massas necessários para destruir a opressão em massa, nossos movimentos devem incluir pessoas que não gostam de nós, pessoas com quem nunca concordamos plenamente e pessoas com quem temos conflito. Construir um movimento é restaurar a humanidade em todos nós, mesmo para aqueles que foram desumanizados. Movimentos são onde as pessoas são convocadas a se transformar no serviço da libertação de si e dos outros. Pela re(ex)istência!

*O texto foi publicado originalmente em inglês no site Catalyst Wed Co. Francis Lee é uma designer, ativista queer e pesquisadora de Estudos Culturais. O texto foi traduzido e modificado pela Vaidapé livremente, sem pré-autorização da autora.

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