03 de julho de 2017

“A discussão não é mais só sobre a necessidade de legalizar, mas como vai ser”


O #VaidapéNaRua recebeu Júlio Delmanto, da Marcha da Maconha, que contou sobre a história do movimento, os efeitos da proibição, a relação entre esquerda e maconha e muito mais.


Por: Thiago Gabriel
Fotos: André Zuccolo e Thiago Gabriel

No dia 1º de maio, data histórica de luta para os trabalhadores e trabalhadoras em todo o mundo, o #VaidapéNaRua recebeu Júlio Delmanto, da organização da Marcha da Maconha para falar sobre o evento que aconteceu no dia 6 de maio em São Paulo.

Júlio Delmanto é jornalista, ativista pelo antiproibicionismo e pesquisador, com um trabalho de doutorado em andamento na área de história sobre drogas e contracultura. Ele ainda é membro do coletivo DAR (Desentorpecendo a Razão), que compõe a organização anual da Marcha da Maconha em São Paulo.

A Marcha da Maconha 2017 levou às ruas o lema “Quebrar correntes e plantar sementes”, propondo uma reflexão que levante, segundo Júlio,”os dois lados da discussão. De um lado a proibição, como ela afeta todas as pessoas, não só os usuários, e como ela é racista, se volta pra periferia, pros pobres e pros pretos, principalmente. E esse outro lado mais propositivo, no caso ‘plantar sementes’, enfatizando que a própria Marcha, nossa própria existência e resistência, já é apontar outro caminho de como as coisas podem ser.”

Neste ano, mais de 30 cidades marcharam pela legalização da maconha no Brasil. O evento em São Paulo reuniu mais de 100 mil pessoas que fumavam incessantemente durante a Marcha, sem maiores incidentes com a Polícia Militar. A PM, inclusive, é desconvidada pelo movimento todo ano, que garante a segurança da Marcha de forma autônoma. O cenário é bem diferente da repressão sofrida pela Marcha há alguns anos atrás.

Atualmente, o movimento na cidade tem se ampliado cada vez mais nas formas de atuação, com o surgimento das marchas e atividades descentralizadas nas periferias da cidade e a presença de diferentes blocos, com pautas e reivindicações diversas dentro da Marcha. “A gente quer que tenha muitas pautas, muitas vozes dentro da nossa Marcha, sem falar em nome de ninguém. Esse ano vão ter blocos feminista, do plantio, esquerda canábica, psicodélico, maconha medicinal, pela liberdade do Rafael Braga”, conta Júlio.

HISTÓRIA DA MARCHA

Júlio fez uma análise histórica do crescimento da Marcha da Maconha no Brasil. “Pensando historicamente, o papel da Marcha é decisivo. Se você pensar há 10 anos atrás, no começo, o tamanho que era, com 50 pessoas, 30 pessoas. Era proibido, ignorado ou ridicularizado. Poucas pessoas tinham coragem de ir, porque a foto ia aparecer na imprensa ou ser preso. E, fruto de muito trampo durante anos, júrídico, de enfrentar a repressão, em várias cidades, chegou num ponto de a Marcha contar com 20, 30 mil pessoas. Grupos que não apoiavam antes estão participando, muito mais gente de quebrada.”

“Primeiro a gente queria dizer que tinha o direito de marchar. Depois era pra dizer que a gente era legítimo para existir como a gente gostaria. Hoje esse grupo é muito mais amplo, todos os perfis de pessoas tão ali, e todos os movimentos e pautas. Então ficou muito claro que a discussão não era sobre fumar ou não, todo mundo já fuma bastante. A questão era que a proibição afeta muito a todos. Hoje a Marcha se consolidou.”

 

O cenário de consolidação da Marcha também abriu caminho para que o tema de legalização das drogas ganhasse espaço no debate nacional. “O lugar da discussão de drogas no país hoje é fruto daquelas pessoas estarem nas ruas, hoje em dia até fumando maconha, e desse momento em que os usuários, e até não-usuários que se identificam com isso, tem coragem de botar a cara na rua, desobedecer a lei e mostrar que não é o fim do mundo. É um processo que ainda está em curso, ainda existe preconceito, a lei continua a mesma de quando começou a Marcha, mas certamente a cultura não é mais a mesma. A Marcha é produto e produtora disso. Ela influenciou muita gente, em muitos lugares.”

EFEITOS DA PROIBIÇÃO

Sobre o caso de Rafael Braga, condenado a 11 anos de prisão por tráfico de drogas em uma abordagem que encontrou pequenas quantidades de maconha e cocaína – segundo a defesa de Rafael, as drogas foram plantadas pelos policiais – Júlio analisa a decisão da Justiça. “É como a gente fala no DAR, ‘somos todos traficantes’, porque não existe essa diferenciação. O sistema quer que exista essa diferença pra chamar os brancos de usuários, e os pretos de traficantes. Nesse caso do Rafael braga é muito claro: é uma pessoa indesejada pelo sistema e pela polícia que inventou uma justificativa pra excluir essa pessoa do convívio da sociedade. Qual foi essa justificativa? A posse de uma minúscula quantidade de drogas que não afeta em nada o sistema do tráfico ou a sociedade. Em troca disso, essa pessoa será afastada por 11 anos da sua família, do seu convívio, das suas oportunidades de trampo. Qual o efeito que isso vai causar na família dele, na comunidade dele? Tudo isso tem a ver com a discussão da Marcha que é como se usa essa proibição das drogas e o medo pra atingir os Rafael Braga, injustamente.”

Condenações como a de Rafael são consequência de uma lei de drogas que não especifica a diferenciação entre usuário e traficante. Para Júlio, enquanto a ganja for proibida as decisões aleatórias continuarão a serem expedidas pela Justiça. “Enquanto a maconha for proibida sempre vai haver uma diferenciação aleatória. Se você não regulamentar, você vai deixar sempre pra Polícia e pra justiça, as instituições mais racistas e corruptas do universo, decidirem que é criminoso e quem não é.”

“Ninguém é só usuário. A pessoa usa maconha mas ela é filha da mãe dela, do pai dela, tem o trampo dela, o time dela, pode ser homem, mulher, LGBT.”

Questionado por um ouvinte sobre pessoas que fazem um “uso desrespeitoso da cannabis”, Júlio questionou o que poderia ser definido como consumo respeitoso da erva ou de outras substâncias. “Como que essa planta pode desrespeitar as pessoas? É o cheiro? O fato de vir do tráfico? Ela vem do tráfico por conta da proibição, não por conta da planta ou do uso. Se o problema é o consumo explícito, será que as pessoas se sentem desrespeitadas com o consumo de tabaco? O tabaco é um exemplo de como as pessoas foram se sentindo desrespeitadas em algumas situações, como fumar em lugares fechado. O que as pessoas fizeram? Não decidiram proibir o tabaco, encarcerar quem vendesse, dar tapa na capa em pai de família por isso. Decidiram estabelecer medidas pra minimizar os incômodos. Se for essa discussão, eu tô super disposto. Se for pra não fumar em lugar fechado ou abaixar nosso reggae. Mas isso não me parece motivo suficiente pra encarcerar 200 mil pessoas, matar uma porrada de gente e ocupar militarmente comunidades.”

MACONHA MEDICINAL

Falamos também, durante o #VaidapéNaRua sobre a recente decisão da ANVISA de liberar remédios que possuem em sua composição o CBD, extraído da cannabis. “A maconha medicinal já é legalizada em alguns casos. Isso é um paradoxo. Porque a gente vive um momento da Guerra às Drogas, de encarceramento e extermínio, ao mesmo tempo em que se você tem dinheiro pra importar um medicamento no caso de determinadas doenças, você pode. Então o governo está aceitando que essa é uma planta que tem usos medicinais, e é uma planta baratíssima, que você pode difundir o conhecimento do uso, mas o governo acha que isso só pode ser feito via laboratório e importação.”

“Já é sabido e assumido pela ANVISA, por outros órgãos e, porra, pelo debate científico mundial que a maconha tem usos medicinais muito claros, que são um alívio pro sofrimento de muita gente. E mais uma vez, até nesse caso não é do interesse do Estado que seja pra todos. É do interesse que seja via indústria farmacêutica, controlado, restringido e, no fim das contas, para os ricos.”

MODELOS DE LEGALIZAÇÃO

Diante dos exemplos de países que decidiram liberar e regulamentar o uso de maconha, como Uruguai e grande parte dos estados americanos, debatemos os diferentes modelos de comercialização da erva que se apresentam a partir do fim da proibição. No Uruguai, a comercialização é feita pelo Estado, enquanto em estados como o colorado (EUA), empresas privadas tem tomado conta do mercado da cannabis, que conta ainda com altos impostos sobre o preço, definidos pelo governo.

Júlio falou um pouco sobre”Pra gente no DAR, depois da proibição, a gente teria que garantir o máximo de autonomia e liberdade possível para as pessoas. Nem Estado, nem mercado são capazes de fazer isso tão bem quanto as próprias pessoas. Então em qualquer cenário tem que estar garantidas a participação das pessoas. Não pode sem só um monopólio do mercado ou estatal. Mas qualquer cenário também é melhor que o atual, com encarceramento e Guerra.”

“Só o fato de falar como tem que ser quando legalizar já mostra que a gente avançou. Não é mais só temos que legalizar, mas como vai ser. E cada pessoa lá dentro [da Marcha] vai puxar pra forma como vê o mundo”

ESQUERDA E A MACONHA

Júlio falou sobre seu livro “Camaradas Caretas”, lançado pela Editora Alameda, fruto de sua pesquisa de mestrado sobre a relação de movimentos sociais que se intitulam de esquerda e o debate sobre a legalização das drogas.

Segundo o pesquisador, apenas recentemente a esquerda incorporou a pauta do antiproibicionismo em seus debates. “Hoje a pauta da maconha é visto como uma pauta de esquerda, mas até pouco tempo atrás, antes do início da Marcha, a esquerda era sempre contra essas discussões. No mínimo, ela não considerava importante, quando não achava que prejudicava, que era conta da alienação. Esse cenário mudou muito. Também pela visibilidade, o tamanho da Marcha, os votos que essa discurso da legalização traz. Mas também pelo convencimento da esquerda de que essa é uma pauta importante, na criminalização do pobres, no racismo e outras questões.”

Porém, Júlio faz a ressalva de que o debate tem se ampliado cada vez mais, ultrapassando as fronteiras entre esquerda e direita. “Hoje a legalização das drogas não é defendida só pela esquerda, esse é um debate que, ainda bem, passou. A Marcha sim, é um movimento de esquerda. Mas existem pessoas que querem que o mercado, a democracia permaneçam como estão, mas que se mude a lei de drogas. E isso é muito positivo, porque são pessoas que atingem outros setores, outros públicos. E cada um vai puxando pro lado que acha melhor da legalização.”


|  O Vaidapé na Rua é transmitido ao vivo toda segunda-feira, às 20h, pela Rádio Cidadã FM. Na região do Butantã, o público pode acompanhar o programa sintonizando 87,5 FM e, no mundo inteiro, através do site da rádio. Acompanhe também a transmissão #aovivo pela página da Vaidapé no Facebook

Música, debate e Vaidapé!

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