14 de julho de 2017

Uma pizza não vale uma vida: pela memória de Ricardo Silva Nascimento


A morte do carroceiro em Pinheiros mostra como a banalização da violência faz um pedaço de pizza motivar um assassinato à sangue frio, cometido por um agente do Estado


Por: Paulo Motoryn
Fotos: André Zuccolo

Ricardo Silva Nascimento morava nas imediações do supermercado Pão de Açúcar, em Pinheiros, na zona oeste de São Paulo (SP), há alguns anos. No mínimo, uns cinco, é o que dizem outros catadores de materiais recicláveis que também moram por ali.

Como ele, vários são conhecidos dos moradores da região. Ricardo era chamado de Negão, pelos seus “irmãos” de rua, como os próprios se definem, e também por outros moradores e comerciantes ali das redondezas. Ele bebia sim, mas era um cara de boa, da paz, diziam.

Na última quarta-feira, ali na esquina da rua Mourato Coelho com a rua Navarro de Andrade, em frente ao Pizza Prime, o Negão, como Ricardo era chamado por todo mundo, se envolveu numa confusão. De acordo com as testemunhas, depois de discutir com os funcionários da pizzaria, as coisas ficaram tensas.

A Polícia Militar chegou e dois oficiais se assustaram com os gritos que todo mundo sabia que Negão sempre dava. Ele estava com um pedaço de pau na mão. Mas era aquilo, porra: ele nunca tinha batido em ninguém, não seria naquele dia que começaria a fazer isso.

Só que os policiais fizeram o que jamais poderiam ter feito: Ricardo foi atingido por três tiros, sendo que dois deles foram na cabeça. O outro, no peito. O pior? Levaram o corpo na viatura, procedimento proibido e que acabou com as chances de sobrevivência.

A secretaria de Segurança Pública não respondeu os motivos que levaram os policiais a retirarem o corpo de Ricardo do local, mesmo existindo um decreto, de 2013, que proíbe a PM de “socorrer vítimas de confrontos policiais”.

Tudo isso aconteceu por volta das 18h, em plena hora do rush, a cem metros de uma das ruas mais movimentadas da região oeste de São Paulo. E foi sob olhos de moradores vizinhos, que, revoltados, acusavam os policiais de assassinato.

José Nunes, carroceiro:

“O que aconteceu? Tá muito claro. Foi um abuso de autoridade deles matar um cara desses. Eu falo mesmo, não tenho medo de policia. A gente respeita a lei. Não tenho medo. Respeito as autoridades, mas esses bandidos mataram o menino por nada. Por causa de um pedaço de pizza? Porra, camburão é para prender, não para levar defunto. Ocultação de cadáver dá cadeia também, não dá?”

Piauí, carroceiro:

“Pediu socorro para mim. Mataram meu irmão à sangue frio. Ele era um catador de papelão. Pra quê fazer isso? Levaram ele na viatura, não fizeram nada de corpo de delito ou levaram para o IML. Tá tudo errado!”

José Augusto, carroceiro:

“Eles tomaram meu celular aqui, velho. Colocaram uma calibre 12 no meu peito. Eu tinha documentado. Eu tenho ainda um pedaço que mandei no WhatsApp. O cara da Força Tática que pegou meu celular. Era um moreno. Até o águia tava aqui, como eu vou identificar?
Perdi tudo, esfacelei meu dedo. Eu preciso ir para o hospital, mas eu vou embora como? Eu preciso estar aqui. Pegaram meu celular depois de apagarem as gravações.”

AFASTADOS

Os dois policiais militares envolvidos na morte do carroceiro Ricardo Silva Nascimento, o Negão, de 39 anos, foram afastados pela SSP-SP (Secretaria da Segurança Pública de São Paulo).

Um dos afastados é José Marques Medalhano, de 23 anos, apontado por testemunhas como o autor dos disparos contra Negão. Medalhano não tinha histórico de denúncias feitas à Ouvidoria das Polícias de São Paulo.

MANIFESTAÇÃO

O Pimp My Carroça, movimento de catadores de materiais recicláveis, promoveu um ato na quinta-feira pedindo por justiça para o carroceiro Ricardo Silva Nascimento. Levaram sua antiga carroça, pintada de branco e enfeitada com coroas e velas.

Pela memória de Ricardo Silva Nascimento.

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