22 de agosto de 2017

DJ Sophia: sobre o futuro do Hip-Hop e os caminhos da educação


A estudante do PerCurso Sophia Lima falou no #VaidapéNaRua sobre seu trabalho como DJ, educação, militância e suas inspirações no rap


Por: Alan Felipe
Fotos: Festival de Lançamento da Zine Ponto de Fuga

No dia 19 de junho, o #VaidapéNaRua recebeu a DJ Sophia Lima nos estúdios da Cidadã FM, a rádio comunitária do Butantã. Cheia de desenvoltura, ela trocou uma ideia sobre a Ponto de Fuga, fanzine que fez junto aos outros participantes do PerCurso Mídia e Território, bateu um papo sobre como começou a discotecar e falou sobre sua vida escolar como secundarista.

Ouça o programa completo no player:

Poetisa e DJ Sophia

A jovem de 16 anos é um talento precoce que teve seu primeiro contato com o hip hop dentro da própria família, quando seu irmão, sua tia e seu tio já escutavam rap. Mesmo com a música tão próxima, o interesse só despertou realmente quando viu o show da cantora Flora Matos, em 2013. “Ali eu falei ‘mano, eu tenho que conhecer mais’. Aí comecei a pesquisar, a ver as mulheres da cena, tava tendo até bastante evento no SESC e comecei a ver as mulheres no Hip Hop” diz Sophia, que também é antenada nos grupos clássicos, como Racionais MC’s e RZO.

Mesmo depois de colar nos eventos, Sophia disse que não se imaginava como DJ e que só domou os toca discos quando conheceu o projeto Futuro do Hip Hop. “É um projeto idealizado pela Vivian Marques, uma DJ que fundou o Futuro do Hip Hop para colocar as crianças no intuito de aprender um pouquinho mais sobre os quatro elementos do Hip Hop” explica.

Projeto “O Futuro do Hip Hop”, da DJ Vivian Marques no lançamento da zine Ponto de Fuga

Ela escolheu ser DJ por não se ver como MC, apesar de gostar e de criar suas próprias rimas. “Quando eu encontrei a poesia periférica marginal eu me encontrei. Poder escrever o que eu sinto, do jeito que eu quero” conta a também poetisa, que deu a dica aos ouvintes para comparecer aos saraus e slams. “O primeiro sarau que eu fui foi o Parada Poética, do Renan Inquérito, onde eu vi vários poetas”. Para fechar, ela divide sua experiência e diz: “toda vez que eu saio de um sarau, de um slam eu saio diferente, parece que o dia começa ali”.

PerCurso e Fanzine

“A produção foi muito legal porque a gente já começou entrevistando a galera que a própria Vaidapé trazia e que a gente se identificava e conhecia. E o processo foi muito bacana porque abriu um leque da maneira de como a gente ia entrevistar, de como agir… e o processo foi esse. E dali a gente começou a sair para as ruas, a fazer entrevistas fora e a gente foi desenvolvendo, várias ideias foram se ligando até que saiu a [fanzine] Ponto de Fuga”, conta Sophia, detalhando os bastidores do PerCurso Mídia e Território.

O assunto da reportagem que Sophia produziu não poderia ser outro. “Eu queria falar sobre as mulheres DJs, né? Temos várias mulheres que representam a arte dos toca discos e essas mulheres eu conheço e eu quis contar um pouquinho, representar elas na revista”. Na matéria, ela entrevista as DJs Míriam e Vivian Marques, que falam de seus projetos passados, futuros e como a mensagem é passada.

“Temos várias mulheres que representam a arte dos toca discos e essas mulheres eu conheço e eu quis contar um pouquinho, representar elas na revista”

No processo de realização da Ponto de Fuga ela também visitou uma ocupação de moradia no centro de São Paulo e ouviu dos próprios moradores as histórias que contradizem a versão da grande mídia. “Algumas famílias relatam que ‘ou a gente come ou a gente paga o aluguel’. E a gente entende como são essas questões. Ela fala bastante da burocracia da ocupação e tudo mais”.

Outro ponto que chamou atenção na ocupação foi a movimentação. “É muito bacana também porque eles fazem bastante projetos, lá rola sarau, rola conversa, eventos, tem biblioteca, é uma ocupação demais”. Por conta desse agito cultural e educacional, muitos moradores voltaram a estudar, completa Sophia.

O PerCurso foi importante para ela conhecer mais a área da comunicação, seu objetivo profissional depois que sair do Ensino Médio, em que tem as aulas de humanas como favoritas e pequenas batalhas com a matemática, mas diz que está se esforçando para dar conta.

Vida Escolar

Sophia estava no primeiro ano do Ensino Médio quando as escolas foram ocupadas, mas a E.E. Maestro Fabiano Lozano, onde estuda, não participou das mobilizações. Mesmo assim, ela disse que os estudantes voltaram mais articulados no ano seguinte para participar de melhorias na vida estudantil, como discutir os assuntos das aulas e a postura dos professores.

Fora da sala de aula, a escola não tem muita atividade. “Ano passado teve grêmio na escola e eu fui ‘secretária de cultura’, a gente tentou desenvolver, mas por causa daquelas burocracias todas da escola a gente conseguiu fazer só um sarau. Foi muito bacana, mas a ideia era trazer mais projetos para a escola para desenvolver essa cultura”.

Além dessa burocracia, a diretora também já impediu a estudante de declamar os versos no show de talentos. “Eu ai trazer a poesia da Mel Duarte e a diretoria barrou, censurou, porque disse que aquela poesia não poderia falar, porque tinha certas palavras e tudo o mais” desabafa.

“Eu ai trazer a poesia da Mel Duarte e a diretoria barrou, censurou, porque disse que aquela poesia não poderia falar, porque tinha certas palavras e tudo o mais”

“A escola ainda tem essas de limitar o próprio aluno e que eu acho muito chato porque os alunos estavam todos apoiando pra falar. São coisas importantes para se falar, a questão da mulher, porque tem mulher morrendo a todo momento, a mulher tá sendo violentada ainda e a gente tá no século XXI, e ainda é violentada, estuprada e tudo. ”

Como não poderia ser diferente, a DJ Sophia assumiu o setlist musical que embalou o papo e colocou para tocar Karol de Sousa e Mulheriu Clã com Tati Botelho.


Vaidapé na Rua é transmitido ao vivo toda segunda-feira, às 20h, pela Rádio Cidadã FM. Na região do Butantã, o público pode acompanhar o programa sintonizando 87,5 FM e, no mundo inteiro, através do site da rádioAcompanhe também a transmissão #aovivo pela página da Vaidapé no Facebook

Música, debate e Vaidapé!

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