31 de agosto de 2017

Sergio Bispo fala sobre a organização dos catadores e explica por que o lixo não existe


Fundador da CooperGlicério e idealizador do projeto Kombosa Seletiva, Sérgio Bispo falou no #VaidapéNaRua sobre sua caminhada e a organização da categoria dos catadores


Por: Alan Felipe
Fotos: Rafael Halpern

No dia 5 de junho, Dia Mundial do Meio Ambiente, o #VaidapéNaRua recebeu Sérgio Bispo, catador de materiais recicláveis e idealizador do projeto Kombosa Seletiva, nos estúdios da rádio Cidadã FM para falar sobre sua profissão, o funcionamento das cooperativas e as burocracias que enfrentam, especialmente na nova gestão da Prefeitura.

Bispo começou como catador no Lixão de Cana Brava, na Bahia. “Acho que quando eu tava no ventre da minha querida mãe eu já tava catando alguma coisa. Nasci dentro de um aterro e desde pequeno já catava material reciclável, muitas vezes eu tava brincando, mas tava catando” diz o entrevistado.

 “Acho que quando eu tava no ventre da minha querida mãe eu já tava catando alguma coisa. Nasci dentro de um aterro e desde pequeno já catava material reciclável”

A viagem da Bahia para São Paulo durou 80 dias, entre caronas e longos trechos a pé. Com o fechamento do aterro, a escolha da metrópole como novo lar foi graças a uma propaganda televisiva, que prometia que a capital paulista era a cidade certa para ganhar dinheiro. “No aterro a gente pegava o material e trocava por alimento, então não tinha uma moeda de troca. Era uma moeda que a gente não conhecia, mas o cara que comprava conhecia” fala Bispo.

Em São Paulo, Bispo continuou trabalhando como catador e sentiu o preconceito ainda mais forte. “Muitas vezes eu não tinha nada pra comer, aí eu ia numa cesta pra pegar alguma coisa pra comer, as pessoas me xingavam e eu comecei a ficar com medo das pessoas. Eu queria só alguma coisa pra comer, pra poder me alimentar e as pessoas me xingavam. E às vezes, muito cansado, eu entrava nos banheiros pra dormir e as pessoas me acordavam de manhã me chutando”.

Essa dificuldade passada pelo catador é sentida até hoje por outras pessoas. Bispo lembra que na madrugada de sábado para domingo, antes dele comparecer ao #VaidapéNaRua, uma mulher morreu por causa do frio. “Uma catadora perto da Rua Juquiá, onde eu faço uma coleta no colégio lá, ela morreu de frio. Ela ficava catando no centro, mas dormia pra cá, porque pra cá é mais seguro” lamenta o colega.

KOMBOSASELETIVA

O convidado falou nos estúdios sobre o projeto que ele mesmo idealizou, a Kombosa Seletiva. O coletivo tem como objetivo melhorar a qualidade do serviço de coletade de materiais recicláveis, tanto para as empresas e indivíduos, quanto para os catadores.

A ideia é viabilizar as Kombis para que os catadores possam utilizá-las na coleta, o que evita, por exemplo, a tração humana provocada pelos carrinhos tradicionais, especialmente para os catadores que possuem alguma dificuldade de mobilidade ou outros problemas físicos. Bispo faz questão, porém, de respeitar também quem usa o carrinho e faz a ressalva: “Cada um tem sua escolha, sabe qual deve ser o seu instrumento de trabalho”.

“São catadores que saíram do seu carrinho e começaram a se organizar. A ideia é uma economia coletiva. Cada um vai ajudando o outro a ter a sua. A Kombosa hoje presta serviço em estabelecimentos, escolas, restaurantes. Fazemos toda a gestão do resíduo, nas cooperativas. A gente emite relatório, faz palestra em colégios, fazemos um layout”, explica Bispo, orgulhoso da repercussão que o projeto vem tomando.

Atualmente, são três Kombosas, uma delas funciona em Santa Catarina. O sonho de Bispo é que os catadores e suas Kombis possam se cadastrar no site oficial de reciclagem de resíduos da Prefeitura, serviço que, hoje, apenas grandes empresas cadastradas pelo poder público são autorizadas a fornecer. “Hoje no site da AMLURB você tem que pagar uma empresa, um valor super alto. Por que você não pode remunerar a prestação de serviço de um catador?”, questiona.

Bispo conta que a Kombosas Seletiva é na verdade uma marca, para atrair as pessoas para a contratação do serviço dos catadores. “É o marketing, pra chamar a atenção, pra ter mais parceiros e prestar o serviço com a profissionalização dos catadores”.

COOPER GLICÉRIO

Sérgio Bispo fala da importância da união entre os catadores

Para gerar trabalho, renda e profissionalização da categoria, catadores e catadoras se organizaram para fundar, em 2006, a Cooper Glicério. Bispo, que foi presidente nos dois primeiros mandatos da entidade, explica que ela funciona de maneira diferente das outras cooperativas, pois une dois sistemas de trabalho: o sistema de horas trabalhadas e os boxes, espaços para os sócios-cooperados guardarem seus carros ou carroças. Eles dividem as áreas e criam uma logística, mas no final o material é vendido junto.

Bispo explica que a cidade de São Paulo recicla apenas 5% das 20 mil toneladas de resíduos produzidas diariamente. Esse número leva em conta o serviço oficial da Prefeitura, realizado por meio das empresas de coleta e de cooperativas conveniadas. “Os dados dos catadores avulsos a Prefeitura não tem. A ideia das unidades de negócio é essa. Os catadores terem um lugar para trabalhar, um espaço pra triagem, um espaço para processamento e para uma comercialização coletiva. Aí, o catador avulso pode prestar um serviço para a sociedade que ele receba pelo seu trabalho”.

Mesmo com o esforço para organizarem as cooperativas, elas não conseguem competir com as grandes empresas. Segundo a lei municipal 14.973, as empresas que produzem 200 litros de resíduos sólidos devem contratar alguém para fazer o “recolhimento periódico dos resíduos coletados e o envio destes para locais adequados, que garantam o seu bom aproveitamento, ou seja, a reciclagem”.

Bispo diz que esse trabalho está monopolizado nas mão de algumas empresas e que as cooperativas não conseguem participar. “Essas empresas ganham para coletar, ganham para separar e elas ganham para vender.  Porque nós catadores e catadoras não podemos ganhar também? ” questiona.

“Essas empresas ganham para coletar, ganham para separar e elas ganham para vender.  Porque nós catadores e catadoras não podemos ganhar também? ”

Ele também lembra que o objetivo não é ser “ser igual o mercado capitalista que explora a mão de obra do catador”, mas sim ter uma “economia circular”.

Essa burocracia é independente das gestões municipais. O prefeito de São Paulo João Doria (PSDB), com a campanha Cidade Linda, ameaça de despejo das cooperativas na região do Glicério.. Bispo diz que o ex-prefeito Fernando Haddad poderia ter garantido a permissão do espaço enquanto estava no cargo, mas não o fez. “Às vezes o poder público atrapalha” desabafa.

 

O renomado Dj Pae Vito colocou para tocar Tráfico, do RZO e A Chapa é Quente, do projeto Língua Franca, que reúne Emicida, Rael, Capicua e Valete juntando o rap do brasil e de Portugal. Ainda teve Admirável Gado Novo, pedido pelo próprio Bispo, que é fã de Zé Ramalho.


Vaidapé na Rua é transmitido ao vivo toda segunda-feira, às 20h, pela Rádio Cidadã FM. Na região do Butantã, o público pode acompanhar o programa sintonizando 87,5 FM e, no mundo inteiro, através do site da rádioAcompanhe também a transmissão #aovivo pela página da Vaidapé no Facebook

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