01 de setembro de 2017

A história Guarani no alto do Jaraguá: “O branco não tem palavra, por isso ele inventou o papel”


Especulação imobiliária, privatizações e cidadania: a história de luta das terras originárias dos Guarani Mbya no Jaraguá


Por Gil Reis
Fotos: Julia Mente
Vídeo: João Miranda

Durante a última semana, diversas notícias envolvendo a venda de territórios na Amazônia para exploração da iniciativa privada ganharam as manchetes em todo o mundo, mobilizando milhares de pessoas ao redor do planeta. À medida em que os retrocessos avançam, as lutas e movimentações contra as ações nocivas do homem branco também se intensificam.

No dia 21 de agosto, outra notícia evidenciou o descaso do poder público com a preservação do meio ambiente e a garantia à terra das populações tradicionais. A aldeia Tekoá Pyau, localizada próxima dentro da Terra Indígena do Jaraguá, em São Paulo, teve seu direito à terra revogado, depois que o Ministro da Justiça Torquato Jardim cancelou uma portaria aprovada em 2015 que garantia 532 hectares necessários para o modo de vida de três aldeias diferentes, que residem dentro da TI do Jaraguá.

Estes dois fatos revelam a incapacidade do Brasil em reconhecer a importância de suas comunidades indígenas e tradicionais como sujeitos de direito. Para Thiago Karai Jekupe, liderança Guarani de 23 anos, que vive no Jaraguá, “o que o governo Temer fez foi desmarcar [a garantia de] um território tradicional, uma coisa inédita no Brasil. Isso é um crime muito grande”, desabafa.

LUTA E HISTÓRIA

Realmente, é a primeira vez que isso acontece no país. Com sua ocupação reconhecida desde 1987, a TI do Jaraguá era tida como a menor da América Latina, contendo apenas 1,7 hectares. Com a portaria assinada pelo então ministro José Eduardo Cardozo em maio de 2015, foi aprovada a extensão da área Guarani para 532 hectares, o que garantiria a ocupação segura das 700 famílias que vivem no local, incluindo, além da Tekoá Pyau, as aldeias Ytu e Itakupe .

A resistência Guarani na região tem se intensificado diante do agravamento dos interesses que cercam o território. Uma das principais ameaças é o projeto de privatização do Governo do Estado, que inclui o Parque Estadual do Jaraguá. As três aldeias juntas ocupam parte dos 492 hectares do parque.

Sônia Ara Mirim, de 53 anos, está na aldeia Pyau desde 2015. Para ela, a pressão tem que continuar. “O próximo passo é pressionar o governo até que ele volte atrás”, explica de forma objetiva, tendo em mente também um movimento que ganhe adesão de todos. “A gente tem que mexer com a população!”, completa Sônia, prometendo defender a terra até seu último suspiro.

“O próximo passo é pressionar o governo até que ele volte atrás”

– Sônia Ara Mirim, Guarani Mbya

A história dos Guarani na região do Jaraguá é anterior à Constituição de 1988. Segundo Thiago, a ocupação indígena naquele território é muito antiga e foi reconhecida somente em 1987. “Nosso território foi demarcado em 14 de abril de 1987 como a menor terra indígena da América Latina demarcada por um órgão federal”, explica Thiago, que tem pleno conhecimento sobre a história de seus ancestrais.

Apesar da pouca idade, Thiago reconhece que a luta é histórica e busca força nos seus antepassados. “A minha avó foi a primeira cacique mulher no movimento indígena. Ela sofreu muita pressão porque não era comum as mulheres se manifestarem”, conta, exaltando a guerreira que mudou sua maneira de ver o mundo: “Eu busquei essa forca muita da minha avó, de ver como ela agia, como ela tomava a frente da luta”.

“Eu busquei essa força muito da minha avó, de ver como ela agia, como ela tomava a frente da luta”

Thiago Karai Jekupe – Guarani Mbya

O ATO

Thiago estava na linha de frente do ato da última quarta-feira (30), na região da Av. Paulista, em São Paulo. Era uma das principais vozes que inflamavam os Guarani, vindos de diversas regiões do Brasil.  A união trazia representantes das aldeias de Jaraguá, Silveiras (Bertioga) e Registro, além de grupos do Espirito Santo, Amazonas e Mato Grosso, que vieram para apoiar a luta para garantir a demarcação das terras no Jaraguá.

Com início no vão do MASP, o ato rumou até a frente da Secretaria da Presidência em São Paulo, que estava ocupada pelos Guarani desde o início da manhã de quarta-feira.

As danças e manifestações culturais dos povos tradicionais estavam ali, presentes na avenida que representa a urbanização de São Paulo, explicitando a contradição da bolha paulistana.

Trecho da Av. Paulista tomado pela manifestação.

Mesmo assim, o ato foi ganhando adesão da população que reconhece a importância da causa indígena em todo o Brasil. Perto das 19h, a manifestação estava lotada.

Entrevistado pela Vaidapé durante o ato, Vitor Karai Mirim, Guarani que vive no Jaraguá, só pediu o cancelamento da revogação divulgada pelo Ministro da Justiça e lembrou: “A gente quer nossa terra pra ter nossos recursos, pra usar com carinho e pra cuidar da natureza. A gente quer nossa portaria de volta!”.

Veja o vídeo da transmissão ao vivo do ato pela Vaidapé:

A RUA GRITA

‘É quando som de preto toca que incendeia o baile’

Cantada pelo músico capixaba Fabriccio, a frase acima integra o single “Teu Pretim”, do disco … Continuar lendo ‘É quando som de preto toca que incendeia o baile’