22 de setembro de 2017

Primeira coletânea de poesia gay da literatura brasileira será lançada com financiamento coletivo


Projeto que reúne autoras e autores gays está com campanha de financiamento coletivo no Catarse até novembro


Por: Magalli Lima
Fotos: Divulgação

“Músculo de veludo na boca de todos os feirantes

       torpedeiros meninas de internato

       negociantes padeiros farofeiros

       torcidas exércitos de humanocultura

       onde você habita alucinante

       como promessa derradeira

Cu boquiaberta entrada franca dos demônios”

(Trecho de “Poema elétrico do cu”, de Roberto Piva)

São muitas as questões que brotaram da realização do projeto Poesia Gay Brasileira – um livro que, antes mesmo de ser lançado, já chega com um peso importante: ser a primeira antologia nacional que, explicitamente, aborda a imagem do gay na literatura – sem precisar disfarçar sua bandeira, como na antologia “Poemas do Amor Maldito”, publicada nos anos de 1960, por Gasparino Damata, que por questões políticas precisou subjetivar o apanhado.

Para além do ineditismo, o livro extrapola o próprio formato, visto que é um projeto ousado, repleto de ramificações. São poemas, vídeos, bibliografia, propostas de palestras e viagens. Tudo a ser financiado pelo Catarse, numa proposta encabeçada por duas idealizadoras, a jornalista e poetisa Marina Moura (27); e a designer de Belo Horizonte Amanda Machado (34).

Marina juntou-se a Amanda há cerca de dois anos para pesquisarem a presença e imagem do gay na literatura. Inicialmente o projeto abrangia diversos gêneros literários e, nos desdobramentos, enfocou os poemas num ‘garimpo’ longo e intenso. O processo resultou na coleta de 42 autores e autoras que, de variados modos, transportaram para seus versos as vivências, paixões, relações e rotinas de personagens homossexuais.

“É importante o gay estar na literatura, na novela, na vida real, em todos os lugares. Espero que isso seja naturalizado”

“Entendemos que existe um preconceito social absurdo contra o gay e, se temos como ajudar a combater esse preconceito por meio da poesia, vamos fazer. É importante o gay estar na literatura, na novela, na vida de real, em todos os lugares. Espero que isso seja naturalizado”, discorre Marina.

Dentre os nomes de poetas e poetisas inseridos na antologia, estão alguns já esperados, como Caio Fernando Abreu – autor que tanto abordou o amor e a paixão entre homens. Já Glauco Mattoso agrega à coletânea como uma voz que mistura sátira e sensualidade, destacando os chamados “poemas fesceninos”.

No vídeo abaixo, Glauco, um dos convidados para depoimento, conversa sobre um ponto importante acerca da antologia: a discussão sobre existir ou não poesia gay; além dos rótulos gerados pela abordagem de escritores acerca de personagens homossexuais, entre outros pontos.

Entrelaçados com nomes muito conhecidos, como Carlos Drummond de Andrade, estão autoras e autores novos do ramo – como a própria Marina, que está presente na antologia com alguns poemas. Além de poetas de longa estrada, mas com pouca visibilidade. Um recorte que passa por nomes de diversas partes do Brasil, variadas idades e abordagens particulares sobre personagens gays, como explica Marina.

“Nossa ideia não era fazer um recorte do passado desconsiderando os novos nomes. Até porque não são só os figurões que falam sobre o assunto, ou só os gays da capital. Existem muitos escritores de longe fazendo e lutando por um espaço para falar sobre o assunto. Então, a proposta da antologia é gerar visibilidade para todos”, detalhou.

Desse emaranhado de autores, cerca de 15 são mulheres. Um número que levanta questionamentos. “Estávamos quase fechando essa antologia com pouquíssimas mulheres”, resgata Marina. “Tivemos acesso às mulheres quase no fim da pesquisa. E isso gera perguntas. Cadê as mulheres que relatam suas experiências? Pois elas certamente vivem e escrevem sobre esses assuntos. Mas por qual motivo são menos encontradas? será que até para isso existe um peso a mais para a mulher?”, indaga.

“avisei:

não se apaixone por mim

roupas espalhadas, nossas

Agarra e beija em mim tudo

Que agora é dela

É pão e vinho nossa farra

Suamos no corpo da outra

E blasfemamos contra as horas

Cheirei seus segredos, mordi suas axilas”

(trecho de Maria dos Meus Pecados, por Alessandra Safra)

Desse recorte de mulheres, muitas são contemporâneas, como Cassandra Rios, que, em meados dos anos 1960, escrevia um bocado de histórias a partir da temática homossexual. Em certo momento, a escritora teve de transformar os personagens gays em héteros, tudo em prol dos escritos passarem pela censura ditatorial da época.

Renata Pallottini é outro nome de peso. Atualmente com 86 anos, a escritora aparece na antologia com um poema intitulado “Duas Senhoras” – em que narra a relação de amor entre duas mulheres de idades avançadas. Temáticas tão particulares e pouco revisitadas, que se mostram verdadeiros achados no livro – revelando autoras que acabaram levando a outras autoras. “Foi preciso direcionamento para encontrá-las. Elas não estão dispostas em prateleiras, como os homens”, arremata Marina.

Apoiado por Jean Wyllys, o projeto tem orelha assinada pelo político e escritor; além de prefácio por Heloísa Buarque de Hollanda – escritora e crítica literária. A proposta é de que o financiamento alcance o objetivo de imprimir cerca de 3 mil livros – com boa parte sendo distribuída por centros de referência LGBTTQ e bibliotecas públicas.

Até novembro, é possível colaborar online com o projeto, que se desdobrará, como já citado, em evento de lançamento, viagens, palestras, entre outras atividades que colocam à frente o objetivo de difundir a literatura dentro da temática LGBTTQ.

“Sabemos que esses autores e autoras, acima de tudo, fizeram literatura. São bons escritores, primeiramente, que não se restringem ao LGBTTQ. Contudo, é importante trabalhar com esse recorte para eles serem reconhecidos, pois a literatura deixou muita coisa para trás que precisa ser resgatada e evidenciada hoje”, finaliza Marina.

COMO APOIAR?

Para colaborar com o financiamento colaborativo do livro Poesia Gay Brasileira basta acessar o link: https://www.catarse.me/poesiagaybrasileira

Facebook: https://www.facebook.com/poesiagaybrasileira/

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