29 de setembro de 2017

Sempre na estica, cabelo escovinha: As histórias de Josyas, o barbeiro de Mano Brown


Josyas atendeu Mano Brown pela primeira vez em 1997. Desde então, passou a cortar os cabelos de nomes como Seu Jorge, Jorge Ben e o atacante Jô, do Corinthians.


Por: Iuri Salles
Fotos: Gil Reis

Duas décadas atrás, o jovem barbeiro Josyas viu seu caminho profissional mudar quando recebeu no seu humilde salão no Jardim Letícia, na zona sul de São Paulo, ninguém menos que um tal de Mano Brown.

Brown chegou até o salão de Josias por intermédio de um amigo em comum. O ano era 1997 e os Racionais MC’s já eram sucesso nas periferias de São Paulo com o disco “Sobrevivendo no Inferno”. “Certo dia ele encostou no salão e eu fiquei bem nervoso porque pra nóis Racionais era tipo um religião. Eu pensei que tinha que agradar o cara”.

E realmente, Josyas agradou o rapper. Vinte anos depois, Mano Brown ainda continua mandando o corte com o barbeiro. Hoje, o espaço não é mais um 2×2,  está bem maior, mais bonito, com wifi, ar condicionado, todo estilizado e com uma hamburgueria nos fundos.

Josyas Silva Mendes é aquele tipo de sujeito que tem a sorte de trombar com o seu próprio dom por um acaso da vida. “O primeiro cabelo que eu cortei foi do meu irmão, porque era casamento da minha irmã e minha mãe não tinha dinheiro pra pagar o corte dele. Eu peguei uma tesoura de cortar pano e cortei o cabelo dele, no dia seguinte todo mundo gostou. Em um ano que eu tava cortando cabelo na casa da minha mãe, já não cabia mais gente”.

Josyas credita boa parte do seu sucesso ao fato de ter Brown entre os seus clientes. “Eu corto cabelo do Jorge Ben, Seu Jorge, do Jô, atacante do Corinthians, Naldo Benny e mais uma rapa tudo graças ao Brown”.

“Eu corto cabelo do Jorge Ben, Seu Jorge, do Jô, atacante do Corinthians, Naldo Benny e mais uma rapa tudo graças ao Brown”.

Nos anos 90 as periferias de São Paulo eram ainda mais violentas, o número de mortos ultrapassava países em guerra cívil. “Era foda, eu peguei a época dos pé de pato [supostos militares assassinos que atuavam dentro das periferias]. Quem fumava maconha os caras sentavam o pau sem dó, e a gente tava exposto a toda essa violência porque a gente cortava o cabelo da rapaziada. Já teve caso em que eu tava cortando cabelo e alguém deu um tiro pra dentro do salão.”

Mesmo com a cidade de São Paulo mergulhada na violência, os negócios de Josyas cresciam e ganhavam projeção porque, afinal, todo mundo espera alguma coisa de um sábado a noite. “A violência dos anos 90 não chegou a afetar o salão, porque todo mundo precisa cortar o cabelo. Mesmo com gente morrendo, todo mundo quer ir com cabelo cortado pro rolê, isso não tem jeito”.

O tempo passou mas, como diria Tupac, certas coisas nunca mudam. “Eu mesmo sempre sofri uma perseguição policial. Os caras sempre acharam que eu era traficante, mas eu não tô nem ai, faço a minha, só corto cabelo. E isso até hoje, os caras as vezes vêem carrão ou motona parada na porta e acha que é de bandido, porque pra eles a gente não pode ter isso. Eu vejo essa situação como inveja, eles queriam colar e não conseguem, aí ficam nessa”.

“A violência dos anos 90 não chegou a afetar o salão, porque todo mundo precisa cortar o cabelo. Mesmo com gente morrendo, todo mundo quer ir com cabelo cortado pro rolê, isso não tem jeito”.

Mesmo com Josyas fazendo atendimentos fora do salão, Mano Brown continua indo até o Guarapiranga pra cortar a cabelêra. O estilo atual do cabelo de Brown foi mais que um simples corte. O penteado pensado por Josyas e Pedro Paulo tem um objetivo bem claro: revolucionar.

“A gente fez dessa forma pra revolucionar mesmo e acompanhar esse novo momento da carreira dele com o disco ‘Boogie Naipe’. E pra mostrar que a periferia também pode fazer o que quiser: trança, raspar, black, pintar de rosa, amarelo, verde, entende? Foi pra quebrar isso, de que a gente não pode as coisas. Depois que ele fez esse corte muita gente veio aqui pedindo igual.”

“O cabelo novo do Brown foi pra revolucionar mesmo e acompanhar esse novo momento da carreira dele. E pra mostrar que a periferia também pode fazer o que quiser: trança, raspar, black, pintar de rosa, amarelo, verde, entende?”

Na cadeira de Josyas, Brown não se difere dos outros clientes, a não ser pelo fato de ser um dos maiores artistas da história do país. Os assuntos não são muito diferentes. “A gente fala sobre futebol, roupa, negócios, black music em geral, ele sempre tem um som pra mostrar, eu também mostro uns sons pra ele. O Brown é muito simples. Ao contrário do que muita gente acha, o Brown é bem receptivo, sorridente, troca uma ideia com todo mundo”.

A amizade entre Mano Brown e Josyas rendeu um dos momentos mais emocionantes da vida do barbeiro, que também é músico. Ele teve a oportunidade de cortar o cabelo do Brown ao vivo durante o show de lançamento do seu novo disco no CityBank Hall. “Cara, foi surreal, até hoje eu não acredito muito. O Brown falou pra mim ‘Jô vou cortar o cabelo durante o show’, mas eu não sabia que seria no palco. No finzinho do show ele me chamou, já tinha todo o cenário de uma barbearia, ele sentou na cadeira e eu cortei com o Ed Motta cantando Marvin Gaye.”

Todo o cenário, com quadros e adereços cheios de referências negras, utilizado no show foi parar na barbearia do Josyas, mais especificamente na hamburgueria que fica nos fundos do salão, dando um ar especial à decoração pra quem vai lá pra fazer aquele corte chavoso e comer um lanchão.

“Eu acho que a gente tem que, cada vez mais, trazer os baratos daora pra dentro da periferia. Ninguém mais precisa ir pro Centro pra ir numa barbearia daora. “

 

Nos dias de hoje, é cada vez mais frequente novos tipos de negócio dentro das quebradas, e a barbearia do Josyas é claramente um desses empreendimentos que não víamos há alguns anos atrás. “Eu cobro R$30,00 o corte que é pra ninguém falar que é só pra artista, e eu acho mesmo que a gente tem que, cada vez mais, trazer os baratos daora pra dentro da periferia. Ninguém mais precisa ir pro Centro pra ir numa barbearia daora. E hoje o preto sabe mais o que quer, eu posso falar pelo corte de cabelo. Hoje ninguém vem aqui com medo de fazer um corte afro”.

“Hoje o preto sabe mais o que quer, eu posso falar pelo corte de cabelo. Hoje ninguém vem aqui com medo de fazer um corte afro”

Pra você mandar um corte com o cabeleireiro do Brown, Jorge Ben e Seu Jorge, tem que ir até a Rua Martins do Prado, 173, no Parque Alves de Lima, e ligar no (11) 5892-3716, agendar com uma semana de antecedência e desembolsar R$30,00.

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