06 de outubro de 2017

‘É quando som de preto toca que incendeia o baile’


Cantada pelo músico capixaba Fabriccio, a frase acima integra o single “Teu Pretim”, do disco Jungle, lançado com entusiasmo na cena independente de São Paulo


Por: Magalli Lima
Fotos: Thais Moreira

Em terra de Melanina Mcs, Lucas Arruda e André Prando – entre tantos outros artistas de grande qualidade musical que compõem a cena cultural de Vitória do Espírito Santo – Fabriccio chega de lá e escoa sua música por São Paulo, amparado pela cidade há cerca de três meses.

Jungle, seu primeiro álbum oficial, não só faz referência a São Paulo – pelo próprio título, remetendo ao termo “selva de pedra” –, como foi produzido por aqui, a convite de Tico Pro, com direção de G Mike, do Indigo Music – um estúdio desses com aconchego de casa, que fica na avenida Pompeia; e possibilitou a Fabriccio uma imersão musical intensa que resultou no disco, lançado no início de setembro.

Foi preciso sair de Vitória para conseguir essa ‘atenção’ na cena musical independente, que se apresenta maior e com forte formação de público em São Paulo. Mas ainda assim, e inevitavelmente, Vitória está em Jungle. Não só pelo artista ser capixaba, mas em músicas como “Beira Mar” e “Teu Pretim”, presentes no disco e que destacam um cenário nada incomum para os capixabas.

“Vitória continua comigo, porque é um lugar maravilhoso, tem pessoas incríveis e uma cena musical que tem potencial para ser um grande destaque no meio desse eixo RJ-SP. Tem muita coisa de lá que poderia estar em qualquer lugar, mas que ainda não consegue respirar muito”, destaca Fabriccio. “Eu quero mais é que os capixabas invadam São Paulo mesmo!”, brinca o produtor Tico, num breve comentário sobre os capixabas na cidade cinza.

“Tem muita coisa de Vitória que poderia estar em qualquer lugar, mas que ainda não consegue respirar muito”

Composto por 13 canções, Jungle já chama atenção por uma mistura de gêneros Black Music e um frescor de R&B que compõem um disco daqueles de se escutar “numa tacada só”, pelo ritmo entre delicadeza e batidas.

“Fazer algo mais R&B sempre foi meu alvo, mas em 2013 quando lancei Desajeito, meu EP, fiz focado em voz e violão, que era o que eu tinha em mãos, visto que tocava muito violão em barzinhos e, ao mesmo tempo, começava a trabalhar minha voz”, resgata o cantor.

Nesse primeiro trabalho fica mais perceptível um entrelaçamento de rock, e violão & voz, como citado, além de letras sobre relacionamentos e vivências. Linha que não foi transpassada para Jungle, um álbum que aborda muito da religiosidade e cultura negra e que, dessa forma, tem gerado bastante identificação entre o público negro, contou Fabriccio.

São faixas que carregam certa elegância e leveza – até mesmo quando abordam assuntos mais duros, como em “O negro quando canta”, que possui o verso: “Compositor, pele preta, na rua a polícia me chama ‘ladrão’”; ou quando passeia pela força de letras como a de “O poder do machado de Xangô”, com a participação primorosa da cantora Luedji Luna.

“Acho que essa coisa do negro estar se vendo mais no que ele consome facilita o apoio coletivo.”

Aliás, as participações do disco refletem esse achego na abordagem da cultura negra, com o brilho de vozes não só de Luedji, mas de Lucas Arruda, em “Orfeu”, e da rapper Tássia Reis (na canção “Preta” – vídeo abaixo). Esta última participação, uma verdadeira sintonia artística, já que escutar Jungle faz lembrar o ‘rapjazz’ de Tássia no início de carreira. No geral, participações que soam como necessárias, firmando ainda mais o engajamento negro do trabalho.

Sobre essa evidência da cultura negra no álbum, Fabriccio associa à sua maturidade enquanto compositor e músico. Agora, o cantor passa pelo momento de escoação do trabalho, que vem sendo bem recebido por cantores negros independentes; e por um público que começa a se enxergar na produção cultural.

“Acho que essa coisa do negro estar se vendo mais no que ele consome facilita o apoio coletivo. Já enquanto artistas negros independentes, nos vemos na mesma situação: de pessoas negras em São Paulo – uma cidade um tanto hostil – querendo viver de música em pleno 2017; era Temer”.

“Enquanto artistas negros independentes, nos vemos na mesma situação: de pessoas negras em São Paulo – uma cidade um tanto hostil – querendo viver de música em pleno 2017; era Temer”

Não à toa Jungle foi lançado no Aparelha Luzia, um espaço cultural no centro de São Paulo de destaque para artistas negros e que já era frequentado por Fabriccio. Daqui em diante o álbum se desdobrará em disco físico e em clipe do single “Teu Pretim”. Tudo com lançamento para as próximas semanas. Shows também virão, com agenda divulgada em breve.

Por enquanto Fabriccio tem colhido o retorno do público, de outros artistas e do que o álbum tem gerado. “Uma coisa que aprendi fazendo esse álbum é trabalhar em parceria e ver o trabalho do outro como um gatilho para o meu. Foi assim que Jungle se estruturou como o trabalho que eu sempre quis falar ‘isso aqui é o meu trampo!’, até porque me vejo muito nele”, finaliza.

 

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