10 de outubro de 2017

‘A Espanha não nos representa’: relatos e previsões de um jornalista brasileiro na Catalunha


Um depoimento sobre o clima de tensão que tomou conta de Barcelona nos últimos dias com manifestações pró e contra Independência e os possíveis desdobramentos da separação da Catalunha


Sacada em Barcelona com as bandeiras da Espanha e da Catalunha.

Relato por: Fábio Whitaker
Fotos: Fábio Whitaker

A Espanha enfrenta uma crise política e uma briga governamental inéditas após o referendo pela Independência realizado – sem contar com o reconhecimento legal do governo espanhol – na Catalunha no domingo passado (1). Nos últimos dias, manifestações dos dois lados deram o tom do que poderá se tornar a região catalã caso a Independência se concretize. A tensão e os discursos inflamados começam a tomar conta dessa disputa histórica na Espanha.

“A ESPANHA NÃO NOS REPRESENTA!”

A Catalunha sempre teve um sentimento de região independente muito forte. Andando pelas ruas de Barcelona se vê em cada edifício a bandeira independentista pendurada na sacada dos catalães. O orgulho de ser catalão é enorme, eles possuem cultura própria, língua própria, tradições e costumes próprios. Por outro lado, não há como andar por Barcelona e não se sentir na Espanha, com o tempo ensolarado, paella e tapas servidas em cada restaurante, espetáculos de flamenco. Tudo isso é uma maneira de atrair turistas a partir da reconhecida cultura espanhola, somado à grande imigração de outras regiões da Espanha que houve no começo do século e após a crise de 2008, deixando na cidade uma grande influência de outras partes do país.

Nos últimos meses, esse sentimento de independência ganhou ainda mais força. Em cada conversa de mesa de bar ouve-se comentários sobre o referendo. Conversando com muita gente aqui sobre o porquê da independência, todos tem a mesma resposta: “Nós somos catalães e não espanhóis, somos muito diferentes culturalmente e a Espanha não nos representa”. Com essa postura, os catalães querem fazer a propaganda da independência em todas as oportunidades possíveis. Em jogos do tradicional FC Barcelona e até mesmo durante a Marcha da Paz, ocorrida após o atentado terrorista contra turistas na capital catalã, é possível observar as bandeiras da Catalunha à mostra.

Pixação nas ruas de Barcelona. É possível ler “Espanha cheira a bunda”, em tradução literal.

Quando a data do referendo foi se aproximando, as demonstrações também se tornaram mais intensas. Protestos gritando por independência eram organizados diariamente, ruas foram pichadas com insultos ao governo de Madrid, fotos coladas em postes e pontos de ônibus contendo escritos como “Bem-vindo a República”, “Votaremos” ou “Novo País” e até um ruidoso panelaço era ouvido diariamente, às 10h da noite. Era possível sentir no ar que algo estava para acontecer.

O dia do referendo chegou e, junto com ele, tropas da guarda civil espanhola para tentar impedir a realização do mesmo. Estima-se que 67.000 pessoas foram impedidas de votar devido ao fechamento de colégios eleitorais pela polícia espanhola e, ainda assim, os votos foram apurados e apresentaram um resultado que mostrou a esmagadora vitória do SIM, por mais de 90% dos votos a favor da independência.

OUTRO LADO

Depois de uma semana muito conturbada e tomada por movimentações de rua e farpas institucionais entre o governo catalão e espanhol, o último domingo (8) registrou mais um protesto em Barcelona, mas dessa vez da minoria, a parte que não apoia a independência.

O grupo é composto, em grande parte, por cidadãos espanhóis de outras regiões do país e que imigraram para a Catalunha e por catalães que tem familiares vivendo em outras regiões espanholas. Os manifestantes gritavam que a Catalunha não pode decidir por si mesma, cantando o hino espanhol, balançando bandeiras da Espanha por todas as partes e pedindo, inclusive, a prisão de Carles Puigdemond, o presidente da Generalitat – o governo autônomo da Catalunha – e um dos grandes líderes do movimento pela independência.

O motivo alegado para a prisão do líder catalão é a realização do referendo mesmo após a declaração do primeiro ministro espanhol Mariano Rajoy, do partido conservador PP, afirmando a ilegalidade da votação. O protesto foi acompanhado de uma imensa tensão, porém terminou pacifico, sem maiores incidentes.

O QUE VEM DEPOIS?

No papel, a independência seria uma conquista histórica para os catalães, que poderiam se tornar uma região politicamente e financeiramente sustentável. Afinal, a Catalunha conta com uma população equivalente à da Suíça, o território do tamanho da Bélgica e o PIB correspondente ao da Noruega.

Porém, como o rompimento unilateral com a Espanha seria considerado ilegal pelo governo central em Madrid – e possivelmente por boa parte dos países europeus – os catalães teriam que enfrentar retaliações que devem cobrar altos custos, especialmente à sua economia. Bancos espanhóis que possuem suas sedes aqui na Catalunha sofreriam grande queda. A exclusão da União Europeia e, consequentemente da possibilidade de uso da moeda comum do Euro, parecem inevitáveis se a separação se concretizar. A Catalunha não teria mais a supervisão econômica da EU, além de não possuir um exército constituído, o que pode dificultar a defesa do território caso a tensão com Madrid esquente ainda mais.

Tudo indica que nessa terça (10), o governo catalão deve manifestar a vontade popular resultante do referendo. A Independência parece uma manobra muito arriscada. Resta ver até onde os catalães querem, e podem, pagar pra ver.

A RUA GRITA

‘É quando som de preto toca que incendeia o baile’

Cantada pelo músico capixaba Fabriccio, a frase acima integra o single “Teu Pretim”, do disco … Continuar lendo ‘É quando som de preto toca que incendeia o baile’