25 de outubro de 2017

Grupo da periferia de Guarulhos mescla pancadão, samba e teologia da libertação em suas músicas


Unindo MPB, funk e samba, As Despejadas se destacam cantando contra a repressão e violência a mulher. 


Por: Alan Felipe
Fotos: Alexandre Marin

Direto da periferia de Guarulhos, As Despejadas foram até a Rádio Cidadã FM, a comunitária do Butantã, para trocar uma ideia no #VaidapéNaRua. Nos estúdios, Ariadne Pereira (percussão), Lídia Martiniano (voz e cordas) e Vitória Silva (voz) representaram o grupo, que conta ainda com Nataly Ferreira (voz e cordas) e está com uma campanha de crowdfunding no Catarse para financiar seu primeiro CD: “SouFrida Luta”.

Ouça o programa completo no player:

A banda começou por acaso na Escola Estadual Antônio Viana de Souza, onde todas as meninas estudaram. Diferente das escolas comuns, o colégio tem projetos culturais bimestrais.

Em um desses eventos, Vitória estava declamando um poema e as outras meninas formaram um coral para cantar uma música de Chico Buarque junto com ela: “elas começaram a cantar, então eu pensei: ‘vou ter que cantar também’”, disse, rindo do fato de ter se tornado vocalista da banda.

Foi na escola também que a banda foi batizada, de uma maneira incomum.

Durante uma tarde no colégio, elas foram abordadas pela coordenadora por estarem sentadas no chão: “porque vocês estão aqui no chão? Estão parecendo umas despejadas”, lembra Natali.

Para Vitória, aquela palavra identificava todas como uma banda: “A gente procurou o significado de despejo no dicionário. É aquilo que não cabe mais em si. Transborda. Eram as nossas angústias, nossas dores, tudo que queria falar sobre como é ser mulher”, desabafou.

“A gente procurou o significado de despejo no dicionário. É aquilo que não cabe mais em si. Transborda. Eram as nossas angústias, nossas dores, tudo que queria falar sobre como é ser mulher”

Para as meninas, que compartilham grande parte dos aprendizados dentro e fora da sala, o livro “Quarto de Despejo” de Carolina de Jesus,  sintetiza de maneira geral a banda.

Eis que Vitória declama um verso do livro: “O Senhor Dário ficou horrorizado com a primitividade na qual eu vivo. Ele olhava tudo com muito espanto, mas o que ele tem que entender é que a favela é, e sempre será, o quarto de despejo de São Paulo. E eu sou uma despejada”.

Mesmo a escola sendo importante para a banda, Vitória não quis romantizar: “é uma escola que apoia muito a cultura, mas como toda escola pública é sucateada”, opinou, dando um duro exemplo: “muitas vezes os professores juntavam dinheiro do próprio salário para comprar alguma coisa pra gente”.

O SOM

A banda define seu som como uma MPB alternativa, onde mistura o pancadão do funk com o batuque do samba.

Em seus shows, As Despejadas fazem um cover que junta a música “180”, do último disco de Elza Soares, com uma música da Valesca Popozuda.

O som também se mescla com influências de Tom Zé, Lady Gaga, Comadre Fulozinha e Chico Science, além de fortes influências da cena de Guarulhos, como Solar, Concha e Vitor Kali.

Os sons autorais vem das experiências de vida. Segundo Vitória: “a gente nunca escreveu uma coisa que a gente não viveu. Temos noção de como a violência contra a mulher é ampla, mas quando a gente começa a enxergar isso dentro de outra forma é muito mais forte”, completou a vocalista.

RELIGIÃO E REFERÊNCIAS

O som d’As Despejadas é inspirado na teologia da libertação, filosofia que aprenderam com a Pastoral da Juventude.

Ariadne conta que nos encontros da igreja costumam discutir questões do cotidiano. “O que é ser jovem latino-americano? O que é essa juventude brasileira? Como nós somos resultados de todos os processos históricos, dessa colonização, dessa invasão que se deu aqui?”, explica.

Para Ariadne, a igreja deve ir além. Deve questionar a visão eurocêntrica da imagem criada sobre o que é Deus. Para ela, “nós estamos inseridas em uma parte da igreja que discute o feminismo e o genocídio da mulher.”

Clique aqui para apoiar a campanha de financiamento coletivo da banda As Despejadas no Catarse!

 

 

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