02 de outubro de 2017

Moradores do Moinho denunciam a opressão do Estado na favela: ‘Ninguém olha o lado bom da comunidade’


Após ação policial na Favela do Moinho que assassinou um jovem com fortes indícios de tortura, moradores falaram sobre os ataques à região


Por: Alan Felipe
Fotos: Alexandre Marin

No dia 3 de julho, uma semana após a ação policial em que o jovem Leandro de Souza Santos foi torturado e morto dentro da Favela do Moinho, moradores da comunidade foram aos estúdios da Rádio Cidadã FM para denunciar e comentar, no #VaidapéNaRua, o acontecimento.

Alessandra Moja, que faz parte da associação de moradores, lembra que no dia havia sido acordada pelo barulho do helicóptero que sobrevoava a favela. Ela soube da notícia por volta das 11h, através de outros moradores avisando que “a polícia está com um moleque dentro do barraco”. Sua primeira reação foi mandar mensagem para pessoas próximas repassando o recado dos vizinhos.

Quando os moradores se manifestaram contra a ação policial e contestaram o que havia acontecido com Chiclete, como Leandro era conhecido, a polícia respondeu com “bomba de efeito moral” e “balas de borracha em todo mundo” disse Alessandra. “A população disse: ‘o Leandro está morto’ e aí a mãe gritava que ele estava morto, que eles tinham matado o filho dela dentro do barraco”, narra Alessandra sobre o desespero diante da situação.

Segundo a moradora, “a polícia saiu com o corpo enrolado numa manta térmica de dentro do barraco que eles estavam. Nisso a população estava filmando, a polícia começou a pegar o celular de todo mundo e a quebrar. Quebrar o celular e bater nas pessoas que estavam filmando”. A confirmação da morte só aconteceu cinco horas depois, no hospital da Santa Casa. “E aí a Santa Casa não diz quem levou, como chegou lá, qual foi o boletim de ocorrência e ninguém disse até agora o que aconteceu”.

“A Santa Casa não diz quem levou, como chegou lá, qual foi o boletim de ocorrência e ninguém disse até agora o que aconteceu”

A versão apresentada por dois policiais na delegacia é de que Leandro seria traficante e que os PMs estavam em uma operação para sufocar o tráfico de drogas. Quando Chiclete notou a presença da ROTA, teria corrido para um barraco dentro da favela e dado dois tiros. Os polícias deram quatro, cada um.

A família contraria a versão de que Leandro era traficante, mas afirma que ele era usuário de droga. Alessandra também contesta: “Se o moleque correu, atirou e foi uma troca de tiros, ele tinha caído no meio da comunidade. Ele não tinha sido torturado, ele não tinha sido desfigurado do jeito que ele ficou. ”

“A gente ouviu relatos do morador da casa em que ele foi torturado a marteladas: os dois joelhos dele estavam quebrados, os punhos estavam quebrados, as mãos deles estavam toda quebradas de martelada, o rosto dele estava desfigurado. Ele não tinha dente na boca. Um rapaz de 19 anos desfigurado” denuncia a moradora.  “É uma coisa inadmissível no ano de 2017 a pessoa ser torturada” finaliza.

A presença da polícia ficou mais intensa “desde o dia 20 de maio que foi a operação na Cracolândia”, conta Alessandra. “Eles não saem da frente da comunidade e eles estão acampados, agora tem uma base móvel na frente da comunidade e a opressão é todo dia, toda hora”. Ela ainda diz: “todo dia eles me param, todo dia minha mochila é jogada no chão pra ver o que tem dentro”.

“Eles [PMs] não saem da frente da comunidade e a opressão é todo dia, toda hora”

CULTURA E RESISTÊNCIA NO MOINHO

O rapper e morador da comunidade Jackson Ducorre diz que a “A válvula de escape tem sido o rap, tem sido o futebol, tem sido a capoeira e o cinema”, mas pondera a dificuldade de realizar os projetos por conta da repressão do Estado. “Quando a gente pensa em alguma parada os caras [PMs] vem cortar os nossos sonhos”, completa.

Alessandra complementa contando que no Moinho havia um salão em que os moradores organizavam saraus e que foi fechado com a justificativa de que não tinha alvará de funcionamento. Dentro da favela, ainda resiste um cinema público construído através do Projeto VAI e está em curso um projeto para construção de um Telecentro ainda esse ano.

“Ninguém olha o lado bom da comunidade. Todo mundo fala que no Moinho tem traficante, tem violência, mas ninguém fala: ‘lá tem projetos'”

“Através da arte, através da cultura a gente vai procurar um caminho melhor e mostrar uma coisa melhor”, conta Alessandra ao falar dos projetos no Moinho. Ela complementa: “A luta não é só pelo que se foi, mas pelos que ficaram”.

Para acompanhar mais sobre o assunto é só entrar na página da Favela do Moinho, que publica todas as informações atualizadas.

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