31 de outubro de 2017

Uma espécie de Molloy


Santiago Segundo cria um personagem absurdo que se envolve numa estranha busca pelo próprio Estômago, roubado enquanto ele dormia


Por: Bruno Cirillo
Ilustrações: Pedro Mirilli*

O cara acorda numa ressaca braba e descobre que teve um órgão roubado. Não o rim, já explorado noutras ficções, mas o estômago. Ele sai pelas ruas buscando o ladrão e se mete em situações sinistras, numa relação insidiosa com todos que encontra pelo caminho. Está puto da vida e sente constantemente o vazio na barriga, bebe e fuma o tempo inteiro, quer matar todo mundo, e acaba sendo pego num hospital em plena cópula com um estômago (não se sabe se o dele mesmo). “me pegaram no pulo.”

Em uma análise linear, a narrativa é quase simples: o anti-herói ferrado, alcoólatra e fedorento, com um alter ego chamado 2. procura quem lhe roubou as vísceras, deparando-se com personagens que lhe ajudam ou atrapalham, como manda a jornada do herói. Até que finalmente atinge (ou não) seu objetivo. Mas Estômago, obra do jornalista Santiago Segundo recém-lançada pela Editora Kazuá, não é uma narrativa linear.

Molloy**, de Samuel Beckett, parece ser a melhor referência para compreender a proposta do autor. O protagonista se arrasta por caminhos tortuosos, disforme e escatológico, com a linguagem em primeira pessoa no tom mais virulento possível, repleto de sacadas cortantes como o bisturi que o mutilou. Santiago provavelmente leu Hunter S. Thompson, Lourenço Mutarelli e passou muitas noites acordado para escrever esse estranho romance. As tiradas neuróticas e o palavrório indecente, revelador de um rico vocabulário, compensam qualquer falha na solidez do romance, que ignora completamente as estruturas formais e os rigores da língua, inclusive iniciais maiúsculas e travessões:

“maldito o dia em que você descobriu o ponto-e-vírgula.
maldito o dia em que te conheci.”

Um aspecto interessante do livro é a total indiferença dos personagens que o protagonista aborda com berros, ameaça de morte e eventualmente machuca – sem reagir, é como se eles fizessem parte do cenário inanimado. Ou quando ele fala com objetos. Ou quando sai carregando o cadáver de 2. pelas ruas até que 2. revive mais uma vez. O doppelgänger não morre nunca e fica dócil mesmo quando leva uma garfada na nuca. Estômago é, antes de tudo, uma história absurda, mais para Beckett, no entanto, do que para o realismo fantástico, devido ao seu teor sombrio.

“bons tempos de criança! há muitos anos atrás eu ainda estava aprendendo a falar. eu não tinha saco no pelo e meus dentes não procuravam inverter a ordem que deveria reger o mundo, como quando rastejei em círculos cerceando carniças de urubu para afiar os molares.”
[…]
“sem dinheiro e cansado, encontrei um bar, no qual, sensíveis à minha condição de exílio, me alugaram um quarto nos fundos enquanto eu lavasse a louça. como ninguém comia nesse bar e não usavam copos de vidro, me hospedei de graça.”

Na sua investigação, o protagonista descobre que potenciais suspeitos de terem roubado o seu estômago são membros de subdivisões de antigas ordens cristãs: “Consanguíneos dos Cavaleiros da Távola Redonda, os barões sindicais speculum (…) vendedores de espelhos. em algum momento da história, sem sombra de dúvidas, se corromperam. abdicaram de seus votos de pobreza e castidade, exoneraram-se da ordem dos templários e entraram fundo no mercado de espelhos: o bem mais apreciado pelo homem, certo?”

O protagonista é um fluxo de consciência. A criação do sujeito se baseia puramente numa associação ininterrupta de ideias que o leva para lugares inesperados, de maneiras impossíveis, obedecendo somente à liberdade criativa do autor. É como os publicitários fazem para vender coisas, com seus brainstormings, mas sem nenhum interesse a não ser provar o poder da criação literária.

“nunca dei muito valor ao estado de espírito como a maioria dá, seja no amor ou na desgraça – e não sejamos reducionistas o bastante para afirmar que são estados idênticos em suas reverberações. o estado da alma é paradoxal, talvez absurdo e sempre passageiro. obviamente, desde que o indivíduo leve isso a sério.”

Críticas ao “modelo social vigente” estão implícitas na maneira de pensar do autor e não parecem constituir nenhuma mensagem subliminar ou razão de ser da obra. Santiago Segundo é do tipo boêmio que prefere explicitar os absurdos mais sórdidos do pensamento a cair em cartilhas preestabelecidas. É uma bela tentativa, o que ele faz, escapando de qualquer armadilha do acúmulo intelectual das últimas décadas com rompantes ardidos como a cachaça.

Nos pontos altos da narrativa, ele filosofa:

“quando as veias do pensamento racionalista não são regadas logo no começo, a intuição se fortalece preenchendo, assim, a lacuna necessária para a autopreservação. a intuição, tal como um sexto-sentido, quando bem lapidada, é majoritariamente mais relevante à condição humana do que a racionalidade.”

E tira conclusões sobre a representação divina (Deus):

“deus é um conceito criado de forma espontânea, meu senhor. e não é isso que fundamenta sua existência, pelo contrário, somente cerceia sua existência à linguagem. sua existência no campo linguístico o torna vivo para muitas pessoas. uma força motriz que modifica discursos, comportamentos, tece atos e tragicomédias. logo, deus existe. pouco me importa minha negação a deus e sua morte, pois na realidade sua existência é fato, mesmo que seja no campo linguístico.”

Em uma das passagens finais, o protagonista joga gamão com 2. no cemitério, bebendo vodca vagabunda, enquanto observam o túmulo de uma criança chamada Recém, que nasceu sem chorar. “o berreiro é inerente às condições de nascença”, ele diz, “o cretino do Recém não berrou, não chorou, nada, nadinha […] os médicos torciam o nariz pois perceberam que em poucos dias ele já estaria andando. era um ser de evolução rápida, para alguns, virulenta.” O bebê espantou a sociedade e em alguns dias foi encontrado morto no berço, asfixiado. O homem sem estômago ainda entra num táxi cujo para-brisas tem estrutura de aço capaz de limpar vestígios de um atropelamento sem que o automóvel pare de circular: “lâmina tripla.”


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  • Livro: Estômago
  • Autor: Santiago Segundo
  • Ilustrações: Pedro Mirilli
  • Editora: Kazuá
  • Preço: R$ 45,00
  • Páginas: 151

*As ilustrações desta matéria estão presentes no livro.

**Molloy, de Beckett, faz parte da trilogia do pós-guerra. Na impossibilidade de expressar uma linguagem poética após ter visto a que ponto horroroso o ser humano é capaz de chegar – uma crítica de Theodor Adorno para a literatura da época – o autor irlandês propôs uma solução: a linguagem do impossível, ou “do esmigalhamento, do desmoronamento raivoso”, como diz Moran, o segundo narrador (o 2.?) dessa clássica narrativa esmigalhada.

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