24 de novembro de 2017

As mutações de um artista pernambucano enraizado no Morro do Querosene


Conhecido como D’Ollynda Brasil, o artista trocou uma ideia com a Vaidapé sobre suas raízes nordestinas, a relação com São Paulo e sua nova exposição no Butantã


Por Patricia Iglecio
Fotos: João Miranda

Nesse incêndio somos gotas d’água no bico do beija-flor, mas esse beija-flor não pode parar de colocar cultura em lugar nenhum do mundo

No perímetro quadrado em que vive, na entrada do Morro do Querosene pela Raposo Tavares, Jorge Luíz conhece todo mundo e diz que é o porteiro do bairro. Mas se procurar por Jorge, poucos saberão que se trata de D’Ollynda Brasil. Dentro do seu ateliê – uma garagem aberta para a rua -, acende um cigarro e acena bom dia e boa noite para todos os vizinhos enquanto pinta quadros e conta sobre a relação de sua nova exposição com a região.

Intitulada Kabeças de Negros Antenados, a exposição está acontecendo na SUB Galeria, no Butantã, desde o dia 20 de novembro até o 9 de dezembro. Elaborada com 90% de material reciclado, desde tintas a garrafas de vidro e antenas parabólicas, D’Ollynda conecta em seu trabalho a afrobrasilidade, o empoderamento feminino e a cultura popular.

A Vaidapé trocou uma idéia com o artista sobre o processo que o levou até a exposição, além de sua relação com o Morro do Querosone, no Butantã. D’Ollynda vive no bairro desde os anos 2000, sendo uma das presenças vivas que caracteriza a região como um pólo cultural.

O artista, natural da cidade de Olinda (PE), estudou na Bahia no início de sua carreira, ainda adolescente, com Roberto Oswaldo Griotti, Palito Bahia e Marilton Rodrigues. Em seguida continuou seus estudos individualmente através de produção diversificada. Quando chegou em São Paulo já adulto, continuou sua trajetória profissional participando de exposições coletivas e individuais. Foi contemplado pelo prêmio ‘Bienal de Arte Naif’ do Sesc Piracicaba.

“O artista tem que se reciclar, não só o material. Muita gente acha que arte é mágica, mas não é. É um puta de um trampo. Eu já estou nesse mundo há 40 anos, quando eu comecei a pintar eu tinha 12 anos de idade. Comercialmente mesmo, eu tinha que sobreviver e comecei a viver de arte. O cidadão Jorge Luíz nasceu em Pernambuco, mas na Bahia nasceu o artista. Com toda saudade e lembrança da minha terra natal, eu resolvi assinar Jorge D’Ollynda Brasil”, diz

Quando se refere a reciclagem da arte, D’Ollynda diz que não se trata apenas do material, e sim de todas as mutações que sofre o artista e a capacidade incorporá-las em seu trabalho. “É você pegar de si tudo o que você já tem e botar para dentro do liquidificador. Reciclar todo o alimento que você comeu. Ou você pegar uma abóbora e ao invés de você só comer o que tem dentro, fazer um doce com a casca.”

Com relação a exposição Kabeças de Negros Antenados, ele conta que vem pintando antenas parabólicas há quatro anos para apresentar o seu trabalho ao público.

“As coisa vem até você quando você pega uma linha e se aprofunda, para essa exposição vieram parar várias antenas aqui em casa. Pô, me veio parar um mapa original da África. O professor de geografia que mora aqui do lado falou ‘Maluco, esse mapa a gente só encontra na internet’. Esse mapa fala de Etiópia, África antiga, onde tudo começou, as nossas raízes, a nossa vida. Onde Irene trouxe muito amor, a primeira mulher encontrada, a mais velha.”

Sua arte, aprofundada na cultura afrobrasileira, também discute história. Em suas palavras, o que “fode” é o poder do ser humano branco de dominação. Históricamente, quando vieram para o Brasil, europeus foram “convidados”, negros foram trazidos e índios já estavam aqui.

Quadro retrata a tradicional Festa do Boi, que acontece três vezes ao ano no Morro do Querosene (Foto: João Miranda)

“Os italianos quando vieram, mano, receberam para trabalhar. Vieram sem grana, daí os gringos disseram ‘ah, tá fodido, tudo bem, vai para o Brasil que lá tem oportunidade’. Quando deram a libertação para os negros, a negralha recebeu a alforria mas não foram contratados. Todo mundo que trabalhou nessa porra ganhou, a gente não. Até hoje somos perseguidos.”

D’Ollynda ficou órfão de pai e mãe ainda criança, hoje o artista vive em sua casa com seus filhos e esposa, mas lembra que para chegar onde chegou, passou por muitas histórias. Ainda na Bahia, durante a adolescência, viveu e cresceu na casa de artistas que considera seus mestres, além de ter vivido em quilombo.

Eu costumo falar que o Morro do Querosene é a minha aldeia

Busca fugir do discurso do “negro coitado” que se superou pela arte. “Acabou o coitadinho, agora eu sou um vencedor, tenho oito filhos e dois netos, então a idéia é outra. Sou um profissional dentro do que desenvolvo, e por onde eu vou eu dissemino essa arte, como base é o Naif.”

Naif é uma palavra de origem francesa, alguns conhecem seu significado como “cavalinho de pau”, outros  como “ingenuidade”, mas, para o artista, não existe ingenuidade no Naif, e sim uma certeza, uma “ideia séria” de um povo que conta a sua história através da arte. Na Bienal dos 500 anos, em 1998, ele considera que os gringos foram obrigados a reconhecer a verdadeira arte brasileira.

“Não adianta nós tentarmos fazer ismos para tentar impressionar os gringos com um tipo de arte que eles fazem há três mil anos”. D’Ollynda cita Luiz Gonzaga e Luiz dos Prazeres, e também Tião Carvalho e Dinho Nascimento, artistas do Morro do Querosene, como exemplos da arte brasileira.

“Eu costumo falar que o Morro do Querosene é a minha aldeia. Quando eu vim do nordeste para a Vila Madalena, morei por quatro anos lá, um ano na lapa e depois seis anos em Paraty. Mas todo esse tempo eu ouvia falar do Morro. Tenho um amigo meu, um camarada de muitos anos que eu conheci na Bahia,  que é o Dinho Nascimento. Ele desenvolve aqui o lance da capoeira, a orquestra de berimbau, que já tem mais ou menos 20 anos”, conta.

Em meados dos anos 2000, quando se mudou para a região, o artista desenvolveu o projeto Muros do Querosene, um trabalho de pinturas nos muros com grupos de pixação.

“O projeto tinha a ideia de transformar o bairro em uma aldeia, não era apenas uma intervenção, e sim uma integração. A gente tinha que chegar para o morador e perguntar se ele gostaria que seu muro fosse pintado, e como. Isso integrava o morador com a arte”, diz.

“O bairro era todo pixado, de canto a canto. Você não conseguia pintar a sua casa de azul porque o pixador vinha e pixava. E daí para conscientizar a galera que de repente o seu Manuel ou o seu Joaquim não querem, foi foda, mas deu certo.”

Posteriormente, o artista criou também o CineQuerosene, que trazia os moradores fazer um cinema a céu a perto na praça, com exposição, debate e pipoca. Mas contava com o apoio de editais públicos que, com os atuais governos, foram cortados.

“Vindo morar aqui, comecei a ver que o meu mestre, Dinho Nascimento, é o cara da capoeira, da Osquestra e tal. O meu compadre, padrinho da Flora, minha filha, Tião Carvalho, o cara do boi. Porra velho, e eu estou envolvido com as pinturas, daí me veio a ideia de fazer um cinema. Então eu sou o cara do audiovisual, dentro dessa aldeia o ministério do audiovisual é meu. Pintar, fazer cinema, ficam por minha parte”, relata

Sendo o Morro a sua aldeia, D’Ollynda trabalha para preservá-la. “Com o lixo que jogam fora, porque não reciclar com a minha arte?”. Um trabalho que também vem desenvolvendo são as Janelas do Morro.

“Quando começou a transformação do metrô para cá, muitas casas mudaram e foram vendidas. Com isso, casinhas antigas que tinham no bairro, com janelas grandes de madeira, o pessoal novo começou a trocar por janelas de alumínio. Eu pego para pintar. Esse processo de reciclagem já vem de longe e eu não posso reciclar qualquer coisa, algo efêmero, e sim algo de base, que também tenha história. Essa é a relação da reciclagem com o bairro e com a minha arte.”

Preocupa o artista o processo de gentrificação do bairro, com a chegada de moradores com maior poder aquisitivo e a saída de cultureiros. Ele relata que o preço do aluguel está cada vez mais caro, e que ele não pintou nenhum muro dos moradores mais recentes e receia que festas tradicionais como a do bumba meu boi, que acontece há décadas no bairro, possam acabar.

Com o lixo que jogam fora, porque não reciclar com a minha arte?”. Um trabalho que também vem desenvolvendo são as Janelas do Morro

Ao mesmo tempo, enfatiza que continuará fazendo arte, cultura e acreditando. “Se a gente não fizer aqui, vai fazer ali. O progresso, o metrô tem que vir mesmo, o que a gente tem que fazer é não parar os nossos projetos. Nesse incêndio somos gotas d’água no bico do beija-flor, mas esse beija-flor não pode parar de colocar cultura em lugar nenhum do mundo.”

O cenário de suas obras varia de acordo com as paisagens pelas quais passou: mata atlântica, praias, cachoeiras, além de prédios e a vida urbana, sempre com muitas cores e alegria, buscando representar a vida cotidiana do povo brasileiro.

Sua inspiração vai desde a capoeira e danças populares ao candomblé, os orixás, a as lavagens do Bonfim, as imagens do Pelourinho e agora máscaras e adereços africanos. “D’Ollynda é um artista ora interessado na cultura de raízes negras, ora interessado no ‘frenesi’ urbano, apresentando uma paisagem onde ele inclui cores, ritmos, luz e movimento, avalia Emanoel Araújo, diretor e curador do Museu AfroBrasil.


O que? Exposição Kabeças de Negros Antenados
Onde? SUB Galeria – Rua Padre Justino, 672 (próx ao. Metro Butantã)
Quando? 20/11 até 9/12

Confira mais imagens da exposição:

A RUA GRITA

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