22 de dezembro de 2017

Como o hospital da USP ficou à beira do abandono


Faculdade que gerencia o hospital alega falta de recursos. Coletivos e população lutam para que o equipamento sobreviva e alegam negligência na administração do Hospital Universitário


Por  João Reis
Fotos: Fátima Ferreira/ Marcos Santos/USP Imagens

O Hospital Universitário da USP é referência histórica para os moradores do Butantã. Essa afirmação pode ser comprovada em números. A partir da pesquisa feita pelo Coletivo Butantã na Luta junto ao Instituto Opinião, foi constatado que o HU, como é conhecido popularmente, é a primeira opção de atendimento para 82% dos entrevistados, todos residentes do bairro da zona oeste de São Paulo. Na mesma pesquisa, foi diagnosticado que 78% dos entrevistados não tem convênio médico.

Os indicadores mostram que o Hospital Universitário da USP é a única opção de atendimento para muitos moradores da região. Porém, o HU lida com um cenário de demissão de médicos, cortes salariais e a precarização dos serviços, promovida sistematicamente desde 2013 pelo Governo do Estado e a Reitoria da Universidade de São Paulo.

O Hospital Universitário opera de maneira diferente de outras instituições hospitalares. Baseado no conceito de Hospital-Escola, ele foi criado a partir da premissa de formar profissionais da saúde e servir às populações com menos acesso à assistência médica. Na prática, o modelo atende, ao mesmo tempo, uma demanda dos professores e estudantes de medicina da Universidade, e dos moradores da região.

Para Débora Paixão Alves, que trabalha no hospital há mais de 25 anos e viu seus cinco filhos nascerem lá dentro, essa relação é muito forte. “Foi muito bom para minha formação. Entrei aqui como ajudante de cozinha, depois passei pra auxiliar de enfermagem, técnica de enfermagem, até me formar enfermeira”, diz, exaltando a condição que o hospital lhe deu de desenvolver sua carreira profissional.

A enfermeira, é uma das moradoras que sentiu o impacto da falta de recursos e a precarização do hospital. “A carga [de trabalho] aumentou e o número de funcionários diminuiu”, argumenta. “Não temos como repor, principalmente pela falta de contratações. Existe paciente que se interna, se prepara, vai fazer a cirurgia, mas não tem médico”. Segundo Débora, pela falta de médicos e anestesistas, três a quatro cirurgias chegam a ser desmarcadas por dia.

Faixada do Hospital Universitário, dentro da USP

Além de ser a primeira opção de tratamento para mais de 500 mil pessoas, o HU serve como faculdade de formação, pesquisa e extensão para os estudantes de medicina e toda área da saúde da USP, como foi para Débora.  Em artigo para Carta Capital, Gerson Salvador, diretor do Simesp (Sindicato dos Médicos de São Paulo), cita que o HU abriga e dá oportunidade para cerca de 40% dos estágios de formação prática da medicina USP.

“Existe paciente que se interna, se prepara, vai fazer a cirurgia, mas não tem médico”

Para Alice Baer, estudante de medicina da Universidade, “o HU é fundamental para os estudantes, porque lá é o local onde temos contato com casos de ‘atenção primária e secundária’”, explicou, enfatizando que nessa área se apresentam as doenças mais comuns entre a população.

Na visão de Alice, isso prepara os estudantes para situações que são muito frequentes na prática médica. Ela ressalta também que o Hospital Universitário é um local onde os estudantes têm autonomia e independência para realizarem o atendimento. “Os alunos sempre dizem isso: é nos estágios do HU que aprendemos e, de fato, ganhamos confiança para tocar o atendimento”.

O DESMONTE

Desde 2013, o HU vem sofrendo com uma série de desmontes. A reitoria alega “falta de verba” para continuar as atividades e argumenta que, sem respaldo financeiro do Estado, o hospital não tem como fechar suas contas.

Vaidapé teve acesso ao Ofício 1839/2017, expedido pela Promotoria de Justiça de Direitos Humanos e Saúde Pública do Ministério Público do Estado no dia 11 de dezembro, que mostra informações requeridas sobre o funcionamento do HU entre 2013 e 2017. O ofício explicita que, durante o período, houve um déficit de 406 funcionários no hospital, incluindo aposentadorias não repostas e demissões voluntárias.

Isto teve influencia direta no fechamento de 25% dos leitos de internação, a falência do pronto socorro de atendimento infantil e do pronto-socorro adulto, que encerrou os atendimentos no último dia 11. De acordo com o ofício, seria necessário a contratação de apenas 304 servidores para o pleno funcionamento do hospital.

Em 2017, de acordo com o jornal da universidade, o orçamento aprovado para USP foi de aproximadamente R$ 5,5 bilhões. A maior parte deste montante (4,8 bilhões) vem de repasses do governo estadual. Para o ano que vem, a expectativa é de mudança. Após inúmeras reuniões realizadas na Assembleia Legislativa de São Paulo (ALESP), em 2017, uma comissão formada por moradores, funcionários e estudantes da USP conseguiu colocar em votação a inclusão de verba suplementar para o HU em 2018.

Santana, organizador do Coletivo Butantã na Luta

Segundo Santana, um dos coordenadores do Coletivo Butantã na Luta e um dos principais mobilizadores da campanha pelo HU, o orçamento em 2018 terá um acréscimo de R$ 43 milhões, através de recursos advindos do pré-sal, destinados à educação e à saúde. “Este recurso se soma ao do orçamento já aprovado, que destina aproximadamente 263 milhões de reais para o HU”, afirma. Ele salienta que a conquista só foi possível após a união entre o Coletivo, moradores do bairro e entidades de estudantes, professores e funcionários da universidade.

MOBILIZAÇÕES

Existem saídas. Se alguns se detém a ideia de capitalização da saúde, surgem exemplos de luta e defesa pelos interesses da população e pela vontade de uma comunidade. A partir desse objetivo, nasce o Coletivo Butantã na Luta. Uma organização que pauta novas diretrizes comunitárias diante de um cenário nebuloso e incerto.

A luta pelo HU foi a primeira prioridade. Com os cortes e congelamentos na saúde e outras áreas e a aprovação da PEC 241/55 em 2016, que ficou conhecida com PEC do teto de gastos, o Coletivo decidiu canalizar suas forças para reerguer o Hospital Universitário. As mobilizações contaram com a participação de moradores da região, usuários do hospital e mais de 12 entidades de classe ligadas à USP e ao campo da saúde, dentre elas o SINTUSP, ADUSP, SIMESP e o Centro Acadêmico Oswaldo Cruz. Unidos à sindicatos, centros e diretórios acadêmicos da USP e de outras universidades, foi organizada uma agenda de mobilizações que começa a dar resultado.

A união destas entidades, junto à greve promovida pelos alunos e professores da medicina no mês de novembro, conseguiu, segundo Santana, “quebrar a barreira da grande mídia”. “Existe uma blindagem no governo de São Paulo e nós quebramos isso. Vários veículos cobriram o ‘Abraço’ [no HU, evento que reuniu cerca de 1600 pessoas, em defesa do hospital] por exemplo.”

Para o próximo ano estão previstas mudanças na administração da reitoria, que elegerá um novo representante. Mesmo com a saída de Zago, o atual reitor, não se sabe qual será a diretriz da universidade para solucionar o problema. Por outro lado, os coletivos, estudantes e funcionários que trabalham para recuperação do HU, visam continuar na luta para garantir que o hospital, tão importante para todos, consiga prevalecer em relação às políticas de privatização, voltando a ser a referência que sempre foi para a população.

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