22 de dezembro de 2017

Ser gay aos 20 e poucos anos em São Paulo


“Eu acho que você fica apaixonado por muita gente. Você é apaixonado o tempo todo. Só que amor é diferente. Amor é mais convivência, tá ligado?”


Por: Adriano Sod*
Fotos: Thais Moreira

A descoberta dos 20 anos pode ser cheia de desafios, mas eles se tornam maiores quando se trata de garotos gays ou garotas lésbicas. Por que na maior parte das vezes ninguém conta que ser diferente não é algo ruim, nem mesmo dizem como funciona a paquera e, em casa, não se discute sobre sexo ou as sensações que se sente ao viver o primeiro amor, a primeira vez numa boate, o primeiro teste de hiv. Esses jovens de 20 anos gays e lésbicas talvez estejam sozinhos, apenas acompanhados de relações sintéticas através da internet, vivendo experiências confusas, crescendo e se descobrindo em um mundo que não lida bem com novas perspectivas.

Em 2015, eu estava pensando em escrever sobre garotos e garotas LGBT de vinte e poucos anos, frequentadores da noite em São Paulo e com opiniões interessantes sobre o cotidiano na cidade. Foi quando conheci, por intermédio de um garoto de 23 anos que eu beijei numa festa de Ano Novo numa boate qualquer, três personagens interessantes. Ele disse que poderia me apresentar os amigos dele para eu entrevistá-los.

Algumas semanas depois desse encontro, eu agendei com os três garotos uma entrevista para às 15h no Shopping Frei Caneca. Então, no dia e horário agendados, a primeira que avisto chegar é Larissa Okumura, descendente de orientais, 22 anos, ela está acompanhada por Felps Cruz, de 20 anos, e Felipe Q., 24 anos. Eu chamo o nome dela e me apresento. Ela meio surpresa sorri e nos apresentamos. Até então, nós quatro não nos conhecíamos pessoalmente. Larissa e Felps moram na capital e Felipe mora a mais ou menos 13 km do centro de São Paulo. Nós decidimos tomar cerveja no Bar da Lôca, na Rua Frei Caneca.

No bar, nós nos sentamos e pedimos o primeiro balde de garrafas, a TV está ligada, muitas conversas paralelas, ventilador ligado fazendo barulho e o ruído da rua que invade todo o interior do ambiente. Eu saco meu gravador e as minhas anotações e inicio a entrevista, tentando me organizar da melhor maneira possível.

– Vocês acham que existem personagens na noite de São Paulo? Quais personagens vocês acham que são mais frequentes por aí? Larissa?

– Realmente tem. Eu acho que tem muito, a gente tem uma ideia de gay é um grupo só, todos iguais, mas é muito diferente disso. Acho que dentro dos gays tem muita diferença de cada um. Tem os mais “coxinhas” (esnobes), os mais “metidinhos”, mais afeminados, os que são mais “de boa”, as meninas também, mais “machinho”, mais “patricinhas…” Tem aquelas meninas que são super “patricinhas” e tipo você fala: “não é lésbica”. Mas é lésbica. Então, acho que é mais alternativo, que fica aqui na Augusta, barzinhos, tatuagens… é bem dividido. A variedade é imensa.

Larissa fala sempre esboçando um sorriso entre os lábios e mostra seus dentes bem perfilados. Ela tem um cabelo liso e preto, traços delicados e quase não usa maquiagem. Aos 22 anos, estuda Relações Internacionais.

Larissa: “Eu acho que tem muito, a gente tem uma ideia de gay é um grupo só, todos iguais, mas é muito diferente disso. Acho que dentro dos gays tem muita diferença de cada um.”

Eu me dirijo ao próximo.

– Qual foi a pergunta?, pergunta Felipe e eu repito novamente, ele responde: “ah, geralmente é playboy. Eu odeio playboy.”

– Por quê? – pergunto.

– É porque eu tô tocando o “foda-se”, eu tô todo rasgado. — ele faz referência a sua roupa que tem alguns rasgões propositais para dar um ar de descolado. “E esses héteros que querem pagar de machão, mas que depois da terceira tequila, ou segunda tequila estão pegando os outros caras. Pra mim, esse é o mais caricato.”

Felipe tem uma voz grave, usa piercing, tem olhos claros e apresenta alguns sinais de calvície. A barba é bem acentuada, ele tem várias tatuagens espalhadas pelo corpo, suas roupas e tênis são uma combinação de peças como all star e regata, o que dá a ele um ar de garoto rebelde e descolado. Do tipo que não tá nem aí para “carão”.

Felipe: “Eu odeio playboy. É porque eu tô tocando o ‘foda-se’, eu tô todo rasgado.”

Ao lado de Felipe, está o outro garoto barbudo, Felps Cruz, com algumas cicatrizes de acne no rosto, pele bastante branca, um nariz que não sei dizer se é de descendência italiana ou árabe. Usa camiseta, jeans e tênis all star, um ar meio garoto de banda do colégio. Aos 20, ele estuda Relações Internacionais.

– Essas perguntas são muito difíceis pra mim. – reclama Felps e todos riem. “‘Pô’, sei lá cara. Tem muita gente na noite que não é ela mesma, sabe? Tipo, por exemplo, você se vestir melhor de um jeito que você nem gostaria de se vestir, não é você, ‘tá ligado?’ Eu acho que muita gente quer impressionar o outro na noite, sei lá tipo, ou quer pagar de mais riquinho. Por exemplo, na The Week, – uma das boates elitizadas da cidade – os caras da The Week eles gostam de pagar muito de riquinho. Eles gastam muito lá, e tipo, na moral, às vezes você nem tem todo esse dinheiro pra ficar lá. Eu acho que… ‘Mano’, a galera não é muito ela mesma. Se você fica com uma pessoa, e começa a trocar uma ideia com ela, a possibilidade de ela não ser aquilo que ela está falando é muito alta. A galera, geralmente, não é confiável. Na minha opinião. Sei lá.”

– Vocês já ouviram falar de como era a noite antes?

– Não, mas eu imagino que muito diferente. Hoje, eu acredito que seja mais liberal. – Larissa diz. Eu acho que antes era bem fechado, quem era gay, era só num lugar específico. Acho que hoje, as pessoas vão para outros lugares. Você tem héteros também, você acaba vendo gays em vários lugares. Não só na Frei, na Augusta, na Lôca, você vê em outros lugares também. Eu acho que era mais restrito. As pessoas eram mais fechadas, acaba que ninguém sabia que você era gay. Hoje em dia, todo mundo meio que sabe. Você não esconde mais, eu acho.

Larissa fala e posso perceber que a quantidade de copos de cerveja, em pouco tempo, já está fazendo efeito em sua dicção.

Felipe dá prosseguimento: — Já ouvi algumas histórias sobre, era bem restrito antigamente, mas hoje o pessoal tem que engolir isso, mesmo que eles não gostem. Por causa de lucro, ou pra pagar de bom moço, o que infelizmente é uma bosta.

– Qual que é a pergunta exatamente?

Felps, distraído com a entrevista, pede que eu repita a pergunta, eu repito e continuamos: “mano”, teve uma época, no anos 80, 70, que era “mó” liberal velho. Que era tipo, pior que agora. – Larissa ri. “Tipo que era ‘mó’ orgia. Foi quando surgiu a aids, os hippies eram muito liberais.”

Todos riem na mesa.

– Por que dos gays a aids? – pergunta Felipe. “Olha o preconceito…”, apontam Larissa e Felipe rindo.

Felps: “Tipo, por exemplo, você se vestir melhor de um jeito que você nem gostaria de se vestir, não é você, tá ligado?”

Felps continua seu depoimento: — Eu tô falando que, na época, não foi só o negócio liberal com os gays, teve um negócio com as meninas, que tipo, elas davam mais fácil. Era uma festa pra todo mundo. Época da maconha, drogas, LSD… tipo GOY, “mano” não sei, acho que é muito de época. Agora, tá bom assim. A gente tá voltando a quebrar preconceitos, eu acho que teve uma época certa que a gente tinha tudo para se libertar de tudo. Só que aí eu não sei, por algum motivo a gente voltou a ser mais conservador. Isso é errado. Porque tipo… Cada um deveria fazer o que quer. As pessoas têm que aceitar isso.

– Como é a paquera na noite? – eu pergunto.

– Olha a paquera é interessante.  – começa Larissa rindo e com o rosto avermelhado por conta do álcool. “Acho que menina é meio diferente. Eu sou péssima para chegar, eu sou muito tímida. Eu tenho muita vergonha de chegar nas meninas, por mais que eu veja que elas estão olhando, que elas têm interesse. Eu tenho muita vergonha de chegar. É uma coisa que tem que acontecer. Você tá na balada, você fica olhando, aí você já vê, a pessoa tá olhando é porque ela quer, né? Com lésbica é muito ‘foda’. Porque o gay é mais rápido. Você olha e já tá chegando. Agora, as lésbicas ficam te olhando a festa inteira, não fazem nada, sabe? Você tem que tomar… Eu meio tenho que tomar a atitude, porque elas não chegam. Você tem que ficar olhando, aí você vai, chega, conversa… Coisas básicas assim… Mas é mais na base do olhar. Viu que está olhando, aí você parte para o ataque.”

– Não sei o que te responder, porque eu tô meio bêbado e eu sou “putão”. – todos rimos alto do comentário do Felipe.

Depois de algumas garrafas de cerveja todos estamos nos sentindo um pouco embriagados, mas continuamos com bom humor a entrevista.

“A gente tá voltando a quebrar preconceitos, eu acho que teve uma época certa que a gente tinha tudo para se libertar de tudo. Só que aí eu não sei, por algum motivo a gente voltou a ser mais conservador.”

Felipe continua: “Do jeito que der, eu tô pegando. Eu tenho algumas táticas, alguém que eu acho bonito… ‘Quer um beijo?’. Eu passo a mão na mão da pessoa, pra ver se rola ou não, eu sou fácil não tem muito o que falar.”

– Pra mim, tem muito negócio de olhar. – começa Felps. “Ficar encarando, até a pessoa mostrar que está a fim. Eu tenho muita raiva, daquele cara que fica olhando, olhando, aí depois parece que você foi lá e ele tipo… ‘Não, não quero’. Por que você olhou, se você não queria? Tem muito disso, na moral. Tem uns caras que ficam olhando e você chega… Dá ‘mó’ raiva.”

– Dá pra se apaixonar na noite?

– Dá, claro. Eu acho que é assim, a balada não é o lugar propício para se apaixonar. – diz Larissa.

– Por quê? – eu pergunto.

– Porque você não conhece a pessoa. Uma pessoa que você nunca ouviu falar, uma pessoa “X”, que você não sabe história, que você não conviveu. Pode ser qualquer um ali. E você não conhece direito para se apaixonar, mas eu acho que pode acontecer. Você começa a conversar, a conviver com a pessoa, você vai conhecendo, você vai gostando dela. Eu acho assim, balada a maioria vai pegar, beijou parte pra outra. Tem exceções. Eu acho que você pode se apaixonar, mas aí você vai conversando com ela, vai mantendo contato. Depende da pessoa também, o que ela quer. Às vezes, ela vai pra balada e não quer nada com nada. E tem gente que vai querendo alguma coisa séria. Depende muito do momento.

– Eu passo o rodo. No dia seguinte eu não lembro o nome. Eu só posso responder essa pergunta com meu advogado no recinto. Brincadeira. – diz Felipe rindo.

– Cara, eu acho que não dá para se apaixonar na noite, velho. – diz Felps.

– Dá sim. – insiste Larissa.

Felps: “eu acho que cada um vê São Paulo pelo seu perfil”

– Não dá. – Felps se mantém na opinião dele. “Você conhece a pessoa, vai ficar com ela, você não conhece ela, tá ligado? Pode acontecer de você ficar com ela, sentar para conversar, pegar WhatsApp, aí é um processo lento. Uma paixão que você vai levar a sério, só porque você ficou é burrice. Sei lá. As pessoas que fazem isso são estranhas. Tem muita gente que é assim na balada. Essas pessoas são estranhas e carentes, cara. Acho que é muita carência, sei lá.”

– Beijar na noite é importante?

– Eu acho que é. Pelo menos eu acho um pouco errado da minha parte. – Larissa faz seu próprio julgamento. “Porque você sai e não necessariamente você tem que beijar alguém. Você está ali com seus amigos e está se divertindo. Ouve a música e dança.”

– Por que você acha errado? – eu pergunto para averiguar seu autojulgamento.

– Porque… Eu não sei. – ela responde rindo meio sem graça. “Quando eu tô meio que ‘eu preciso pegar alguém’, tipo é uma necessidade de você ficar com alguém. Eu acho errado, porque você não precisa ficar com alguém pra você se divertir.”

– Mas…? – sugere Felipe.

Larissa ri novamente sem graça e prossegue: “tipo assim, eu acho interessante, pelo menos eu saio e vou querer ficar com alguém, mas tipo não necessariamente você tem que ficar. É que sou eu.”

Larissa: “você sai e não necessariamente tem que beijar alguém. Você está ali com seus amigos e está se divertindo. Ouve a música e dança.”

– Não precisa rolar necessariamente, mas se rolar, que bom. Vou gostar muito. – Felipe diz.

Risadas novamente com a maneira bem humorada de Felipe ao falar o que pensa.

– Já teve vezes que eu saí pra ir pra balada e falei: “hoje eu não vou ficar com ninguém, eu tô de boa”, nunca é assim, vai acontecer. – Felps comenta. “Você pode estar de boa, mas vai acontecer. Se não aconteceu, sei lá, é porque ninguém te atraiu ou não rolou nada.”

– A conquista, a todo momento, é importante? Se exibir, se mostrar… Satisfaz?

– Eu sou uma pessoa estranha, às vezes…

Comenta Larissa rindo e com o rosto cada vez mais vermelho.

– Você é a mais normal da mesa. – diz Felipe.

– Pior que sou mesmo. – ela concorda rindo. “Eu acho muito importante, tipo porque eu gosto de conquistar. Eu gosto de ser uma pessoa que conquista. Então, eu acho legal você paquerar, você continuar conversando e não só beijar. Você pega o contato da pessoa, vai saindo, você vai conquistando aos poucos, quando eu conquisto alguém parece um orgulho pra mim, sabe? Então, eu sempre mantenho contato com a pessoa, eu acho muito importante essa conquista.”

Repasso a pergunta para Felipe.

– Sim, também é bem importante. Eu gosto bastante e eu faço muito isso na balada.

– Eu acho que é importante também. Todo mundo aqui quer se sentir desejável. – comenta Felps.

Nós somos interrompidos pelo garçom que nos avisa que há uma mesa livre lá fora na calçada. Antes de entrarmos, havíamos solicitado que nos colocasse lá fora, quando liberasse alguma mesa, assim poderíamos fumar e continuar bebendo. Dou pausa na gravação e vamos para a calçada, fumamos um pouco enquanto Larissa vai ao banheiro. A calçada do bar tá lotada de gente, a tarde está maravilhosa, com ar fresco depois da chuva rápida que deixou o ar mais úmido. Um clima gostoso para tomar uma cerveja em uma das mesas do Bar da Lôca, na Frei Caneca.

Na mesa, novamente, seguimos com a entrevista.

– Se apaixonar aos 20 anos é possível? Como uma pessoa, de vinte e poucos anos, enxerga o amor?

– Dá para se apaixonar em qualquer idade, não importa muito, mas você se apaixona diferente. Se você é mais novo, você não tem muita experiência, você acaba se entregando muito mais. Você se apaixona intenso e não pensa muito, você se apaixona e se entrega. Se você é mais velho e tem experiência, tipo você se apaixona, mas você tem o racional e você pensa: “não. Eu tenho que tomar cuidado, ver se vai dar certo mesmo.”, “Por quem eu estou me apaixonando?”. É meio diferente.

A primeira a dar continuidade nas respostas é Larissa.

– Qual a pergunta? – Felipe pede para que eu repita e continua: “eu me apaixonei antes dos 20, fui muito apaixonado. Hoje, para mim, o amor é uma mentira.”

– Eu não sabia dessa história. – Felps diz.

– O quê você falou? – Larissa pergunta.

Os amigos parecem surpresos.

– Eu me apaixonei antes dos 20, então para mim o amor é uma mentira. – ele repete de forma mais incisiva.

– Ai, credo Felipe! – exclama Larissa.

– Você é muito radical. – Felps parece concordar com o estranhamento de Larissa.

– Para mim, é. Desculpa. – diz Felipe.

– Cara, eu acho que tipo paixão é diferente de amor, eu acho que você fica apaixonado por muita gente. Você é apaixonado o tempo todo. Só que amor é diferente. Amor é mais convivência, tá ligado? Por exemplo, eu nunca amei ninguém para ter um relacionamento. Tipo como parceiro. Só que eu amo muita gente, eu amo meus amigos, meus pais, só que o que eu procuro é ter esse amor que eu tenho com alguns amigos ou com meus pais, família, com um relacionamento. Não sei se existe ou talvez seja difícil, mas seria legal se me acontecesse algum dia. Espero que aconteça.

Larissa sorri.

“Cara, eu acho que tipo paixão é diferente de amor, eu acho que você fica apaixonado por muita gente. Você é apaixonado o tempo todo. Só que amor é diferente. Amor é mais convivência, tá ligado?”

– São Paulo realmente é a cidade dos sonhos, tudo é possível aqui?

Felps: “tudo é possível em qualquer lugar, na minha opinião, mas aqui em São Paulo é mais fácil.”

– Eu adoro São Paulo, aliás eu fico bravo quando alguém fala mal de São Paulo. Eu sou muito paulistano. “Pô”, tudo é possível em qualquer lugar, na minha opinião, mas aqui em São Paulo é mais fácil. – Felps responde primeiro.

– Sempre. As pessoas são fáceis aqui, então tudo é possível.

Felipe já emenda em sua resposta e todos rimos de seu comentário malicioso.

– E você Larissa?

– Qual que era a pergunta?

Eu repito e ela continua: “acho que é. Na cidade tudo acontece. Qualquer coisa que você quiser acontece aqui.”

– Conviver com o diferente pode ser bom ou é sempre um desafio?

– É necessário cara, porque ninguém é igual. Tipo, todo mundo é diferente e é bom, porque as pessoas não podem ser iguais. Não existe isso. Todo mundo é diferente não tem essa. Conviver com o diferente é necessário, é bom e obviamente é possível. As pessoas têm que aceitar que as pessoas são diferentes. – Felps diz.

– Não é fácil. É difícil. Mas que nem ele falou é uma coisa necessária. Você aprende muito quando uma pessoa é muito diferente de você, evolui. Se a pessoa é igual, você não vai evoluir, porque você vai ficar na mesmice. – Larissa declara.

– É difícil, mas eu adoro isso. Eu sou diferente de todo o meu círculo de amizade, então para mim é sempre um aprendizado a cada saída, a cada dia. – Felipe finaliza.

“É difícil, mas eu adoro isso. Eu sou diferente de todo o meu círculo de amizade, então para mim é sempre um aprendizado a cada saída, a cada dia.”

Encerramos a entrevista, eu pago a rodada de cervejas como prometido. E quem traz a conta é o famoso garçom Zé das Medalhas, personagem famoso por colecionar medalhas, colares e pulseiras. Ele atende no bar da Lôca há anos. Seu corpo é praticamente coberto por joias. Já é noite e ainda estamos na calçada do bar rindo, bebendo e fumando também.

Mesmo com todos os medos, riscos e sem saber ao certo o que estão fazendo, eles simplesmente agem. Isso é o que garotos e garotas de 20 anos fazem, eles fecham os olhos e se entregam à descoberta.

Jovens adultos

Após essa entrevista, foram quase três anos que se passaram para a publicação deste texto. Os garotos e eu tivemos que nos encontrar novamente para uma sessão de fotos em pontos significativos para eles na cidade, lugares que contassem um pouco mais sobre esses personagens. Em 2017, a aparência dos garotos de 20 e poucos anos continua a mesma. A Avenida Paulista, em frente ao shopping Center 3, foi o ponto de encontro de encontro em um domingo quente de dezembro com 34 graus em São Paulo.

Na primeira entrevista, Larissa pediu que seu nome não fosse revelado na matéria e agora ela conta que se declarou lésbica para sua família. Segundo ela, o choque maior foi o da mãe o que causou algumas divergências com a filha, já as tias e outros parentes encararam com certa naturalidade. No início, a mãe não aceitava conversa alguma, mas aos poucos começou a fazer perguntas sobre o namoro da filha.

“O fato da minha mãe não estar aceitando aquilo, isso me incomodava profundamente. Eu me sentia mal comigo.”

Larissa conta: “As tias começam a perguntar, ninguém nunca perguntou direto pra mim. Soltavam algumas indiretas.” A declaração veio com uma foto postada no Facebook e Instagram. Na postagem feita por Larissa, aparecem ela e a namorada. “Não foi uma foto de eu beijando, nada vulgar. Muito delicada a foto, mas que no texto eu mostrava que era a minha companheira, minha namorada. E todo mundo curtiu, teve uma reação muito positiva daquela foto. Foi aquele momento que eu falei “eu tô livre, sabe? Pra todo mundo.”

Ao ser questionada sobre a dificuldade de passar pelos 20 e poucos anos sem a cumplicidade com a família nesse aspecto da vida, Larissa confirma que se sentiu incomodada. “O fato da minha mãe não estar aceitando aquilo, isso me incomodava profundamente. Eu me sentia mal comigo. Isso foi ruim pra mim, se ela simplesmente tivesse ‘Ah, não tenho interesse, mas okay.’, mas como ela sempre agia de forma negativa isso me machucava. E não me ajudou a me aceitar tanto. A família tem uma papel fundamental, os pais são os que geram, dão educação, é importante eles estarem apoiando. Sabe? Você pode ter seus amigos, isso é muito importante também ter um grupo que você confia, mas eu acho que a família faz parte disso. Você se sente muito acolhido, liberto, livre para ser o que você é.”

O local escolhido da Larissa para ser fotografada foi o Teatro Municipal. Ela diz que, no momento esse lugar – bem como o centro antigo da cidade no geral – a descreve muito. Larissa se sente mais próxima das ações de apropriação dos espaços públicos como locais de expressões culturais.

“A Augusta, a Paulista… Eu acho que reflete muito a minha personalidade.”

Já Felps escolhe a Rua Augusta como cenário dos elementos que o melhor descrevem. Felps acredita que sendo um jovem adulto aos 20 e poucos anos a pessoa já se conhece um pouco melhor, mas que mesmo assim ser um “jovem adulto” não é fácil e também não significa ser adulto de fato. Eu o questiono, após três anos, sobre se ele encontrou o amor que possa estabelecer um relacionamento amoroso igual ao que ele tem com a família e amigos. Felps responde que sobre isso a sua opinião não mudou, mas ele se sente jovem demais para isso. “Uma hora vai acontecer. E também eu acho que se não acontecer, na real, a minha felicidade não vai depender de um relacionamento. Mas eu acredito que uma hora aconteça.” Ele conta o motivo de ter escolhido a Rua Augusta, “a Augusta, a Paulista… Eu acho que reflete muito a minha personalidade.” Felps diz que a região da Bela Vista o marcou muito, aqui ele conheceu os amigos Lari e Felipe. Além disso, o local ajudou a ele ter um contato com uma diversidade de pessoas. “Pra mim, é muito a cara de São Paulo, mas eu acho que cada um vê São Paulo pelo seu perfil”, ele afirma.

O Felipe escolheu a Avenida Paulista como o lugar que o representa. Ele diz que o lugar é onde todos se encontram, tudo e todos misturados. Ele não quis se identificar nem na primeira entrevista, nem mesmo na segunda. Felipe diz que a década dos vinte tem sido solitária nesse aspecto da família a respeito da sua sexualidade. Talvez ele seja apenas jovem demais para acreditar que o amor é uma mentira.

Algo muito interessante define bem essa entrevista, uma frase que eu ouvi do Felps, esse garoto de 24 anos que acredita na possibilidade da chegada de um amor que não necessariamente vai determinar a sua felicidade, ele diz “não existe crescimento sem dor”. Passar pelos 20 anos pode doer, mas vale a pena, porque nós crescemos.

São Paulo, 18 de Dezembro de 2017

*Adriano Sod é jornalista e criador do blog Tudo Sobre Eles – “A vida de homens gays num planeta chamado São Paulo”

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