16 de abril de 2018

‘Campanhas presidenciais de 2018 devem se basear na exploração do sentimento e da radicalização’, afirma cientista político


Para o cientista político Hilton Cesário, cenário de descrédito e afastamento resulta em visão simplista da política e torna próximo pleito o mais imprevisível desde a redemocratização


Por Lucas Torres

As eleições presidenciais mais imprevisíveis desde a redemocratização.

De acordo com o cientista politico e especialista em pesquisas de opinião, Hilton Cesário, o cenário posto para o pleito do próximo mês de outubro – com a diminuição da força de lideranças nacionais capazes de conduzir as campanhas e a possibilidade do rompimento da polarização PT e PSDB presente desde 1994 – faz com que uma grande cortina de fumaça paire sobre os olhares dos analistas que, a menos de um semestre para o início oficial da campanha, se veem impossibilitados de diferenciar os candidatos reais dos ‘ensaios de candidatura’.

O Professor e cientista político Hílton Cesário fala sobre o pleito presidencial para 2018

Em meio às incertezas no apontamento de quem serão os possíveis concorrentes e favoritos à disputa, no entanto, Cesário – coordenador das pesquisas estratégicas para a campanha presidencial da candidata Marina Silva, então no PV, no ano de 2010 – afirma já conseguir vislumbrar a característica principal utilizada pelas campanhas dos candidatos: a da exploração do sentimento e da radicalização.

“O descrédito com a política provoca o afastamento do eleitor e uma falta de confiança que resulta em uma visão simplista da política. Os temas políticos perdem espaço para questões mais radicais, que simplificam a separação do mundo entre ‘nós’ e ‘eles’, a polarização tão desejada por marqueteiros e estrategistas políticos”, afirmou.

Durante a entrevista concedida à Revista Vaidapé, o especialista discutiu ainda a influência exercida pela maior fluidez das fronteiras que separam as classes sociais no agrupamento dos eleitores – bem como avaliou os possíveis efeitos do reaquecimento do ativismo político-eleitoral dos grupos de esquerda visto após a narrativa da condenação e prisão do ex-presidente Lula.


Confira abaixo a entrevista na íntegra:


 Vaidapé – As eleições presidenciais de 2018 ocorrerão em um cenário bastante singular composto – sobretudo – pela descrença da população nas instituições políticas em geral e, com o provável impedimento da candidatura do ex-presidente Lula, pela falta de lideranças de capilaridade nacional. Você acredita que esses componentes fazem com que o próximo pleito seja o mais imprevisível desde nossa redemocratização?

Hílton Cesário – O quadro eleitoral para a sucessão presidencial apresenta um grau de imprevisibilidade extra quando comparado às eleições anteriores, realizadas após a redemocratização. Já vivemos disputas com imprevisibilidade sobre a vitória de um candidato ou outro, mas, desta vez, ainda não sabemos quais serão os candidatos a presidente, como os partidos irão se agrupar e quem será efetivamente competitivo.

Pela primeira vez desde as eleições de 1994, é possível que a disputa presidencial tenha partidos diferentes do PT e do PSDB como polarizadores do discurso político. Ao mesmo tempo, aparentemente haverá uma diminuição da força de lideranças nacionais que conduzam as campanhas. Neste sentido, é possível que lideranças locais tradicionais tenham uma chance de recuperar espaço, mesmo neste momento de desgaste dos políticos.

VDP – Tal como ocorreu nos Estados Unidos, na eleição de Donald Trump, esse ambiente de incertezas e descrédito pode fazer com que o voto seja orientado por uma perspectiva mais emotiva e moral em detrimento de uma avaliação criteriosa de propostas ou uma identificação de classe?

HC – O descrédito com a política provoca o afastamento do eleitor e uma falta de confiança que resulta em uma visão simplista da política. Os temas políticos perdem espaço para questões mais radicais, que simplificam a separação do mundo entre “nós” e “eles”, a polarização tão desejada por marqueteiros e estrategistas políticos.

Quanto mais polarizadas as eleições, menor será o espaço para discussão e reflexão de ideias. Com isso, temas que produzam polêmica e dividam a sociedade têm muito mais poder de mobilizar eleitores e ativar sentimentos do que questões em que haja maior consenso.

“Quanto mais polarizadas as eleições, menor será o espaço para discussão e reflexão de ideias. Com isso, temas que produzam polêmica e dividam a sociedade têm muito mais poder de mobilizar eleitores”

VDP – Por falar em identificação de classe, você acredita que as fronteiras entre elas acabaram ficando mais fluídas ao longo dos anos – sobretudo após uma espécie de falso intercâmbio entre elas que acaba ocorrendo na internet e nas redes sociais?

HC – O problema do conceito de identificação de classe é que há cada vez menos grupos que se identificam entre si por questões sociais ou ideológicas. A dinâmica da sociedade propiciou o surgimento de diferentes formas de identificação entre os indivíduos, o que resultou em grupos menores, que podem se ver como um todo ao se identificarem com uma causa ou característica comum. Esta fragmentação também impacta nas relações entre os grupos, uma vez que estes não são excludentes, ou seja, é possível que um único individuo se veja identificado com diversos grupos, devido à variedade de características. E este relacionamento entre grupos diminui o peso de classificações mais rigorosas que buscavam identificar grandes grupos sociais em um mesmo plano de características comuns.

Portanto, as divisões de classe em sua forma tradicional perderam força nas últimas décadas, principalmente pela dinâmica da sociedade e pelo avanço tecnológico, que permitiram novas formas de associação e organização dos indivíduos.

VDP – Com a possibilidade de Lula não poder se candidatar, você acredita que os votos caracterizados por uma identificação de classe continuarão a ser do PT, tal como ocorreu com Dilma, ou dessa vez eles tendem a se descentralizar desidratando um outro possível quadro petista?

HC – Eu não acredito que o voto personalista em Lula tenha se transformado em um posicionamento político, que alguns chamam de lulismo. O eleitor é pragmático e vai votar em quem pode melhorar a vida dele.

Lula perdeu muito dessa base de eleitores que apostavam em sua volta para recuperar o bom momento que ocorreu nos anos do seu governo. Parte dos eleitores sentiram a dificuldade do PT em governar com Dilma, e isto será lembrado.

Por outro lado, toda a narrativa sobre a investigação e condenação de Lula o ajudou a recuperar a imagem que havia no PT dos anos iniciais de formação, despertando uma militância que havia tempos não se movimentava. Essa militância pode reaglutinar parte da esquerda. No entanto, ela não é suficiente para ganhar uma eleição nacional.

“Eu não acredito que o voto personalista em Lula tenha se transformado em um posicionamento político, que alguns chamam de lulismo. O eleitor é pragmático e vai votar em quem pode melhorar a vida dele.”

VDP – As candidaturas de direita, sobretudo as representadas pelos seus representantes mais radicais como Jair Bolsonaro, no âmbito do conservadorismo moral, ou Flávio Rocha, dentro do aspecto da liberdade econômica, tendem a ter seus discursos mais facilmente absorvidos por essa população carente de líderes e desprovida de uma forte identificação ideológica/partidária. Ou é possível que discursos mais moderados como os de PSDB e Rede possam ter sucesso?

HC – Em geral, discursos mais moderados não são os que mais se destacam nas campanhas eleitorais. Bons oradores conseguem inflamar seus públicos principalmente com o apelo à emoção. E não é à toa que as principais lideranças políticas no Brasil utilizam este recurso para aumentar o vínculo com seus seguidores.

O fato de a população mais carente ser mais suscetível a este tipo de apelo tem a ver com as necessidades básicas que precisam ser atendidas, como proteção e alimentação, geralmente associadas a soluções simplistas, de fácil compreensão e pouco questionamento.

“Em geral, discursos mais moderados não são os que mais se destacam nas campanhas eleitorais. Bons oradores conseguem inflamar seus públicos principalmente com o apelo à emoção.”

VDP – De que forma você acredita que os marqueteiros dos partidos estão se preparando para as próximas eleições nesse momento? Acredita em campanhas mais apelativas e voltadas para o emocional ou a tendência é – sobretudo nos grandes partidos – um começo moderado, propositivo e prestador de contas a fim de ter a mobilidade de adequar o discurso caso haja necessidade?

HC – A campanha de 2018 será um grande desafio para os marqueteiros e estrategistas políticos. A diminuição dos recursos e o senso crítico mais apurado da população dificultará a produção de peças publicitárias. Acredito que, por isso, o começo das campanhas deverá seguir uma linha mais cautelosa de trabalho, sem muitos riscos, mais emocional. Após a primeira semana de propaganda na TV e rádio, como é de costume, devem aparecer os primeiros ataques aos adversários e talvez uma mudança de posicionamento dos candidatos mais mal colocados nas pesquisas.

VDP – Por fim, para o pós-eleição, você acredita que a campanha presidencial de 2018 possa se colocar em um tom tão radical e polarizador que possa tornar difícil a formação de um governo que tenha a capacidade de governar de fato – abrandando as tensões sociais e institucionais cada vez mais latentes? Se sim, quais alternativas você enxerga para trazermos novamente um sentimento de um razoável estado de normalidade democrática?

HC – Um aumento da radicalização neste momento seria prejudicial para todos os partidos. Uma das possibilidades para evitar esta situação são os acordos de bastidores, que não chegam ao eleitor, mas tem muito poder internamente nos partidos.

Com a saída de Lula da lista de candidatos, é bem possível que os partidos busquem um acordo para evitar maiores rupturas. A campanha pode servir para isto, ao apresentar aos eleitores as diferentes matizes partidárias e como é possível agrupá-las em alguma lógica ideológica ou pragmática. Se isto ocorrer, existe uma chance de haver diminuição da tensão e, até, uma reorganização da distribuição de forças políticas.

“Com a saída de Lula da lista de candidatos, é bem possível que os partidos busquem um acordo para evitar maiores rupturas.”

A RUA GRITA

Volta Negra: a história do negro no Centro de São Paulo

Novo ciclo de caminhadas da Volta Negra começa neste sábado e tem atividades programadas para os próximos dois meses

A RUA GRITA

Últimos 3 dias para ajudar: Cora Primavera vai às ruas!

Criado pela Cia. Nada Pensativo, peça Cora Primavera aborda questões como transfobia e violência contra … Continuar lendo Últimos 3 dias para ajudar: Cora Primavera vai às ruas!

A RUA GRITA

Volta Negra: um caminho da História de São Paulo

A caminhada acontecerá por pontos da cidade como a Praça da Liberdade, a estação Anhangabaú de Metrô e a Praça Antônio Prado. Até o século XIX, esses locais sediavam, respectivamente, a Forca, o Mercado de Escravos e a Igreja da Nossa Senhora do Rosário dos Homens Pretos.

A RUA GRITA

Entrevistamos a rapaziada que pixou o tradicional Beco do Batman

Os coletivos PIXOAÇÃO e ARDEPIXO pixaram o internacionalmente conhecido Beco Batman que abriga obras dos … Continuar lendo Entrevistamos a rapaziada que pixou o tradicional Beco do Batman

A RUA GRITA

MINI-DOC | “Sem Saldo”

Sem Saldo é mais do que um documentário feito por estudantes secundaristas de escolas públicas … Continuar lendo MINI-DOC | “Sem Saldo”