10 de abril de 2018

O empoderamento da ignorância: a ascensão dos Bolsonaros da esquina


Por Paulo Motoryn
Fotos: André Zuccolo


O maior embate do Brasil de hoje não é entre um governo golpista e um ex-presidente preso injustamente. O verdadeiro enfrentamento não está no STF, tampouco na porta da sede da Polícia Federal em Curitiba. Está na nossa rotina. Esse é o problema.

A crise política tem um efeito colateral tão grave quanto o cenário eleitoral: o empoderamento dos ignorantes do nosso dia a dia. É algo que a gente sente não só no Facebook, mas na padaria, na fila do banco, no ônibus, no restaurante, na rua.

Não quero falar sobre palanque construído para o Bolsonaro pelo jornalismo brasileiro, que deu luz aos Bolsominions, um tipo social já conhecido: crianças e adolescentes seduzidas pelo discurso fácil do “mito” e destilando ódio pela internet.

O que eu queria dizer é que a superexposição de Bolsonaro fez algo muito pior: deu confiança para os Bolsonaros da esquina.

Em 1968, quando a ditadura impunha ao país o Ato Institucional Nº 5, uma frase ficou conhecida. Dizia que o problema não era apenas o decreto, mas o precedente que era aberto para o “guarda da esquina” operar o autoritarismo e a violência.

Hoje vivemos tempos em que a violência não mora mais apenas no discurso. O reino da imbecilidade das redes sociais se materializa no concreto, na vida real.

Eu sei que isso não é novidade. O ódio de classe, o racismo e a homofobia sempre existiram. Mais do que isso, estruturam a sociedade brasileira. Nunca se teve vergonha disso. Só que a escalada de autoritarismo e o retrocesso político excitaram os classistas, os racistas e homofóbicos em busca de recuperar o prestígio perdido.

São adultos, homens, mulheres, jovens, idosos, que vivem a agressividade de Bolsonaro todos os dias, cada vez menos constrangidos. O fascismo está baixando a janela de seu carro blindado. O atraso está descortinando seu preconceito.

O escritor italiano Umberto Eco disse que as redes sociais deram voz a uma legião de idiotas que só falavam depois de umas taças de vinho. O problema é que agora eles não estão mais precisando beber. Sóbrios, antes mesmo do jantar, já vociferam.

Dar visibilidade para um discurso de exceção fez com que os demônios saíssem das trevas. O Brasil da ascensão de um governo ilegítimo e o Brasil ameaçado por um militar desequilibrado são o mesmo Brasil que coloca em risco o convívio democrático.

Uma frase como a do General Villas-Bôas, às vésperas do julgamento do habeas corpus do Lula no STF, é mais do que uma faca no pescoço do Judiciário. É instrutiva, é pedagógica. É a carta branca para a violência do cotidiano.

É o referencial que faz alguém agredir uma pessoa por “parecer petista”. É o que faz um petista querer agredir jornalista “que deve estar manipulando”. É a violência como alternativa para o país.

Os filhotes da ditadura e a sequência desastrosa de episódios da política estão nos afundando no reino da intolerância. Não podemos permitir que o Brasil seja o país do ódio. Nem abaixar a cabeça. É hora de fazer o bom enfrentamento, o das ideias, com respeito e firmeza.

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