11 de maio de 2018

Neguinha


Por: Wesley Barbosa*
Ilustração: Brenda Passos


Encontrei Neguinha em uma viela perto do bairro em que eu morava, anos atrás, acuada, com os olhinhos brilhantes, olhando para a lua, parecendo não se importar com a sua condição de moradora de rua, nem com a magreza extrema e o aspecto sofrido. No entanto, ainda era muito bonita e logo fui me simpatizando com ela.

Perguntei como se chamava, mas ela permaneceu calada, se fez indiferente, cheirando a comida que talvez tivesse conseguido em algum restaurante próximo à vizinhança, mordeu um pedaço de carne, sem se preocupar com a minha presença. Eu a olhava cada vez mais interessado. No fim das contas, constatei que havia sido amor à primeira vista e estava decidido que a levaria para casa comigo, lhe daria comida, banho e, se ela não se importasse, quem sabe um nome? Sugeri tantos, mas em vão, ela simplesmente me olhou com desconfiança.

A verdade, pensava eu, é que os dias pelas ruas, indo aqui e ali sem tomar banho, sem cuidado de quem quer que fosse e a falta de alimentação certa, deviam tê-la deixado daquele jeito, sempre com um pé atrás. Deu  que eu a chamaria de Neguinha mesmo!

Chegando perto de casa, os cães da rua latiram para nós, mas ela não se mostrou medrosa, pois sabia que estava sob a minha proteção e, quem quer que fosse, cachorro, gente, polícia, ladrão, ou qualquer outro tipo de ameaça, eu a protegeria com a minha própria vida.

Abri o portão de casa, puxando-a para dentro. Ela resistiu um momento, mas enfim cedeu e foi entrando sem nada dizer. Então fui à cozinha e preparei um prato com arroz, feijão e carne. Depois que ela comeu, fiz que ficasse na garagem, pois ali tinha um bom espaço onde ela poderia se acomodar, pelo menos por enquanto, com um cobertor e uma cama que eu improvisara.

No dia seguinte, pela manhã, logo que acordei, encontrei Neguinha vendo, pela fresta do portão, o movimento lá fora. Será que estaria com saudade da sua condição de moradora de rua?

Afinal o pessoal lá de casa havia despertado e a primeira a perguntar “quem é essa?” havia sido a minha mãe. Eu disse:

– É a Neguinha.
– Ela mora onde?
– Ela não tem casa.
– Não tem?

Respondi que não, embora eu pudesse ter dito que tinha sido amor à primeira vista, que ela ficaria morando com a gente até conseguir uma nova casa.

– Mas como? – disse minha mãe – se nem falar a pobrezinha fala e desse jeito toda abatida…

Naquele mesmo momento, fiz sinal para que Neguinha me acompanhasse, pois eu não queria vê-la ouvindo toda aquela besteira.

Fomos até o campo de terra, na rua de cima, na quadra da escola  e nas demais localidades do bairro. Infelizmente eu teria que deixá-la em alguma viela próxima, talvez aquela onde eu a encontrara na noite passada.

Andava imaginando quantas pessoas como eu não deviam tê-la deixado à mercê nas noites frias, com fome, enfrentando a chuva e a solidão das madrugadas…

Neguinha parecia saber o que estava por vir, mas não me pareceu nada triste e, no momento da despedida, pensei em abraçá-la e dar-lhe um beijo. Neguinha, por sua vez, mostrou-se pouco habituada àquele tipo de coisa e, não largando do meu pé, era como se ela quisesse dizer: “Obrigado por tudo”.

Fiz uma espécie de cafuné em sua cabeça e sorri para ela dizendo: “Podemos nos ver de vez em quando.”

Ela fez sinal positivo, retirando-se com seu ar desconfiado.

Algumas  tardes, durante muito tempo, Neguinha aproximava-se do portão de casa, para colocarmos o papo em dia, apesar de nunca falar nada, eu podia entender a sua misteriosa linguagem, até o momento que passaram uma, duas, três, quatro semanas em que ela ficou sem aparecer. Pensei que o pior tivesse acontecido e, com a imaginação de menino, fazia-me as mais absurdas perguntas: Teria morrido? Sido envenenada?

Embora não estivesse com a consciência pesada, fiz de tudo para poder encontrá-la: procurei pelas ruas, vielas e becos, cheguei a fazer um retrato falado e sai grudando nos postes, bati de porta em porta, perguntando se esse ou aquele morador sabia de algo, mas tudo em vão. Os dias se passaram até que parei de procurá-la, a ocupar a cabeça com outras coisas, que não fossem a Neguinha, brincando comigo, eu correndo atrás dela no campo de terra, pelas vielas, pelos becos e os demais locais do bairro, ela puxando-me pelo pé, ou lambendo meu sapato, como fazia em sinal de carinho, ou eu acariciando seu focinho, jogando o osso que ela pegava e logo escondia em algum buraco de terra, lá no campão.

Talvez Neguinha tivesse sido resgatada pela carrocinha, pensei eu, e sido levada para algum canil de cachorros abandonados.

Acabei me conformando com aquela última hipótese, porém, ainda hoje, tantos anos passados, como sinto falta da minha cadelinha!


*Wesley Barbosa, nascido em Itapecerica da Serra, divisa com São Paulo, é um poeta e escritor que faz parte da chamada Literatura Marginal, movimento literário que se potencializou nos anos 2000 com a publicação de Capão Pecado, do escritor Ferréz. Barbosa concluiu o ensino médio, trabalhou em biblioteca de escola e como repositor de supermercado. Estreou com a coletânea de contos O diabo na mesa dos fundos, publicado pela editora Selo Povo, do próprio Ferréz. Para Wesley: “A literatura das periferias tem que ganhar as ruas e veículos. Fazemos parte dessa história, nós jovens é que podemos mudar as regras ditadas e contar nossa própria história”, afirma o escritor


 

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