08 de junho de 2018

Menos amor, por favor


Por: Tomás Spirandelli Duarte, do blog La Sinistra*
Ilustração: Pedro Mirilli
Fotos: André Zuccolo e Felipe Campos Mello


Aqui é um vai e vem que só a peste. Faz uns dez anos que eu trabalho aqui, mesma rotina de sempre, mas tá ótimo pra mim. Eu ganho um salarinho que dá pra manter bem minha casa e junto com o salário da patroa a gente vive como pode. É humilde, mas é honesto, digno e até um pouco confortável. É longe, mas eu nem ligo. Sabe como é, né? Vida de brasileiro, não é muito diferente da maioria.

Eu fico de inspetor aqui nessa faculdade. Às vezes é complicado, porque a gente tem que seguir umas regras, daí precisa ser duro com os alunos, que são meio folgados. E a realidade é diferente, porque aqui é faculdade cara, a maioria é filho de gente com dinheiro, gente chique. Tem alguns que são mais pobres, mas aí é o pessoal que tem bolsa de estudos, ProUni, essas coisas.

Mas no geral, é bem tranquilo cuidar daqui, é um trabalho sem muito estresse. Vira e mexe eles me chamam pra ficar na recepção de uns eventos, porque aqui fazem muita palestra, muito debate. O pessoal parece que tem umas ideias boas em favor do povo, os alunos e professores. Às vezes tem até greve aqui! Falam que é pra melhoria da faculdade. Mas eu não entendo muito disso, nem me meto, mas acho estranho, porque os alunos gastam muito dinheiro e o diploma tem nome! E os professores também ganham bem aqui. Quer mais que isso?

Outro dia teve um debate que me chamaram pra ficar na frente do auditório e era pra eu dar a ficha pra quem entrasse assinar e também ficar de olho se não tinha nenhum espertinho fumando no corredor ou dentro do auditório. Sabe como é, esses alunos são bem dos danados! O nome desse debate eu não lembro, porque era muito comprido, mas eu sei que o tema era pra falar de golpe, um negócio de rumos da esquerda, um troço assim.

Eu nunca soube direito o que é que é isso de esquerda e direita que falam na política. Diz que o Lula é esquerda e o Bolsonaro é direita, né? Eu sei lá, só sei que votei no Lula e votaria de novo, porque o cabra foi bom pra gente que é pobre. Mas agora prenderam ele por causa desse tripec, um apartamento que dizem que é roubado. Agora nem sei mais em quem vou votar! Mas acho que vou acabar votando nesse tal de Bolsonaro. Ele vai prender mais os bandidos, né? Eu acho é bom, porque só nesse ano roubaram meu celular três vezes.

Eu fiquei ouvindo o que falavam nesse evento, pra ver se entendia alguma coisa. Eles usavam umas palavras muito complicadas, porque parecia que só tinha gente estudada ali, sabe? E estavam falando que o Lula sofreu um golpe, que a Dilma sofreu um golpe. Daí falaram que estão implantando a ditadura militar de novo no Brasil e que isso é um golpe na democracia.

Sendo bem sincero, aqui nessa faculdade o pessoal fala muito da ditadura, principalmente os professores, que sofreram essa ditadura na pele. Deve ter sido muito ruim mesmo, pelo jeito que falam. Na minha época a gente nem via muita diferença nessa ditadura porque as escolas lá no meu bairro sempre foram muito ruins, antes, durante e depois da ditadura. E a polícia sempre enquadrou todo mundo lá, sempre entrava nas casas. Antes de ter ditadura já era assim, eu lembro na minha infância.

Eu nasci em 1954, lembro bem dessas épocas. Meu pai me falava também da época dele, no interior do estado, que pra quem morava na periferia sempre foi ruim, com e sem ditadura. E parece que essa ditadura foi bem ruim mesmo, mas parece que foi pior pra essa gente mais de classe alta, classe média.

Outro dia respondi um censo, deu que eu sou da classe C, classe média. Mas esse pessoal que estuda aqui também diz que é classe média. Eu fico confuso com isso, porque lá no bairro sempre foi tudo muito precário, até hoje é diferente. Aqui a vida é diferente, as gírias, as roupas, as ideias. Como que eu pertenço à mesma classe que eles?

Mas voltando pro debate do auditório, teve uma hora que uma professora bem elegante falou um negócio bem comprido. Eu prestei atenção:

– Um dos grandes dilemas da esquerda, atualmente, é encontrar mecanismos de enfrentamento para combater com inteligência e estratégia todo este jogo sujo elaborado minuciosamente pelas elites, e legitimado pela classe média, manipulada pela mídia golpista e dominante. Nós devemos estar, mais do que nunca, unidos. E coloco em debate a seguinte questão: devemos sair com apenas um candidato de esquerda ou ainda é válida, dentro da democracia pela qual lutamos, a candidatura múltipla? Tendo em vista que somos um campo político com um mesmo propósito, o da igualdade social, mas com diferentes formas de enxergar os caminhos para se chegar a este destino.

Discurso difícil, né? Mas o que eu achei estranho foi ela falar de classe média e de elite como se ela não fizesse parte. Eu já vi essa moça, ela me deu carona algumas vezes até o Largo da Batata pra eu pegar minha condução. Ela mora no Alto de Pinheiros, tem um carrão bem bonito. Ela é bem inteligente, mas conversa às vezes meio estranho. Porque ela fala mal da elite e da classe média, mas o jeitão dela é igualzinho de elite. Ela fica ouvindo música clássica no carro, conversa em francês, inglês, é bem estudada e tudo mais.

Depois disso, eu escutei ali de canto que um aluno ia falar a opinião dele. Eu grudei a orelha na palestra:

– Nós, representantes da esquerda e a favor dos interesses do povo, devemos estar mais unidos do que nunca! Todos os movimentos sociais aqui presentes representam alguma classe: trabalhadores, estudantes, sem teto, vítimas de violência policial, minorias, entre outros. É um dever nosso olhar para frente e combater o fascismo institucional!

Esse moço que falou é um que vem aqui na faculdade desde manhã e fica até de noite. Ele participa de muito evento, é bem conhecido na faculdade, o pessoal considera ele uma liderança importante. Mas eu não entendo: como ele tem tempo de ficar aqui o dia inteiro? É todo dia assim!

Eu acho bonito essa solidariedade que eles têm com o povo. Mas é complicado, sabe? Eles ficam falando que representam a população, mas lá no meu bairro mesmo ninguém liga pra política. Eu mesmo só sei um pouquinho porque trabalho aqui, mas fora isso, não sou sabido desses assuntos não. Olha, aqui pra nós, eu penso que eles se acham muito!

Colocaram ciclofaixa na minha rua, foi legal. Mas lá o povo sempre andou de bicicleta, não fez muita diferença, não.

São contra o desarmamento, eu também sou. Mas na minha rua todo mundo tem um canela seca pra se defender, sempre foi assim.

Colocaram faixa de ônibus, foi bom. Mas, assim, antes eu demorava 2h pra chegar no centro, agora eu demoro 1h20. Ainda é muito tempo, então o povo acha ruim do mesmo jeito.

Agora tão falando de golpe, de Lula, de Bolsonaro, de fascismo, de ditadura. Eu não sei muito disso, como já falei, mas a gente que é pobre sempre teve dificuldade com tudo. Então não faz muita diferença. Ou tá ruim, ou tá péssimo. Mas bom? Nunca foi.

Depois que acabou o evento, muitos pegaram seus carros e foram pra casa, outros ficaram no bar em frente à faculdade conversando. Eu? Ah, eu fui pro ponto pegar meu ônibus e ir embora. Cheguei depois da meia-noite e vi o mesmo cenário de sempre: vários botecos, igrejas, viatura pra lá e pra cá, molecada na rua, povo da biqueira no lugar de sempre. Eu parei no Bar do Nei e tomei duas antes de subir pra casa. Aproveitei pra tomar um enquadro no caminho, pra variar…

Eu ouvi que tem uns outros candidatos aí pra gente votar no lugar do Lula. Mas é tanto candidato que eu me perco. Na faculdade disseram que são ótimos representantes da esquerda.

Olha, da esquerda eu até acredito. Mas eu quero saber: quem aí é representante do povo?

*Tomás Spirandelli Duarte é jornalista e autor do blog La Sinistra, na plataforma Medium.

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