02 de junho de 2018

Samba da Treze fecha a rua no Bixiga


Município autoriza interdição de tráfego durante apresentações do grupo Madeira de Lei, às sextas-feiras, na Rua Treze de Maio


Por: Bruno Cirillo

Sexta-feira à noite, em São Paulo, o Samba do Bixiga é infalível. Há dez anos, o grupo Madeira de Lei forma a roda na Rua Treze de Maio, em frente à Paróquia da Santa Achiropita, atraindo um público diverso – gente da esquina e dos quatro cantos da cidade – que atravanca a constante passagem de automóveis na via de mão única, em direção à Avenida Paulista. O fluxo de carros espreme o samba na calçada, e vice-versa, desde que o samba começou a ganhar corpo.

Mas ontem, algo mudou. Apesar de uma denúncia anônima para impedi-los de tocar e munidos com uma autorização especial da CET, os sambistas da velha guarda da Vai Vai conseguiram promover o fechamento da rua para uso exclusivo dos pedestres durante as apresentações – condição que deve valer, oficialmente, para as próximas sextas-feiras até o fim do ano.

Às 19h, PM e fiscais da Prefeitura estavam no local. Os agentes municipais, numa Kombi, averiguavam uma denúncia contra a realização do samba, que teve seu grupo formado em 1974. O sargento da polícia, com equipe e base móvel, dizia estar ali para garantir a interdição da via e a segurança do evento, rebatendo os rumores de atentado contra a tradicional desordem pública, cujo enredo atual de apresentações semanais começou em 2008 e foi crescendo, crescendo até formar um considerável cordão.

A produtora do evento, Carla Borges, estava indignada com a presença do aparato de segurança. Era o seu aniversário, e o fechamento da rua seria um bom presente. “Temos autorização para fechar a rua, e pagamos por isso”, dizia ela, mostrando o registro de interdição da CET. Por coincidência, seu marido e líder da banda, Namur Scaldaferri, completaria 60 anos na mesma noite. Os dois responsáveis pelo Samba do Bixiga se juntaram no mesmo ano em que começaram as apresentações na Rua Treze de Maio, com a experiência acumulada pelo Madeira de Lei ao longo das três décadas anteriores. “O samba sempre provoca contestações”, disse Namur. “O que fazemos aqui no Bixiga, considerado o berço do samba paulistano, é resistência cultural.”

Namur Scaldaferro, líder do Madeira de Lei (Foto: Gabriel Campos, ECA/USP)

Para Scaldaferri, a interdição da rua é uma questão de segurança. “Não traz nenhum transtorno, fechar esse trecho. As pessoas têm acesso ao comércio e às cantinas [localizados mais adiante] pela rua paralela, a Rui Barbosa”, ele defende. “O espaço é muito restrito para as pessoas, então isso deve evitar problemas e dar mais comodidade a elas”, acrescenta.

Por volta das 21h, com quase uma hora de atraso e o apoio da PM, uma viatura da CET chegou à esquina da Treze de Maio com a Rua Conselheiro Carrão, posicionando os cavaletes para impedir a entrada de veículos.

Os fiscais da Prefeitura já tinham ido embora do local. A arquiteta Jéssica Golinelli, 23, foi a primeira pessoa a se deparar com o desvio. “Bem quando eu cheguei, fecharam a rua e pediram para eu desviar. Não entendi muito bem no começo, mas achei uma vaga na rua do lado”, comentou.

Experiente no cavaco e na voz, o músico Reinaldo Moura só estava preocupado em garantir a montagem do palco na calçada. “É a minha função”, disse ele. Com passagem por grupos célebres, como Originais do Samba, Demônios da Garoa e Grupo Sampa, ele foi um dos fundadores do Madeira de Lei nos anos 1970, mas depois se mudou para o Japão e só voltou a fazer parte do grupo nesta década. “Hoje, somos cinco integrantes oficiais. Mas têm muitos participantes agregados, chegando a quinze pessoas em alguns dias. Usamos nossa experiência para orientar o samba. Se deixar a esmo, vira bagunça”, contou.

“Usamos nossa experiência para orientar o samba. Se deixar a esmo, vira bagunça”

-Reinaldo Moura, cantor e cavaquista

“Fora Diretoria”

Na última sexta (1), os sambistas e moradores do Bixiga aproveitaram para pedir a troca da diretoria da Escola de Samba Vai-Vai, que ribomba no bairro desde 1930, pendurando uma longa faixa de protesto diante dos bares onde acontece o samba às sextas-feiras. Segundo fontes consultadas pela reportagem, a atual gestão tem cobrado demais pelos ensaios e muita gente não pode pagar, entre outras questões de bastidores.

A faixa se estendia na fachada do bar Amigos de Verdade, que paga cachê de R$ 1 por cerveja vendida para os artistas da Madeira de Lei, formado por integrantes da velha guarda da Vai-Vai. A outra forma de eles ganharem dinheiro com a música é passando o chapéu. A interdição da CET, autorizada no dia 16 de maio, custou-lhes R$ 1.300.

Figura conhecida da Bela Vista, o Sol da Vai Vai aproveitou o clima agitado da primeira noite de junho, na calçada do Bixiga (também conhecido como Bela Vista), para fazer uma defesa do papel social do samba: “A cultura vence qualquer política. Queremos que o povo viva feliz. Paz e samba, essa é a tradição da Bela Vista, essa é a nossa tradição.”

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