11 de julho de 2018

Atuação do prefeito regional da Cidade Tiradentes divide moradores e fecha bailes funk


Ataque aos bailes funk e atendimento de reclamações via Whatsapp tem marcado a gestão do prefeito regional


Por Giacomo Vicenzo
Foto em destaque: Jeferson Delgado


“Ou fiquei sabendo dessa fita aê! Mataram o Oziel! É poucas, desce na favela!”, este é o conteúdo do áudio espalhado de forma viral pelo Whatsapp no final de tarde do dia 25 de maio deste ano, uma sexta-feira, poucas horas antes da “Operação Sono Tranquilo” começar. Oziel Souza é o prefeito regional da Cidade Tiradentes, bairro com mais de 200 mil habitantes, e a ação denominada Sono Tranquilo, que é amplamente divulgada por ele nas redes sociais, tem como principal objetivo inibir os fluxos de rua do bairro e fiscalizar bares abertos após à 1h.

A mensagem de seu assassinato, no entanto, era falsa e foi desmentida pelo próprio Oziel poucas horas depois em sua página no Facebook. Ele afirma que sua família acabou recebendo o áudio e se assustou.

Em outra cena: Polícias Militares e Guarda Civil Metropolitana se preparam para entrar no fluxo. Sirenes ligadas, escudos táticos e granadas de gás lacrimogênio fazem parte dos equipamentos da tropa. “Nossa intenção não é o confronto, sempre fazemos muito barulho para que os frequentadores ouçam nossa chegada e se dispersem antes da ação da PM”, afirma o prefeito regional sobre a operação.

Apesar do “conflito” não ser a intenção, por vezes ele acontece. Uma cicatriz na mão de Oziel é lembrança de um corte feito por uma garrafa arremessada em uma das operações, às quais ele comparece pessoalmente. Confrontos físicos também já aconteceram por conta de desentendimentos entre agentes e frequentadores.Fiquei meio com medo, nunca tinha visto aqui a não ser na TV, a polícia chegou acabando com a aglomeração, usando gás e batendo em alguns”, comenta Victor Soares (16) sobre uma das ações da operação na Rua dos Têxteis.

Polícia e GCM se preparam para iniciar Operação Sono Tranquilo na Cidade Tiradentes – ZL-SP.

ZAP ZAP DENÚNCIA


Oziel Evangelista de Souza (37) é morador da Cidade Tiradentes há 34 anos e dirigiu a Casa de Cultura do bairro em 2005. Formado em sociologia, nas redes sociais é comum acompanhar sua participação digital postando trabalhos ligados à zeladoria do bairro e sua operação de repressão aos fluxos de funk. Aparenta ser um homem calmo, e entre suas falas repete mais de uma vez as palavras ordem e segurança. Este parece ser o seu desejo e aposta para o bairro, onde os moradores convivem com a expectativa de vida mais baixa de São Paulo, uma média de 53,85* anos, cerca de 25 anos a menos quando comparado com quem mora no bairro de Alto de Pinheiros, que conta com a maior expectativa de vida da cidade.

Desde que assumiu o cargo em 2017 após a eleição de João Doria, o político tem usando as redes sociais para expandir seu contato com a população do bairro e divulgar as ações realizadas pela Prefeitura Regional. A tática remete a atuação de Doria na internet, que abandonou o mandato na Prefeitura em abril para concorrer ao cargo de governador, e se diferencia pela criação de um canal de contato direto com os moradores do bairro e pela promessa de atendimento de solicitações por ele.

Em algumas ocasiões, Oziel chegou a receber ameaças por meio dos canais de comunicação virtual. No seu “Whatsapp Denúncia” são registradas solicitações que vão desde perturbação do sono até reclamações sobre a saúde pública da região, ainda que o tema não pertença à alçada da Prefeitura Regional.

De acordo com a assessoria do subprefeito, o número do “Whatsapp Denúncia” recebe cerca de 280 solicitações por dia. Em seu perfil pessoal no aplicativo, também cedido aos moradores do bairro, Oziel recebe em torno de 1000 solicitações diárias.

“Nós temos os mais variados pedidos: em termos de zeladoria, [alcançamos] uma média de 8 a 12 denúncias resolvidas diariamente através das mídias sociais. Podemos dizer que 60% das denúncias são questões de som alto de bar, barulho de música na casa do vizinho, carro de som na porta de casa, tráfico, drogas e fluxos de rua”, afirma Avelino Silvestre, assessor de comunicação da Prefeitura Regional da Cidade Tiradentes.

As demandas destinadas ao atendimento das Prefeituras Regionais são: a conservação de espaços públicos, manutenção de praças e vias, limpezas de córregos e incentivo às atividades culturais.

Segundo as estatísticas oficiais, o número de solicitações recebidas nos últimos 15 meses através do portal de atendimento 156 pela Prefeitura Regional Cidade Tiradentes foi de 2.920. Dessas, 2.200 foram atendidas, segundo os dados disponibilizados pela Prefeitura.


MANUTENÇÃO DO BAIRRO E FISCAL VOLUNTÁRIO


Quando o assunto é a manutenção do bairro e ações da zeladoria, o prefeito regional informa que para justificar os gastos no bairro é preciso protocolar todas as solicitações pelo atendimento do 156. Dependendo do serviço, ele garante que a partir do momento que a solicitação é registrada há um prazo de solução de até 48h. “Algumas solicitações como risco de desabamento (com auxílio de defesa civil) e denúncia sobre perturbação do sossego atendemos na hora, sem a necessidade de protocolar, mas pedidos como tapa buracos, pavimentação e outros que exigem verba para execução, é necessário um protocolo junto ao canal 156”, explica ele.

Vanessa Opazo (49), moradora do bairro, reclamou da qualidade do recapeamento na Rua dos Têxteis e, após 3 dias, a equipe da Prefeitura voltou para terminar o serviço. “O atendimento foi rápido, acredito que esse canal ajuda, mas temos que saber que são muitas coisas para resolver no nosso bairro e a população deve participar”.

“Acredito que esse canal ajuda, mas temos que saber que são muitas coisas para resolver no nosso bairro e a população deve participar”

Vanessa Opazo, moradora do bairro.

A Prefeitura Regional chegou a anunciar um novo programa, batizado de “Fiscal Voluntário”, porém a ação já foi cancelada**. A ideia consistia em oferecer uma camiseta personalizada do bairro para o morador que seguir a página da Prefeitura de São Paulo e a página de Oziel Souza no Facebook e que tenha tido 4 denúncias resolvidas.

As denúncias devem ser sobre a própria qualidade dos serviços prestados pela Prefeitura Regional, como corte de grama, recapeamento ou apresentar alguma necessidade de manutenção no bairro. Apesar da forte estratégia para ganhar seguidores nas redes sociais, Oziel garante que não pretende se candidatar a nenhum mandato político, mas sim seguir carreira como secretário público.

Porém, nem todos tem as demandas atendidas com prontidão. “Reclamei sobre a falta de iluminação de uma região e estou há mais de 1 ano esperando o retorno”, comenta Jackson Vasconcelos. Ao tentar protocolar a solicitação no atendimento do 156, o munícipe encontrou uma barreira ainda mais grave. Esperou mais de uma hora na linha e foi repassado para diversos atendentes. Nenhum deles soube informar com prontidão como resolver o problema até que a ligação caiu. Na praça de atendimento da própria Prefeitura Regional, o cenário foi parecido e a promessa foi um retorno telefônico, que ele espera há mais de 1 mês.

“Reclamei sobre a falta de iluminação de uma região e estou há mais de 1 ano esperando o retorno”

Jackson Vasconcelos, morador do bairro.

Questionado sobre o caso, Oziel Souza afirma que a responsabilidade agora é da empresa Ilume, que tem licitação vencida e não pode realizar novas instalações na região, apenas manutenções. Também indagada, a assessoria de comunicação responsável pela pasta de Inovação e Tecnologia da Prefeitura informou que é um evento incomum e que, mesmo que eles não pudessem atender as solicitações, as dúvidas deveriam ser sanadas pelo 156.


SONO TRANQUILO


A operação “Sono Tranquilo” é um projeto-piloto nascido na Cidade Tiradentes a partir de uma solicitação do Ministério Público Estadual que tem como principal foco o controle dos fluxos de rua e o fechamento de bares e tabacarias após à 1h

As ações acontecem durante todo o final de semana e contam com o efetivo da Guarda Civil Metropolitana e o apoio da PM para dispersar os bailes funk. Em muitas ocasiões, Oziel também se faz presente e filma as operações, que são publicadas em sua página no Facebook, exaltando a ação da Prefeitura Regional e caracterizando os frequentadores como “baderneiros”.

No vídeo abaixo, de maio deste ano, o prefeito regional filmou o início de uma das Operações Sono Tranquilo:

O prefeito regional costuma filmar as operações, e publicar em sua página no Facebook, caracterizando os frequentadores como “baderneiros”.

A ideia, segundo o prefeito regional, é expandir as ações para toda a cidade, proposta que ainda passa por análise, de acordo com Oziel, mas que já está em prática em outros bairros da Zona Leste de São Paulo.

Segundo ele, desde que iniciou este tipo de fiscalização no bairro, em 2017, o número de ocorrências de roubo de veículos diminuiu em comparação com o ano de 2016.

Ocorrência de roubos de veículos registradas no 54º DP:

2016 – 34/mês – 407 no ano.

2017 – 36/mês – 433/ no ano

2018 – 34/mês -139/ano – (estatísticas geradas até abril).

 

No entanto, um levantamento feito no site da Secretaria de Segurança Pública revelou que os números permanecem quase iguais nos últimos 3 anos. Os dados foram extraídos das estatísticas geradas pelo 54º DP, responsável pela região da Cidade Tiradentes.

Até abril de 2018, o 54º DP já registrou 139 ocorrências, o que representa cerca de 32% do número total do ano anterior em apenas 4 meses. Mas, apesar das centenas de ocorrências desse tipo no bairro, e de ser identificado como um local violento na periferia de São Paulo, quando comparados os números com todos os DPs da capital, que têm a soma total de 8.835*** neste ano, Cidade Tiradentes representa apenas 1,57% do montante de comunicações desse crime até agora.


BAILE OU BAGUNÇA?


A rua Thiago Apóstolo Maior é uma das vias de concentração dos fluxos aos finais de semana. O morador da região Jackson Vasconcelos (31), afirma que o barulho realmente incomoda, mas acredita que uma solução que agrade ambos os lados pode ser possível. “É horrível não conseguir dormir por causa do barulho. Na minha opinião o fluxo poderia ser realizado em um terreno aberto, longe de casas e apartamentos, pois a ideia de algo ser proibido na base da porrada não me agrada, mesmo eu não curtindo funk”.

Para Antônio Carlos Soares (44), que permitiu que seu filho Victor (16) fosse pela primeira vez à uma tabacaria da região, poderia haver um modo de dispersão mais pacífico, com megafones ou algo do tipo.

Fluxo na Cidade Tiradentes. (Foto: Reprodução)

“Eu nunca fui contra funk e sim contra a bagunça.”, responde Oziel de forma enfática quando questionado sobre a possibilidade de um diálogo amistoso com os organizadores dos fluxos. Ele conta que já houve uma tentativa de interlocução nas gestões anteriores, mas o grande problema é a falta de um representante legal que se responsabilize pelos eventos.

 

“Eu nunca fui contra funk e sim contra a bagunça.”

Oziel Souza, prefeito regional

O prefeito regional afirma estar disposto a conversar com quem quiser se apresentar e discutir o assunto e garante que estabelecimentos com acústica e com todos os alvarás de funcionamento podem ficar abertos durante toda a noite, até às 6h. Atualmente, apenas uma casa noturna na região da Cidade Tiradentes segue todos esses requisitos, e está localizada na Estrada do Iguatemi.

Thiago Alves de Souza é bacharelado em composição musical e realizou sua dissertação de mestrado sobre o “funk putaria” e as suas relações com uma “sociedade do gozo”, que preza pelo prazer e pelos exageros. Para ele, o fato dos fluxos acontecerem nas ruas e não possuírem representantes nos moldes tradicionais, possui relação com a condição social dos frequentadores destes eventos.

“A cultura do funk pode ser definida como uma forma de expressão musical e social que se relaciona com o modo de vida das pessoas adeptas ao movimento. Fazer uma celebração na rua, além de mais barato, sinaliza um abandono, a rua não é de ninguém. Na ausência do Estado, as pessoas se organizam de outro modo, com outro costume, com um próprio código de ética.”

Para realização de eventos de rua, é necessário solicitar permissão junto a Prefeitura Regional e seguir as normas do caderno técnico de procedimentos para expedição do alvará de autorização de evento temporário. Entre as principais estão o encerramento às 20h, proibição de venda de bebidas alcoólicas e laudo da CET e SPTRANS.

O jornalista e produtor de funk, Jeferson Delgado (19), acredita que esse é um caminho difícil, já que os jovens querem apenas “curtir e tomar um goró” no final de semana e encontram nos fluxos uma opção de lazer rara no bairro. “Mas se existe um diálogo aberto no Whatsapp, vale tentar negociar algo com o prefeito regional”, opina o jovem.

Delgado é morador da Zona Sul e produziu recentemente uma reportagem que mostra o lado bom do fluxo de rua e como ele movimenta a economia da região de forma produtiva. “Tem coisa boa no fluxo. Mas eu entendo que é delicado, é algo que incomoda quem tem filho pequeno ou tem que acordar cedo. É preciso procurar um caminho consciente para esses eventos”.

Foto: Jeferson Delgado

“Na ausência do Estado, as pessoas se organizam de outro modo, com outro costume, com um próprio código de ética.”

Thiago Alves, autor de estudo sobre os fluxos.

Thiago analisa o impasse que se estabelece a partir dessas tensões entre moradores que atingem diferentes bairros de São Paulo: “Sobre pensar um fluxo consciente, acredito que esse ponto é complexo. Embora existam momentos em que a comunidade de moradores abraça o fluxo, creio que, às vezes, o que desejamos [nos fluxos] é a bagunça. Além do barulho, há o lixo na rua, o cheiro de urina, o vandalismo… Assim, pra quem quer descanso e sossego, é horrível e inaceitável. Mas proibir esse tipo de manifestação é, também, extremamente autoritário. Ficamos, deste modo, em um impasse”, comenta Thiago, que também é mestre em artes pela UNESP.


FUTEBOL AMERICANO NA QUEBRADA


Nem tudo é denúncia e buraco na rua. Luiz Aguiar Alegria, morador do bairro há 28 anos e agora jogador do time de futebol americano Corinthians Steamrollers, foi um dos percursores para a criação da primeira escola municipal do esporte em São Paulo e ela fica na Cidade Tiradentes.

Ao entrar em contato com a assessoria do prefeito regional pelo Whatsapp, Alegria mencionou a ideia, que foi muito bem acolhida pela equipe, e colocada em prática. “Fui de pronto atendido pelo Oziel. É de muita importância essa presença digital, ajuda a termos mais proximidade com a Prefeitura Regional.”.

Mas ao contrário do que sugere o sobrenome, Aguiar não teve uma vida fácil. Dos 15 ao 19 anos foi usuário de drogas e chegou a viver no território conhecido como Cracolândia, no centro de São Paulo. O desencadeador para o uso de entorpecentes, segundo ele, foi o bullying na escola e a sensação constante de não ser aceito.

“[O futebol americano] é o único esporte à prova de bullying, pois precisa do magro, do gordo, do baixinho. No campo cada um tem sua função e ela é valorizada”

Luiz Aguiar, morador do bairro e jogador de futebol americano.

Após muitas internações em clínicas de reabilitação, ele encontrou no esporte a chance de dar uma volta por cima e agora levar uma oportunidade ao seu bairro. “Hoje, o futebol americano é fundamental na minha vida, ele me fez crescer como homem e como profissional. Será a chave fundamental para impedirmos que crianças e adolescentes se percam nas drogas”, comenta Aguiar. “Ele é o único esporte à prova de bullying, pois precisa do magro, do gordo, do baixinho. No campo cada um tem sua função e ela é valorizada”, completa.

A escolinha da prefeitura está na Av. dos Metalúrgicos, 370 e tem aulas toda as terça e quinta das 16:30 às 18h, sem restrição de idade. Para se inscrever basta levar um comprovante de endereço e RG.

Entre redes sociais, denúncias de buracos, fluxos de funk e gás lacrimogênio o que deve prevalecer é a lógica do diálogo. Localizada no extremo leste, como toda periferia a Cidade Tiradentes convive com a escassez de recursos, com a distância de 30 km para o centro expandido e com o desejo quase nunca atendido de jovens que querem encontrar diversão dentro do bairro. Por outro lado, moradores buscam descanso de rotinas exaustivas muitas vezes oriundas de empregos no centro da cidade. O bairro denominado dormitório precisa tomar ares de um local de convivência, para isso, as pessoas precisam de alternativas e da consciência de que o poder de decidir deve estar em suas mãos e vozes.


*De acordo com estudo feito pela Rede Nossa São Paulo – O Mapa da Desigualdade de 2016.

**A Prefeitura Regional da Cidade Tiradentes enviou nota à reportagem afirmando que “cancelou a ação denominada ‘Fiscal Voluntário’, com o intuito de rever e aprimorar as ações nos canais de denúncia. Continuamos a atender as demandas através do 156 e das mídias sociais da Prefeitura.”

***Dados até 04/2018, obtidos em SSP/estatísticas.


 

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