17 de julho de 2018

Entrevistamos a rapaziada que pixou o tradicional Beco do Batman

Os coletivos PIXOAÇÃO e ARDEPIXO pixaram o internacionalmente conhecido Beco Batman que abriga obras dos mais importantes grafiteiros do país

No último mês de maio, um grupo de pixadores realizaram uma intervenção no conhecido Beco do Batman, localizado no boêmio bairro da Vila Madalena, zona oeste de São Paulo, o pico figura entre os lugares mais importantes do mundo quando o assunto é arte mural.

O Beco é conhecido internacionalmente por seus grafites, encarado por artistas e apreciadores como uma galeria a céu aberto, abrigando obras dos melhores grafiteiros do país. Porém os coletivos PIXOAÇÃO e ARDEPIXO executaram uma ação relembrando que a pixação também faz parte da história do Beco. Pixado em letras enormes cobrindo todo chão do Beco do Batman a palavra PIXOAÇÃO marcou a estética da pixação dentro do Beco, a ideia é relembrar a origem do lugar, que se iniciou no final dos anos 1980 com a ajuda de pixadores e grafiteiros.

Intrigada com o letreiro gigante que brotou do dia para noite na Rua R. Gonçalo Afonso, a Vaidapé foi atrás dos pixadores pra trocar uma ideia e entender um pouco mais da intenção do grupo. “Se levantarmos a história do Beco do Batman, sabemos dizer que nos anos 1980/1990 pixadores da região ocupavam aquele espaço nos muros… com o passar dos anos aquelas áreas foram se “gourmetizando”, foram ganhando “status” no campo da arte.” afirma um dos pixadores.

O ato não agrediu nenhuma das obras, a pixação foi feita apenas no chão, preservando os grafites. “A ideia não era atingir na agressividade… porque o atrolepo é uma agressão, uma falta de respeito com o “atropelado”, com a vítima do ataque… e nesse caso não temos o objetivo de prejudicar e sim ocupar, mostrar que estamos aqui e que temos inteligência pra continuar dentro da nossa essência, com nossos conceitos transgressores e usando da nossa estética artística para ocupar o mesmo espaço e sem a prostituição das nossas ideologias”.

Leia a entrevista completa:

VAIDAPÉ :Quem foram os pixadores que fizeram a intervenção e o porque da escolha dos nomes?
PIXADORES:
Os pixadores que participaram da ação foram Dino, Autopsia André, Cripta Sr, JC Bombacity, Max “HISTORIART” UNIÃO OSASCO, Wemerson Friday13 e Bruno Rodrigues-Pixoação.
Fotógrafos: Fábio Vieira – pixo Fantasmas, Diego OG (Security Fail Filmes), Victor de la Rosa.
E mais a Micaela Altamirano na parte de produção e comunicação.
A ação foi uma parceria entre o selo Pixoação e o Coletivo ArdePixo, dos quais todos são participantes ou colaboradores. A escolha dos nomes foi pelo fato de alguns desses manos já desenvolverem trabalhos relacionados a instituições ou que de alguma forma tenham a intuito de levantar a bandeira do pixo enquanto uma linguagem artística, contribuindo para essa nova escalada da pixação na cena da arte. Então foi convidado quem já fez alguma coisa ou representa algo nesse sentido.
Mas o principal critério foi ligado ao fato desses nomes terem relevância na história do movimento coletivo que é a pixação. Todos esses personagens que participaram da ação têm a sua história dentro da pixação. Alguns fizeram intervenções em prédios que são marcos da cidade de São Paulo ou fizeram intervenções em prédios de grande visibilidade nos anos 1990, anos 2000. Outros são andarilhos das quebradas e têm sua importância por pixarem bastante em diversos lugares. Cada um tem sua representatividade, o seu conceito e sua história na pixação. E, o mais importante, todos estão coligados, fazem parte de uma rede a qual o intuito é cada vez mais união para alcançar objetivos comuns dentro dos conceitos que a gente acredita e segue.

Qual a importância da pixação estar inserida dentro do Beco do Batman?
Se levantarmos a história do Beco do Batman, sabemos dizer que anos 1980/1990 pixadores da região ocupavam aquele espaço nos muros… com o passar dos anos aquelas áreas foram se “gourmetizando”, foram ganhando “status” no campo da arte. Na vizinhança dos becos foram surgindo diversas galerias, espaços culturais e a arte dos becos foi sendo capitalizada, ganhou também valor monetário. A importância da pixação estar ali é resgatar a memória da origem dessa região, de quando todos tinham igualmente espaço para ocupar aquela área e de quando grafite e pixação eram vistos como transgressão, sob a mesma perspectiva.

Como o pixo está inserido na história do Beco do Batman?
TATEI TUMULOS – Eu comecei a pixar aos 12 anos de idade, em 1989, e lá atrás tinha as paradas de gangs e na Vila Madalena tinha a gang CAFAS, os únicos que pixavam os muros por ali, apareceram algumas do TCHENTO, BILÃO e outros, mas quem era os cria da vila mesmo era os CAFAS, e lá atrás a gente já tinha noção do que poderia se tornar o Beco. A gente tem foto, tem registro, tinha trampo nosso lá, eu nasci e cresci na Vila Madalena, quem tá falando não é nenhum oportunista, emocionado, eu sei o que eu to falando, eu sei o que tinha e o que não tinha. O grafite acha que dominou, mas não dominou bosta nenhuma, não tem isso de galeria A ou B, é rua irmão, é do povo.

RUI AMARAL
– O começo do Beco do Batman pra mim foi nos anos 80, quando eu e o John Harold começamos a grafitar toda vila, como foi o bairro de SoHo, em Nova Iorque, e fomos pintando lugares detonados, mocozados, que é uma das coisas legais do grafite. Por isso que a gente pintou o Beco pra tornar num lugar melhor, mais agradável, como é hoje. Depois conheci o Bacal, dei tinta pro pessoal fazer pixação, porque eu vejo como a mesma coisa do grafite, só muda a estética, que um imagem e o outro letra. A cena na época não tinha nada, a gente que começou, tanto é que eu fui preso várias vezes. O Jhon chegou até fazer um grafite dentro da delegacia. Os policiais já sabiam onde eu morava, porque começamos a pixar a luz do dia, foi a galera que começou a sair da noite, enfrentando a polícia, ficava detido horas numa sala ou cela.

A ação foi um recado aos grafiteiros?
Não foi um recado aos grafiteiros, foi um alerta a todos que interagem com os espaços ocupados nas ruas. A rua é o ambiente onde temos a oportunidade de conviver com as diferenças. Se um local que faz parte da rua passa a acolher somente um tipo de manifestação, então ele deixa de ser um ambiente democrático, um ambiente das diferenças. Ele passa a dar visibilidade para apenas alguns e apaga a existência de outros, prejudicando o direito que todos têm de ocupar os espaços públicos. Isso faz com que o espaço se torne uma espécie de espaço privatizado, que só alguns tem o privilégio de ocupar, por atenderem a determinados interesses.

Por que as pixações foram feitas no chão e não na parede?
Com o passar dos anos, alguns grupos da pixação fizeram alguns protestos, ataques, diretamente ao grafite que era colocado como um “antídoto” contra o pixo. Então a maneira que a gente pensou em fazer essa ação, não atropelando os grafites, é justamente porque outros grupos já fizeram esse tipo de ataque, então não teria sentido a gente querer bater nessa mesma tecla, de querer atropelar os grafites que ali estão, repetindo os mesmos discursos.
Na verdade, no nosso ponto de vista, o que ocupa os becos hoje em dia não pode ser considerado grafite mas sim uma arte mural. Colocar a palavra “grafite” seria uma falta de ética e respeito com aqueles que seguem as ideologias que o movimento do grafite trouxe com ele, que é a transgressão, a ilegalidade, igual a pixação.
A ideia não era atingir na agressividade… porque o atrolepo é uma agressão, uma falta de respeito com o “atropelado”, com a vítima do ataque… e nesse caso não temos o objetivo de prejudicar e sim ocupar, mostrar que estamos aqui e que temos inteligência pra continuar dentro da nossa essência, com nossos conceitos transgressores e usando da nossa estética artística para ocupar o mesmo espaço e sem a prostituição das nossas ideologias.
Então, seguindo esse ponto de vista, decidimos lançar mão da tática de usar os espaços que muitos não exploraram. Pensando estrategicamente, estudando o local e a história do bairro, organizamos uma ação que não tinha como objetivo atropelar alguém diretamente, mas intervir em um local pra onde, querendo ou não, todos acabam olhando quando caminham, que é o próprio chão.

Essa ação foi o suficiente para reinserir o pixo dentro do beco?
Essa ação inseriu um pouco mais da rua no beco. O pixo que ficou no chão do beco é o resultado de toda a performance que envolve a pixação. Pixo não é só uma marca, ele é toda a ação que está por trás, então o pixo só estará reinserido se outras ações acontecerem, se a “performance” do pixo se mantiver viva dentro do beco. A ação que fizemos foi como uma lembrança da importância de ocupar todos os espaços.
Como se dá essa relação entre o grafite e o pixo na visão de vocês?
Como já dissemos, pixo e graffiti nasceram da mesma necessidade de quebrar com a programação dos espaços, de instalar um elemento inesperado no espaço público, chamar a atenção pra existência de algo que nem sempre está evidente diante do olhar das pessoas. Porém, com a apropriação da mídia e dos poderes público e privado, uma parte do grafite (“grafite” mesmo, porque deixa de ser uma ação de vandalismo) foi se distanciando dessa essência e colocado como uma oposição à pixação, como uma arte “mais elevada”, como se a evolução da pixação fosse o grafite. Com isso, surgiram alguns conflitos, mas não se pode generalizar. A rua respeita quem respeita a rua.

A RUA GRITA

Últimos 3 dias para ajudar: Cora Primavera vai às ruas!

Criado pela Cia. Nada Pensativo, peça Cora Primavera aborda questões como transfobia e violência contra … Continuar lendo Últimos 3 dias para ajudar: Cora Primavera vai às ruas!

A RUA GRITA

Volta Negra: um caminho da História de São Paulo

A caminhada acontecerá por pontos da cidade como a Praça da Liberdade, a estação Anhangabaú de Metrô e a Praça Antônio Prado. Até o século XIX, esses locais sediavam, respectivamente, a Forca, o Mercado de Escravos e a Igreja da Nossa Senhora do Rosário dos Homens Pretos.

A RUA GRITA

Entrevistamos a rapaziada que pixou o tradicional Beco do Batman

Os coletivos PIXOAÇÃO e ARDEPIXO pixaram o internacionalmente conhecido Beco Batman que abriga obras dos … Continuar lendo Entrevistamos a rapaziada que pixou o tradicional Beco do Batman

A RUA GRITA

MINI-DOC | “Sem Saldo”

Sem Saldo é mais do que um documentário feito por estudantes secundaristas de escolas públicas … Continuar lendo MINI-DOC | “Sem Saldo”

A RUA GRITA

Menos amor, por favor

Por: Tomás Spirandelli Duarte, do blog La Sinistra* Ilustração: Pedro Mirilli Fotos: André Zuccolo e … Continuar lendo Menos amor, por favor