14 de novembro de 2018

Encontro indígena comemora formação de jovens em gestão territorial


Com uma programação que reuniu apresentações culturais, oficinas de artesanatos, contação de histórias, exposição de projetos etnoeducacionais e debates sobre política indigenista, o encontro marcou o encerramento de um dos eixos do Projeto IREHI: cuidando dos territórios.


Fotos e vídeo por João Miranda
Texto: Paulo Motoryn


Entre os dias 24 e 28 de setembro, na aldeia Cravari da Terra Indígena Manoki, no noroeste do Mato Grosso, um grande encontro reuniu indígenas de diferentes etnias para um intercâmbio em que o fortalecimento cultural e a formação política foram a grande prioridade.

Com uma programação que reuniu apresentações culturais, oficinas de artesanatos, contação de histórias, exposição de projetos etnoeducacionais e debates sobre política indigenista, o encontro foi um evento dentro do processo de Formação em Gestão Territorial do Projeto IREHI: Cuidando dos Territórios, desenvolvido pela Operação Amazônia Nativa (OPAN) www.amazonianativa.org.br com apoio do Fundo Amazônia http://www.fundoamazonia.gov.br. Com a participação de habitantes de três terras indígenas do Mato Grosso, durante os últimos três anos o projeto possibilitou a formação política e o empoderamento de jovens através de diálogos intergeracionais como seu principal objetivo.

“O mais importante é que não ficamos somente na teoria, mas também tivemos a oportunidade de aprender na prática, porque os jovens também foram para o Acampamento Terra Livre (ATL 2018) [em Brasília], participaram do Festival Juruena Vivo de 2016 e 2017 [noroeste de Mato Grosso], então viveram na prática o processo de formação”, reflete Edivaldo Manoki, anfitrião do encontro.

As atividades de formação com a juventude indígena da região tiveram início no ano de 2016, com a elaboração de um plano de trabalho para três anos de oficinas que visavam o empoderamento de jovens das terras indígenas Manoki, Menkü e Pirineus de Souza a partir de conhecimentos sobre os direitos indígenas, processos de vigilância e monitoramento territorial, associativismo e controle social.

“Um projeto como esse mostra que é certo a gente brigar pelos direitos. Os direitos nós já temos e estamos conhecendo cada vez mais, agora só falta os não-indígenas respeitarem. Falta os deputados e até o presidente entender isso”, afirma Adriano, da etnia Tawandê, que mora na Terra Indígena Pirineus de Souza.

Catiúscia de Souza, indigenista da instituição responsável pela execução do Projeto IREHI, a Operação Amazônia Nativa (OPAN), foi uma das coordenadoras das atividades de formação: “Um dos objetivos era trazer os jovens mais para perto das políticas públicas, da noção de direitos indígenas”, resume.

“Nosso objetivo sempre foi trabalhar junto às bases, junto às escolas e às comunidades. O conhecimento muitas vezes está restringido apenas a algumas lideranças, então o projeto queria trazer o conhecimento e empoderar os jovens diante do cenário de retrocesso em relação à política indigenista no país”, afirma Catiúscia.

Durante três anos, foram realizadas várias oficinas com os indígenas, que foram incentivados a participar em encontros e congressos indígenas, bem como em atos e mobilização do movimento indígena nacional. “E agora no ano de 2018, com esse evento, estamos promovendo um seminário que é uma festa cultural, mais uma etapa da formação”, diz Catiúscia.

O projeto surgiu por uma demanda das comunidades indígenas, a partir dos Planos de Gestão Ambiental e Territorial em Terras Indígenas (PGTA) http://www.funai.gov.br/pngati/, na qual os mais velhos demandaram a formação dos jovens. “A ação do IREHI é fruto disso, é fruto dessa demanda”, conclui.

Rodrigo Ferreira, indigenista da OPAN, lembra que “sempre houve apoio das comunidades inteiras, os caciques sempre estiveram presentes, os pajés, os professores, os mais velhos, as mulheres, os homens e os jovens. Isso é muito importante porque ninguém faz nada sozinho”.

O processo de formação dos jovens trouxe também benefícios adicionais para eles, como o contato com povos e lideranças de outras partes do país, que sofrem as mesmas ou outras dificuldades, mas que unidos se mobilizam e lutam por seus direitos. “O respeito se transformou em admiração, por ver jovens vencendo a timidez para falar na frente dos outros, para se expressar”, comemora Rodrigo.

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