04 de outubro de 2019

Testagem de droga indica uso de ketamina e não de crack na região da Cracolândia

Por: Iuri Salles 

O artista plástico e educador social Raphael Escobar, que tem um longo trabalho desenvolvido na região da central de São Paulo, mais especificamente no quadrilátero da Luz conhecido como Cracolândia.

O artista distribuiu 120 kits de testagem para droga como maconha, cocaína, LSD e MDMA e tentou alcançar pessoas de todas as classes sociais, com o intuito de avaliar a qualidade da droga que cada classe consome, transformou tudo isso em uma instalação polêmica no MAM (Museu de Arte Moderna se São Paulo) na 36º Panorama da Arte Brasileira: Sertão. Nós fomos até um ateliê coletivo na Vila Madalena encontrar com o Raphael e entender o que foi a sua exposição, e sacar quais foram os resultados

Conta melhor pra gente esse lance dos testes, como ele funciona?

Eu uso um reagente colorimétrico, que é a mesma coisa que a Polícia Federal usa. Por exemplo, apreenderam um contêiner de tapioca, eles vão lá pingam se ficar azul é cocaína, se não reagir é tapioca. Isso foi inventado em 1930, nem era para testar droga, como não havia a tecnologia que temos hoje, o teste era para saber com qual substância eles estavam lidando. Esse tipo de testagem vem da Holanda, que sempre foi muito avançada na redução de danos, com o boom das drogas sintéticas nos anos 90, eles criaram um serviço de testagem de droga, pro cara saber o que estava usando

E como você fez para separar as pessoas por classes sociais?

Eu entreguei um kit para pessoas de diversos bairros e diversos salários, ensinei como usar e em troca eu só pedia uma foto de whatsapp com o resultado do teste, o bairro onde a pessoa mora e o salário. Algumas pessoas não quiseram falar o salário, mas isso também é uma questão de classe, as pessoas que não queriam falar o salário eram em geral eram de lugares como Morumbi, Pacaembu, Perdizes, quebrada não tinha problema em falar do salário.

Alguma coisa te surpreendeu na pesquisa?

Uma coisa que para mim parecia óbvia mas não era para todos, é que as classes mais altas consomem uma droga muito mais pura. Cocaína é um espectro maravilhoso pra gente discutir isso, até a droga das classes mais altas possuem adulteração mas o que muda é como é feita essa adulteração, nas classes mais altas você encontra açúcar, um pouco de bicarbonato sódio. Conforme vai descendo de classe, você começa a encontrar aspirina, que queima a cartilagem do nariz, começa a aparecer Ketamina, que é analgésico pra cavalo.

Qual foi a substância que mais te impressionou?

Testagem de crack foi absurda, o crack da cracolândia foi testado e quase não ficou azul, ficou bem pouco azul, na verdade apontou para uma concentração grande de ketamina, ou seja, a galera acha que tá fumando crack e tá fumando analgésico para cavalo.

Você como uma pessoa que tem anos de trabalho na região da Cracolândia após a sua pesquisa consegue identificar padrão de vicio em ketamina e não em crack?

Eu te devolvo com outra pergunta, será que eu já vi a brisa do crack? O que precisa ser feito é um estudo sobre a composição do crack, talvez a gente encontre coisas a mais que a ketamina. Mas eu começo a repensar tudo sobre as pessoas que consomem, por que eles desmaiam? Será que é o crack? Eu não sei. Mas a princípio isso pode indicar uma mudança, todo mundo fala do problema do crack, mas talvez seja o problema da ketamina.

Qual das drogas testadas você encontra em todas as classes?

Cocaína e maconha recortam entre todas as classes, MDMA e LSD ficam entre as classes mais altas, o LSD até desceu um pouco mais, encontrei até em salários mais baixos, o MDMA não desceu. O mínimo que a galera que usa MDMA ganhava era R$2.000, R$2.500

E qual o quadro de adulteração para drogas como LSD e MDMA?

São bem menos adulteradas, no MDMA você vai encontrar um bicarbonato de sódio, que não dá nem pra dizer que é alteração ou se é resultado da fabricação. Agora no LSD eu encontrei anfetamina, e as quantidades de LSD mesmo são muito baixas, o meu teste não identifica, mas é bem provável que seja NBOMe, que é uma falsificação do LSD, e isso não depende de classe. Dá para dizer que a maioria dos brasileiros usa NBOMe e não LSD.

E qualidade da maconha varia muito a qualidade por classes?

Sim, no caso da maconha tem muita variação. Eu testei uma maconha do Jardim Europa que o teste apresentou um resultado muito concentrado de CBD, já no CEASA a gente encontrou maconha que praticamente não reagiu ao teste. A questão da maconha não é tanto de adulteração e sim o processo de “fabricação”, a maconha quando é colhida e embalada antes de secar pelo tempo correto ela produz um fungo que gera amônia.

 

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