ESPECIAL | Jardim União: Uma pequena cidade autônoma corre perigo

Especial
Jardim União
Uma pequena cidade autônoma corre perigo
Reportagem: Henrique Santana e Patricia Iglecio | Fotos: André Zuccolo

Na zona sul de São Paulo, ocupar e resistir é cotidiano de mais de 800 famílias

O Jardim da União está há um ano e meio no distrito do Grajaú, zona sul de São Paulo. Com 820 famílias distribuídas em quatro quadras, a ocupação se tornou uma pequena cidade autônoma. Com a falta de políticas do Estado, o número de famílias dobrou no decorrer do último ano. Hoje, conta com educação própria, reciclagem e agricultura.

Mesmo com a função social que exerce, o Jardim da União pode sofrer reintegração de posse a qualquer momento. O terreno, ironicamente, pertence ao CDHU (Companhia de Desenvolvimento Habitacional e Urbano do Estado de São Paulo), empresa do governo estadual responsável pelo desenvolvimento urbano e de habitações populares para pessoas de baixa renda. As autoridades alegam que a ocupação se localiza em área de manancial e, por isso, deve ser desocupada.

EDUCAÇÃO É NÓIS QUE FAZ


A creche “Filhos da Luta” foi a mais recente construção dos moradores, realizada em outubro (12) do ano passado e inaugurada no dia das crianças. A tarefa de cuidar dos mais novos é divida entre quatro mulheres, duas fazem o trabalho no turno da manhã e as outras duas à tarde.

Aldenira Amarante é conhecida por sua simpatia, o que lhe rendeu o apelido de Sorriso. Chega à creche no segundo período, já que de manhã vai ao Curso de Educação de Jovens e Adultos (Eja). “A creche foi construída com muita dificuldade. Todos os moradores ajudaram com mutirões. A gente tinha 17 crianças, esse ano diminuiu porque algumas foram chamadas para a escola”, conta a cearense, que tem três filhos cursando a faculdade graças às notas obtidas no Enem.

Sorriso diz que gosta de trabalhar com crianças e que, depois da experiência com a creche, pretende cursar pedagogia. Além de frequentar o Eja, Sorriso também vai às aulas de espanhol da ocupação, ministradas por Samuel, boliviano que também ocupa o terreno do CDHU.

Sandra de Moura, uma das coordenadoras da ocupação, ressalta que os moradores realizam trabalhos deixados ao léu pelo governo, como o que ocorre no coletivo de educação. A iniciativa conta com uma escola de futebol, aulas de capoeira e atende não só crianças da ocupação, como também de bairros vizinhos.

O Jardim da União não para por aí. Aulas de alfabetização, jiu-jitsu, cooperativa de costura e dezenas de hortas comunitárias também compõem o leque de iniciativas promovidas pela ocupação. A ideia é que as pautas se expandam em um projeto de educação popular promovido pelos próprios moradores.

“É uma tentativa de educação popular. Educar dentro da luta”, afirmou Carolina Moura, pedagoga e militante da Rede Extremo Sul, um ano atrás, quando a ocupação começava a ganhar seus moldes.

ECO-OCUPAÇÃO


Apesar de se localizar em área de mananciais, o Jardim da União está a frente de muitos bairros no quesito reciclagem. Lixo na rua não tem. Quando tem a comunidade cobra. “Tem que recolher isso aí. Se não vai entrar cobra na sua casa”, reclama Aricleiton, também coordenador, ao ver algumas caixas de madeira no meio da rua.


“A ocupação é uma responsabilidade de todo mundo. É muito mais fácil chegar alguém dizendo que manda. Mas a gente não quer isso”


Sete pessoas trabalham na reciclagem, dois homens e cinco mulheres. Entre as tarefas, há o recolhimento do lixo e a divisão de materiais que vão ser reciclados. O resto dos moradores também participam do processo, organizando o despejo para facilitar a coleta. As poucas coisas que não servem para reciclagem são levadas para uma caçamba do lado de fora da ocupação e levados pelo caminhão da prefeitura.

Maria Aparecida é mais conhecida na ocupação como Cida, a “manda chuva” da reciclagem, brinca. “Se não fosse nóis aqui dentro, ia tá cheio de lixo. Porque nóis cata o lixo todinho e traz para cá”, conta.

A coleta se dá a cada dois dias, das 8h até às 12h. O dinheiro da venda dos materiais é dividido. Parte dele fica no caixa da ocupação e o resto é distribuído igualmente entre quem trabalha na reciclagem. Em média, os trabalhos rendem R$ 250 para cada envolvido.

As mercadorias saem da ocupação no caminhão de Bruno, também morador do Jardim da União. Ele não cobra pelo deslocamento e ajuda na venda de reciclados. “Se for pagar caminhão por fora, nóis não ganha nada. Só o deslocamento do material em um carreto custa R$ 40”, explica a “manda chuva”.

Cida morava antes em casa alugada, saiu porque não tinha condição de pagar, assim como muitos dos que vivem na ocupação. “Eu pagava R$ 450 de aluguel, fora água e luz. Com o salário que eu tinha não dava para se manter. Era eu, meu marido, filho pequeno e meu outro filho rapaz.”

As mercadorias saem da ocupação no caminhão de Bruno, também morador do Jardim da União. Ele não cobra pelo deslocamento e ajuda na venda de reciclados. “Se for pagar caminhão por fora, nóis não ganha nada. Só o deslocamento do material em um carreto custa R$ 40”, explica a “manda chuva”.

Cida morava antes em casa alugada, saiu porque não tinha condição de pagar, assim como muitos dos que vivem na ocupação. “Eu pagava R$ 450 de aluguel, fora água e luz. Com o salário que eu tinha não dava para se manter. Era eu, meu marido, filho pequeno e meu outro filho rapaz.”


“Eu pagava R$ 450 de aluguel, fora água e luz. Com o salário que eu tinha não dava para se manter


A ocupante conta que atualmente sua situação melhorou. O filho mais novo vai para a creche de manhã enquanto a reciclagem funciona a todo vapor. A creche é a grande paixão de João Victor, atualmente com três anos. Aos sábados e domingos, sem os compromissos escolares, ele “chora e esperneia” e Cida tem que levá-lo até a creche para mostrar que está fechada.

AQUI NÃO TEM PATRÃO!


A estrutura do Jardim União se diferencia de muitos movimentos de moradia, buscando quebrar as estruturas de hierarquização na luta. Toda quarta-feira, o salão de assembleias ganha vida. Os moradores se reúnem para discutir questões da ocupação e deliberar decisões em conjunto. Não existe pauta fixa, os próprios ocupantes que decidem o que será discutido.

A atual coordenadora, Sandra, pontua que todas as decisões são tomadas em conjunto. “Então, quando eu saio para trabalhar não faz falta, porque tem outra pessoa que pode tocar as tarefas”, comenta.

“A ocupação é uma responsabilidade de todo mundo. Um exercício que coloca dificuldades porque é muito mais fácil chegar alguém dizendo que manda. A gente não quer isso”, explica Guto, que também milita na Rede Extremo Sul. O movimento se divide em grupos de coordenadores rotativos, uma forma de todos participarem e entenderem mais a fundo o funcionamento da ocupação.

Mariano está no terreno desde a chegada dos moradores. No passado, trabalhava na roça e hoje cuida de uma bela horta na ocupação. Com um galo embaixo do braço e um pé de couve na outra mão, desabafa: “Na roça eu trabalhava para patrão e nóis aqui não quer ter patrão”.

REINTEGRAÇÃO


Durante o ano passado, pedidos de reintegração do governo do estado foram negociados entre o movimento e promotores. A última solicitação, para que as famílias se retirassem do terreno, foi feita em dezembro do ano passado e negociada em 180 dias.

Com o fim do prazo, em março deste ano, as famílias da ocupação estão vulneráveis à autorização da juíza que permite operação da Polícia Militar e podem ser expulsas a qualquer momento.

Sandra de Moura, coordenadora da ocupação, aponta que existem promessas a “todos os momentos” por parte das autoridades. A maioria dos terrenos na região são do governo ou da prefeitura, estão ociosos e em processo de desapropriação por compreenderem áreas de manancial.

“Se a área é de manancial, eles tem como quebrar a lei. Está na mão deles [autoridades]. Toda área de Interlagos para cá (extremo sul) é de manancial e aqui tem um monte de prédios. Então, é fácil para as empreiteiras quebrarem a lei”, denuncia a coordenadora da ocupação.

‘PÉ DE GUERRA’


A situação de Sonia Santos representa um pouco da realidade das 820 famílias que vivem no Jardim da União. Há dois anos, a sua família, assim como outras 200, se mobilizaram para ocupar um terreno em Itajaí, também na área do Grajaú. A ocupação durou seis meses e sofreu cinco reintegrações de posse. A última, em setembro de 2013, foi muito violenta e destruiu os barracos.

Sonia denuncia que, durante a operação da Polícia Militar, sua neta de cinco anos, Ketly, se machucou e ficou 15 dias internada. “Correndo, enquanto meu filho a arrastava. Ela se machucou muito. Foi um susto. Cortou o pé, bateu a cabeça, desmaiou e foi um trauma”, diz.


“Era de bomba de borracha e cassetete que a gente apanhou lá dentro. Temos medo que isso aconteça de novo, porque aqui tem muita criança”


Muitas famílias perderam tudo o que tinham: documentos, móveis e roupas. Crianças e idosos se feriram e passaram mal com as bombas de gás lacrimogênio. Mesmo assim, o movimento permaneceu articulado, ocupou o terreno do Varginha e fundou o Jardim da União, onde vivem até hoje.

Atualmente, nas palavras de Sonia, a ocupação está em “pé de guerra” e pode sofrer reintegração de posse a qualquer momento.

Cida, da reciclagem, também foi vítima da violenta reintegração no Itajaí. “Era de bomba de borracha e cassetete que a gente apanhou lá dentro. Temos medo que isso aconteça de novo, porque aqui tem muita criança”, teme.

A ocupante conta, ainda, que a Tropa de Choque chegou cedo, por volta das 8h da manhã, e surpreendeu os moradores. Com um filho de oito meses no colo, ela teve que pular o muro.

OMISSÃO


A gestão do prefeito Fernando Haddad (PT) se comprometeu a lançar 55 mil habitações até o final do mandato. No entanto, até agora apenas 3 mil foram entregues à população.

No reintegrado terreno do Itajaí, a promessa era de construção de um parque. No entanto, Sandra conta que o terreno está as moscas e hoje serve como despejo de ossadas.

MANIFESTAÇÃO


Foto: André Zuccolo

A ocupação conta com algumas hortas comunitárias, Mariano é um dos moradores da ocupação e cuida de uma delas. Ele relata que, no dia cinco de março, os moradores se mobilizaram e foram até o fórum tentar adiar a reintegração.

A marcha seguiu pacífica, no entanto, a polícia agiu com agressividade e tentou apreender um dos manifestantes que se dispersou do ato. “A PM achou que nóis ia esparramar, deixar o bagulho quieto. Mas não. Foi aí que o povo se uniu mais ainda, descemos até a delegacia e não saímos de lá até soltarem nosso companheiro”, afirma.

Mariano ressalta que o movimento não age com violência durante as mobilizações e que a ocupação quer ter o reconhecimento do governo. “Todo o morador tem direito a moradia. Isso é lei! Nóis só quer que o governo entenda isso!”, explica.

Clique nas fotos para ver o ensaio | Jardim União: Dia dia regado de meto, luta e felicidade