Sumud: Faces da resistência na Palestina ocupada

صمود
SUMUD:

faces da resistência
na Palestina ocupada
POR JONAS KULAKAUSKAS, SHAJAR GOLDWASER E TAÍS HIRATA

Sumud (صمود) é resistência. Na Palestina ocupada, existir é uma forma de luta.

A expressão árabe assumiu esse papel a partir de 1967, ano em que Israel passou a controlar também os territórios da Cisjordânia e de Gaza.

Os sentidos expressos na palavra não encontram correspondente direto em outro idioma. “Existir é resistir”. Essa é a tradução escolhida pelos palestinos para tentar transmitir a história contida na palavra.

Ao longo de pouco mais de um mês, viajamos por Israel/Palestina. As histórias a seguir são fruto de nosso breve encontro com as diferentes formas de resistência à ocupação.

Não é nossa proposta traçar aqui um panorama completo sobre a questão, missão que dificilmente um único projeto poderia cumprir. Nossa intenção é compartilhar alguns dos relatos que tivemos o privilégio de ouvir e que, hoje, sentimos o compromisso de narrar.

Vale do Jordão

A vigésima quarta filha, Sumud.

Abu Sakher não ficou surpreso quando as viaturas do exército israelense se aproximaram. Ele já havia reconstruído sua casa quatro vezes, e ciente de uma nova ordem de demolição, sabia que a quinta não demoraria a chegar.

No entanto, naquela noite há oito anos atrás, Abu Sakher tentou conversar com os militares. Sua esposa tinha entrado em trabalho de parto dentro de casa e, se a levasse para o hospital, não teria tempo de tentar salvar seus pertences.

Seu apelo, como já esperava, não foi ouvido. “Eles não permitem a construção de edificações, mas minha casa não é uma edificação, é uma tenda.”. A casa de Abu Sakher é coberta com lonas, o chão é de terra e o banheiro externo não é ligado a nenhuma rede de esgoto. “Esse foi um dos dias mais difíceis da minha vida, tive  que abandonar a casa para receber minha filha mais nova, Sumud.”

Além de Sumud, ele é pai de outros 23 filhos e vive no Vale do Rio Jordão desde que nasceu, 65 anos atrás. Durante sua infância a região era controlada pela Jordânia. “Nós também éramos pobres, mas livres.”. Em 1967, com a tomada da região por Israel, os moradores começaram a conhecer um novo tipo de ocupação.

Entre os primeiros impactos da nova ocupação, Abu Sakher aponta os confiscos de rebanhos de pastoreio, que ainda hoje é um dos pilares da economia local. “A meta deles é nos expulsar daqui”.

A partir dos Acordos de Oslo, em 1993, o Vale do Rio Jordão passou a ser considerado parte da “Área C”, sob controle civil e militar de Israel. A área do Vale representa 30% do território da Cisjordânia. Os palestinos nas “Áreas C” estão sob jurisdição da lei israelense militar, enquanto os israelenses que vivem na região são julgados pela legislação civil.

Entre os primeiros impactos da nova ocupação, Abu Sakher aponta os confiscos de rebanhos de pastoreio, que ainda hoje é um dos pilares da economia local. “A meta deles é nos expulsar daqui”.

A partir dos Acordos de Oslo, em 1993, o Vale do Rio Jordão passou a ser considerado parte da “Área C”, sob controle civil e militar de Israel. A área do Vale representa 30% do território da Cisjordânia. Os palestinos nas “Áreas C” estão sob jurisdição da lei israelense militar, enquanto os israelenses que vivem na região são julgados pela legislação civil.

Com essa diferenciação os palestinos estão sujeitos a punições mais severas e aos abusos cometidos pelo exército, enquanto os colonos israelenses não podem ser presos pelo exército, e muitas vezes ficam impunes em situações de disputa de terra ou agressão à população local.

No mesmo período em que os Acordos de Oslo entraram em vigor, começaram as demolições de casas nas áreas convertidas em zonas de treinamento militar. Hoje, essas áreas já são 37% do Vale do Rio Jordão, e vem se expandindo por meio de pedidos do comando militar israelense.

“O exército aparece para as demolições nos períodos de muito calor ou muito frio, para que não tenhamos como voltar.“

Junto das demolições, se intensificou a construção de assentamentos israelenses na região. Uma pequena estrada de terra dá acesso à casa de Abu Sakher, que por muito tempo foi cercada apenas pelos campos em que ele mantem suas ovelhas. Hoje, a paisagem mudou: existem três assentamentos israelenses cercando a área, e o mais próximo está a apenas 300 metros de distância.

ACESSO RESTRITO

A construção de assentamentos trouxe também novas estradas à região, mas estas são de uso exclusivo dos colonos israelenses e diversas áreas do Vale do Rio Jordão ainda são de difícil acesso.

Abu Sakher se lembra com pesar desse aspecto da ocupação. Um de seus filhos, na época com 8 anos de idade, caiu de seu trator e feriu a cabeça. Após ligar para o serviço de emergência, a ambulância que vinha até sua casa foi parada por soldados em um posto de controle na estrada.

“Esperei por oito horas, e meu filho morreu em meus braços.”

A comunidade de Abu Sakher, Al Hadidiya, vem diminuindo progressivamente, já que são muitas as dificuldades decorrentes da ocupação. Entre elas, a violência dos colonos israelenses, as prisões arbitrárias dos palestinos, as demolições, a precariedade de serviços públicos básicos e a dificuldade no acesso à água. “Quando nasci, mais de 200 famílias viviam aqui, hoje restam 13.”

Abu Sakher já recebeu uma nova ordem de demolição, e quando perguntado por que permanece em condições tão duras, diz: “Sou como as árvores daqui, essa terra me sustenta”.

Diário de uma prisão militar

Sireen Khudairi voltava da faculdade quando foi levada pelo Exército Israelense. Pelos meses seguintes, passaria por três penitenciárias e diversos métodos de tortura.

Era 15 de maio de 2014, dia do Nakba –“a catástrofe”, em árabe. Para Israel, data de comemoração pela independência nacional. Para os palestinos, dia de protesto. Ele relembra a destruição de mais de 500 vilas e a remoção de milhares de famílias de suas terras.

Sireen passava por um checkpoint, posto de controle militar israelense. “Me pediram para descer do carro”. Enquanto isso, alguns manifestantes jogavam pedras nos guardas.

“Um soldado colocou a arma no meu ombro e começaram a atirar neles”, relembra Sireen. “Disseram que eu estava presa, me algemaram e me vendaram”.

A CADA CELA, UMA TORTURA

Levada a uma base militar na cidade de Nablus, foram 21 horas de espera.

À 1h30, foi levada para casa, mas apenas para que os soldados confiscassem seu computador. “Não deixaram que eu visse meus pais, que eu me despedisse deles”.

Levada à prisão de Jalemeh, só depois de quatro dias soube onde estava. Por 22 dias, viveu em uma cela de isolamento, de 2 metros cúbicos, onde dormia e fazia suas necessidades.

Depois disso, passou uma semana na prisão de Ashkelon. Em seguida, retornou a Jalameh.

“Eles foram tão violentos. Usaram de todos os meios para conseguir informações, tortura psicológica e física”.